Impressões de uma visita: Museu Rodin da Bahia

*Texto da jornalista Giovanna Castro

Definitivamente não sou uma especialista em arte, logo não posso fazer nenhuma análise crítica em relação ao assunto, porque certamente incorreria em erros grotescos e incorreções históricas. Mas não sou do tipo que fala “isso, até meu filho de 2 anos faria”. Admiro arte e gosto de frequentar exposições de fotografias, quadros, esculturas, instalações, e que tais. Por causa disso, reservei um dia das minhas férias para fazer a visita que vinha adiando há tempos, ao Palacete das Artes,  o Museu Rodin da Bahia.

Essa sou euzinha de cabelos encaracolados, no começo da carreira, pensando ao lado do Pensador, de Rodin

Fui com a expectativa de quem, alguns anos atrás, viu peças originais de Rodin em bronze mesmo, quando algumas delas vieram a Salvador e ficaram expostas no Museu de Arte da Bahia (MAB). Ou seja, esperava sentir o mesmo impacto que senti ao ver “O pensador”, imponente e desafiador à imaginação de alguém que, quando vê uma obra de arte antiga, se põe a pensar em como aquilo foi feito há tantos anos com tão poucos recursos além do brilhantismo e da genialidade do artista e o que se passava na cabeça do escultor, neste caso Auguste Rodin.

Portão do Inferno foi criado sob encomenda a partir dos temas da Divina Comédia, de Dante

Quando vi Rodin pela primeira vez, há cerca de 10 anos, senti uma grande emoção por estar no mesmo ambiente de obras tão representativas da história da arte mundial, afinal de contas Rodin foi o escultor que introduziu o movimento nas esculturas pois, até então, pelo que entendi das informações disponibillizadas nos espaços do Palacete, estes objetos não representavam mais do que imagens e situações estáticas.

Aqui em Salvador, segundo dados da Secretaria de Cultura do Estado, a exposição que chegou ao MAB em 2001, atraiu cerca de 52 mil visitantes de diferentes faixas etárias e classes sociais. Este número, ainda conforme dados da Secult, não foi superado por qualquer outra exposição. Já a mostra atual, com obras originais em gesso de Rodin, recebeu somente no primeiro mês, entre outubro e novembro do ano passado, cerca de 14 mil visitantes.

Foi, mais uma vez, uma boa experiência sair do barulho da cidade, me recolher em um ambiente quase solene (adoro museus porque me transportam quase que magicamente a outros tempos, contextos e culturas) e mergulhar na obra de Rodin, inclusive apreciando uma réplica do seu ateliê todo cheio de gesso espalhado pelo chão e obras inacabadas, conceito este que Rodin também contribuiu para revolucionar.

Isto porque em muitas das suas obras faltam propositalmente braços, pernas, partes do corpo que são completadas pela imaginação e pelo sentimento do observador. No entanto, devo confessar que saí de lá um tanto frustrada. Explico o porquê. Ao todo, são 62 peças originais de gesso que deram origem às famosas peças em gesso que foram criadas para fazer parte do Portão do Inferno, peça encomendada ao artista com a determinação de usar temas tirados da Divina Comédia, de Dante. O fato de serem moldes de gesso, ainda que tenham sido manipulados diretamente pelo artista, tira bastante do impacto que as obras em bronze proporcionam.

"A Bailarina de 14 anos", obra-prima do francês Edgar Degas

Eu já vi exposições de arte em alguns importantes museus fora da Bahia e posso afirmar que o esforço do Palacete em proporcionar uma experiência única ao observador é interessante. Os totens circulares feitos em acrílico permitem, com algumas exceções, a visão da peça por todos os ângulos, coisa que faço sempre, ainda que algumas pessoas me olhem um estranho por eu estar levando tanto tempo encarando, contornando e me inclinando para ver uma escultura.

No entanto, as placas de identificação de determinadas peças seguem uma ordem pouco lógica pois há placas com informações de uma peça que se encontra do outro lado da sala de exposição. Isso me incomodou bastante a ponto de questionar um dos monitores presentes no local. A resposta que obtive foi que aquela ordenação segue o “estilo francês de montar exposição”, uma vez que foi a equipe do Museu de Rodin, na França, que fez todo o trabalho aqui, conforme consta no contrato estabelecido que também prevê a permanência do material por três anos em terras soteropolitanas.

Não me conformei com a explicação porque não faz sentido, acredito que a obra deve vir devidamente identificada com nome, data de criação e autor, além de outras informações, em um local que permita a contemplação juntamente com a absorção de informações. Outra coisa que me incomodou bastante foi o fato de aquele ambiente magnificamente suntuoso estar ocupado com apenas uma exposição. O espaço está lindíssimo, belamente conservado, mas abriga apenas as obras de Rodin.

