Chuvas castigam cidades e evidenciam inação dos governantes

*Texto da jornalista Giovanna Castro

Em meio a tanta comoção por causa do desabamento de uma gigantesca quantidade de terra do Morro do Bumba, no Rio de Janeiro, esta semana, vi uma foto que me tocou de uma forma diferente da que vinha tocando, diante da “over” cobertura feita pela imprensa brasileira, em todos os canais de TV, sites, jornais impressos, revistas, blogs e outros veículos mais. A foto mostrava sob uma montanha de barro, lixo (o local era um lixão clandestino, há 25 anos) e lama, uma mulher e uma criança aos seus pés, deitada, nitidamente surpreendidas pela avalanche que avançou dentro da escuridão daquele morro em Niterói, levando tudo que encontrava pela frente. Ambos mortos.

Beleza da Cidade Maravilhosa foi ofuscada, nesta semana, pela tragédia provocada pela chuva

Imediatamente pensei sobre o sentimento que teria invadido aquele bombeiro que se inclinava sobre os dois corpos, sem mais qualquer esperança. Uma tragédia. Mas uma tragédia anunciadíssima, como tantas tragédias que poderiam ser evitadas no Brasil.  Vi inúmeros programas de TV meio que colocando a culpa da tragédia na ocupação desordenada, o que é um fato, mas atribuindo à negação dos moradores em sair do local de risco. Mas a análise é tão simplista quanto parece a displicência de seguidos governos que ignoraram a situação e permitiram que casas fossem construídas no local.

Aquelas pessoas estão ali, nitidamente, por falta de opção. Ninguém escolhe morar em cima de um terreno instável, fofo e cheio de lixo em decomposição porque quer. Essas pessoas não possuem conhecimento técnico para avaliar as condições sejam favoráveis ou desfavoráveis de determinado terreno. Na falta de uma política habitacional que contemple todos os brasileiros, na falta de ação do poder público que simplesmente ignora a parcela mais humilde da população, o que resta aos mais pobres? Construir com orgulho e sacrifíco sua morada, sua residência,  seu lar, seu refúgio, no lugar onde dá.

Não consigo admitir órgãos públicos de Defesa Civil emitindo alertas para moradores de áreas de riscos e claramente se eximindo da responsabilidade ao dizer em notas encaminhadas para a imprensa “a Defesa Civil recomenda que ao menor sinal de chuvas e rachaduras nos imóveis, as pessoas se retirem das suas casas”. Lindo! Mas e a alternativa? Para onde essas pessoas vão? Para a casa do vizinho, que está submetida ao mesmo risco, à casas de familiares, provavelmente em outros lugares da cidade que sofrem sem esperança a ação das chuvas? Vão para debaixo das pontes?

Carnaval em Salvador, assim como no Rio, é produto vendido como face mais brilhante do povo que vive nestes lugares

É preciso que os governantes comecem a atentar que os cargos que ocupam não se prestam somente a locupletação. Ao assumir um cargo na prefeitura de uma cidade, qualquer uma, ele assume o compromisso de ser um administrador. Cabe ao administrador fazer as coisas funcionarem, o que, vergonhosamente, não vem acontecendo nem no Rio de Janeiro e muito menos em Salvador, que não tem tanta visibilidade na mídia nacional como tem a cidade maravilhosa.

Pelos lados de cá, o caos é o mesmo em época de chuvas. Todo ano, as tragédias se repetem, moradores de áreas humildes perdem bens acumulados em uma vida inteira de trabalho duro, e vidas são perdidas impunemente. Foram mais de 200 mortos no Rio.

Quantos terão que morrer em Salvador para que alguma providência seja tomada? O mais leigo dos soteropolitanos e o mais distraído em questões climáticas sabe que, ano após ano, entre os meses de março e abril, as chuvas castigam a cidade e o estado. Onde estão as ações preventivas? O que é oferecido para essas pessoas? Ajuda de custo por alguns meses em valores pífios que não dão conta de um aluguel decente? É altamente frustrante perceber que as pessoas se encontram temerosas em relação ao período de chuvas e sentem que a história se repetirá com famílias chorando seus mortos e suas perdas afetivas e materiais.

E não venham afirmar que é falta de dinheiro para ações preventivas. O dinheiro chega através do governo federal como chegou a Salvador no ano passado, quando a cidade ficou em estado de emergência em decorrência dos temporais, e chegou também ao Rio de Janeiro nesta tragédia de agora. Para onde foi o dinheiro? Porque com esta verba, não foram construídos conjuntos habitacionais, com estrutura urbana, presença do poder público e saneamento básico? Agora, como antes, as pessoas sofrerão madrugadas insones esperando por uma ajuda divina que não parece chegar.

Alegria do povo e belezas naturais desviam a atenção das agruras enfrentadas pelos soteropolitanos no dia a dia

Quem morrer neste ano de 2010, por causa da chuvarada, quem perder seus bens, vai ouvir o quê do poder público? Até quando essa história vai se repetir? Até quando os governantes vão se dedicar às áreas mais nobres das cidades,
construindo belas praças para a classe média, com banquinhos e brinquedos de balanço, tapando rios, indo numa total contramão das iniciativas tomadas em outros lugares do mundo, e relegando a nenhum plano, os mais pobres, os bairros suburbanos, as pessoas que usam o ineficiente e insuficiente sistema de transporte coletivo e tem que esperar a condução embaixo de abrigos que não abrigam nada, que molham quando chove e queimam quando faz sol.

Parece lugar comum, mas é a mais pura realidade: e se os políticos morassem em áreas de risco no subúrbio, precisassem tomar ônibus para se locomover na cidade e  “fizessem uso” da cidade no seu cotidiano, coisas como essas aconteceriam? Essa postura precisa mudar, o governante precisa estar conectado com as necessidades do povo que está sob sua responsabilidade. E aqui, vem mais um lugar comum, o voto precisa ser usado com consciência. Não basta esbravejar que não há opções, que as alternativas postas na urna eletrônica são igualmente ruins. Há que se agir, exercer seu direito até que os governantes incompetentes sejam banidos das administrações públicas. Leva tempo, muito tempo, mas a mudança ainda está em nossas mãos.

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