Conto: O ambulante, o motorista e a água

Sinal vermelho. Enquanto os carros aguardavam na fila a indicação para seguir adiante, os vendedores ambulantes passeavam de um lado a outro, mercando garrafas de água e refrigerante. “Ei, me arranja uma água? Quanto é?”, berrou o condutor. Ágil, o ambulante correu para o lado dele: “Um real”, oferecendo a garrafinha de 500ml. O motorista sacou do bolso uma nota de dois reais e, ao tentar pagar pela água, ouviu um: “Não tenho troco”.

Para tentar garantir a venda, o ambulante começa a chamar por um colega do outro lado da pista. “Ô Jaiiiiir…”. Insistentemente ele grita o nome do amigo, na esperança de que ele tenha um real para o troco. Mas Jair, entretido em sua própria negociação com um outro motorista, não ouviu o apelo. O sinal abriu. O condutor precisava dar a partida no carro e, sem troco, devolveu a garrafinha. Sem titubear, o vendedor retrucou: “Não, moço, leve a água. Pode levar pra beber. O senhor não vai ficar com sede, não”.

A reação foi imediata. O motorista sorriu um pouco constrangido, agradeceu a gentileza e entregou a nota de dois reais. “E você pode ficar com o troco”. O vendedor segurou a nota e retribuiu o sorriso e o agradecimento. Rapidamente, correu para o passeio, liberando a pista ao trânsito. O motorista arrastou o carro, seguindo seu caminho, divagando sobre a situação. Há quanto tempo vivenciara algo assim? Não lembrava. Mas percebeu, naquele momento, que ainda havia esperança na humanidade e que solidariedade podia ser mais que uma palavra no dicionário.

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