Compreendo o fato de o museu ter sido criado unicamente para receber as obras do francês, mas acredito que outros espaços na mesma área, que existem mas estão vazios, poderiam expor trabalhos de outros escultores nacionais e locais, com linguagens contemporâneas ou de inspiração anterior.

A visita não dura mais do que uma hora, o que me deixou uma sensação de desperdício quando a questão é levar para o museu uma população que não frequenta tais espaços habitualmente (o acesso é gratuito) e precisa ser irremediavelmente conquistada para sempre. Falo de formação de platéia, e público se forma com forte sedução, coisa que não senti no Palacete das Artes – Museu Rodin da Bahia.

Obra de Vik Muniz, feita em chocolate, reproduzindo um momento de criação do artista americano Jackson Pollock

É lógico que isso é apenas uma opinião minha, mas é a sensação de alguém que já viu de perto coisas lindas impactantes como as exposições do gravurista, pintor e escultor, também francês, Edgar Degas e Vik Muniz. Até hoje me lembro de “Quatro bailarinas em cena” e “Mulher enxugando o braço esquerdo (após o banho)”, além da belíssima “Bailarina de 14 anos”, rica e expressiva escultura em bronze e tecido. Assim como as belas fotografias manipuladas pelo fotógrafo brasileiro reconhecidíssimo mundialmente Vik Muniz, com chocolate, macarrão com molho, geléia, doce de leite, sucata, brinquedos de criança e diamantes. Experiências sensorias que ficaram para sempre impressas na minha memória.

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Exposição celebra chegada de Carybé à Bahia

Carybé em seu estúdio / Crédito: Acervo da família
Carybé em seu estúdio / Crédito: Acervo da família

A magia contida nas linhas de Jubiabá, um dos romances mais famosos de Jorge Amado, foi suficiente para trazer à Bahia o argentino, nascido em Buenos Aires, Hector Julio Paride Bernabó, lá pelos idos de 1938. Você não sabe quem é Hector Bernabó? E se eu chamá-lo pelo apelido que recebeu ainda na infância, quando era escoteiro, Carybé? Mesmo que não conheça a fundo a vida desse artista plástico, escultor, gravador, cenografista, jornalista, diretor de arte, multitalentoso baiano de coração – ele naturalizou-se brasileiro em 1957 e foi agraciado na mesma época com o título de cidadão da Bahia -, com certeza, já viu espalhadas pelas ruas de Salvador, obras que levam sua assinatura. Se for soteropolitano do dendê (carioca é que é da gema), conhece os gradis que cercam o Museu de Arte da Bahia (MAM-BA) ou o Campo Grande (praça 2 de Julho); ou já viu a escultura de uma mulher com o filho enganchado nos quadris, na entrada do shopping Iguatemi; ou ainda, os paineis no Teatro Castro Alves. Se for baiano e seguidor do Candomblé, mais especificamente frequêntador do terreiro do Ilê Axé Opô Afonjá, em São Gonçalo do Retiro, já viu obras do artista e referências a ele no lugar de honra reservado aos obás (ministros) de Xangô da casa. Mesmo que seja turista, ao desembarcar no Aeroporto Internacional da capital baiana, no seu roteiro até a saída, há um painel do artista.

Caribé mostra que é bom também no pandeiro / Crédito: Acervo da família
Caribé mostra que é bom também no pandeiro / Crédito: Acervo da família

Com tanto de Carybé impregnado na cidade, era de se esperar uma homenagem. E vai haver mesmo uma série delas. A partir do dia 24 de abril até 31 de maio, quem é da terra ou de outros cantos do mundo, está convidado para dar uma passadinha no MAM, ali na Ladeira da Av. Contorno, para conferir a exposição Carybé – 70 anos de Bahia. Organizada pelo Instituto Carybé, com patrocínio da iniciativa privada e apoio do governo estadual, a mostra reunirá 200 obras que retratam a pluralidade de temas e técnicas utilizadas pelo artista ao longo da sua trajetória.  Serão pinturas, esculturas, gravuras, paineis, murais, ilustrações de livros (Carybé era um dos principais ilustradores das obras do amigo Jorge Amado), objetos pessoais, os figurinos que criou para cinema, teatro e balé; a exibição de dois filmes (O Cangaceiro, em que assina a direção de arte) e o documentário O capeta Carybé, sobre sua vida. Para completar, seus cadernos de viagem, com esboços e diários de bordo retratando as andanças pela Europa, Oriente e Brasil serão exibidas pela primeira vez.

A garrafa verde - A hora do cão / Crédito: Sérgio Benutti (divulgação)
A garrafa verde - A hora do cão / Crédito: Sérgio Benutti (divulgação)

Também conteúdo inédito da exposição são as pinturas de países da América e o Gabinete de Humor Erótico, essa parte reservada apenas aos maiores de 18 anos, com desenhos e pinturas mais calientes do argentino-baiano. Ficou sem fôlego? Pois nem fique, porque os organizadores do megaevento ainda montaram um passeio cultural chamado Rota Carybé, que consiste em percorrer 19 pontos de Salvador onde existem interferências do artista na área urbana. Alguns desses pontos foram citados ali no começo do post, mas creiam que tem muito mais Carybé na atmosfera da soterópolis.

E as homenagens não se limitam à exposição. Carybé, morto em outubro de 1997, vai virar selo comemorativo dos Correios e Telegráfos. Reconhecendo o valor da obra do artista para a cultura baiana e nacional, o painel do aeroporto será totalmente restaurado através da iniciativa de uma empresa privada. A exemplo do que ocorre no Chile, com as casas onde Pablo Neruda viveu, o Instituto Carybé pretende ainda restaurar a sua antiga residência, no bairro da Boa Vista de Brotas, e transformá-la em um memorial e centro cultural aberto ao público.

Bahia, 1971 / Crédito: Sérgio Benutti (divulgação
Bahia, 1971 / Crédito: Sérgio Benutti (divulgação)

 Reserve espaço na agenda, porque vale a pena:

O quê: Exposição Carybé – 70 anos de Bahia

Onde:  Museu de Arte da Bahia – Ladeira da Av. Contorno, centro de Salvador

Quando: de terça a domingo, das 13h às 19h; sábados, das 13h às 21h

Período: de 24 de abril até 31 de maio

Entrada: gratuita

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Os três anos do Museu da Língua Portuguesa

Entrada do Museu
Entrada do Museu

O Museu da Língua Portuguesa está fazendo aniversário hoje. São três anos de informação e muita cultura para a população da capital paulista e seus visitantes. Localizado no edifício histórico da Estação da Luz, na Praça da Luz, o local aposta no diferencial, utilizando tecnologia de ponta e recursos interativos para expor palavras.

O que temos são telas, teclas, sons, imagens, cores… um show de material interativo. Onde está a lógica disso tudo? A própria justificativa da idealização do museu explica: a língua portuguesa, o acervo do museu, é um patrimônio imaterial. Não poderia, portanto, estar aprisionado em redomas de vidro.

O preço para a visita é módico (hoje custa R$ 4) e é possível programar visitações em grupo, bastando fazer uma inscrição prévia por meio do telefone ou e-mail que estão logo no final deste texto. Estudantes com carteirinha ou comprovante de matrícula pagam meia-entrada. Professores da rede pública com holerite e RG, crianças até 10 anos e adultos a partir de 60 anos não pagam ingresso. Vale lembrar que aos sábados a visitação é gratuita.  

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>> Assista à reportagem sobre o museu


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Ao entrar nas instalações do museu, a sensação é que estamos em um espaço vivo. A história da língua portuguesa se  espalha pelas salas, há apresentações em vídeos, monitores interativos e todos podem interagir com as telas, conhecendo um pouco mais da nossa cultura verbal, oral e escrita.

O objetivo é valorizar a língua portuguesa, a diversidade cultural brasileira, apontando a língua como elemento fundamental e fundador da nossa cultura. Paralelamente, há uma série de atividades, como cursos, palestras seminários, apresentações gratuitas, dentre outras.

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>> Veja a apresentação multimídia do Museu da Língua Portuguesa
>> Site oficial, com agenda, dicas e informações úteis
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É um passeio que vale muito à pena para aqueles que estão de passagem pela capital paulista. A gente sai de lá muito mais apaixonado pela língua portuguesa e com uma compreensão infinitamente maior da construção do nosso idioma e de sua importância como elemento firmador de uma cultura e da identidade de um povo.

Projeção de filme sobre a língua
Projeção de filme sobre a língua

São três andares de muita arte. No primeiro, as exposições temporárias. No segundo piso, a grande galeria exibe projeções simultâneas de filmes que valorizam o uso cotidiano da língua, e os totens se dedicam a mostrar as influências e os povos que contribuíram para a formação do nosso português. É lá também que painéis explicam a história da Estação da Luz e jogos eletrônicos possibilitam os visitantes brincarem com a formação das palavras. E no terceiro andar, um auditório onde um filme de dez minutos é exibido sobre as origens da língua portuguesa falada no Brasil.

Se tem um passeio do qual não há como se arrepender, aqui está ele. Vamos valorizar nossa cultura!!!

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Serviço:
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>> Agende suas visitas:
(11) 3326-0775 ou agendamento@museudalinguaportuguesa.org.br
>> Bilheteria:
Terça a domingo, das 10h às 17h.
>> Museu:
Terça a domingo, das 10h às 18h (não abre às segundas-feiras)
Endereço: Praça da Luz, s/nº, Centro – São Paulo – SP
>> Mais informações:
 (11) 3326-0775 ou museu@museudalinguaportuguesa.org.br

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