Que 2011 seja melhor do que esse que passou…

*Texto da jornalista Giovanna Castro

É triste constatar, mas o ano de 2010 foi marcado pela violência. Do começo ao fim, foram 12 meses de crimes bárbaros, mortes no trânsito, assassinatos, assaltos a ônibus e chacinas. Este ano, nem mesmo o futebol contribuiu para desviar a atenção das pessoas do medo de andar nas ruas e se deparar com marginais. A Copa do Mundo da África, primeira no continente negro, decepcionou com a Seleção Brasileira saindo pela porta dos fundos. O time do Vitória frustrou a torcida ao cair para a segunda divisão do campeonato brasileiro contra todos os prognósticos e estatísticas. Feliz mesmo, só a torcida do Bahia, que deixou para trás 7 anos de azar pra ser alçada à elite do futebol nacional. Bom, ainda assim, 2X1 para a tristeza, isso no futebol, porque na vida cotidiana, a população baiana perdeu de goleada.

A cidade sofreu, como sofre todos os anos, com as chuvas que voltaram a deixar muita gente morta e muitos vivos desatinados com a inoperância do poder público que, mais uma vez, não se programou, não planejou, não fez obras que há muito são necessárias e não deu o devido suporte para quem ficou sem ter onde morar e perdeu parentes para o aguaceiro (veja fotos do período). Mas, talvez, o fato mais marcante do ano, diante do seu ineditismo, tenha sido mesmo o imbróglio das barracas de praia. Por força de determinação da justiça, os barraqueiros foram obrigados a sair de área de marinha delimitada, o que é proibido por lei, e acabou por deixar muitos trabalhadores desempregados, mais de três mil pessoas, pra ser mais exata. Os donos das barracas grandes e melhor estruturadas também tiveram seus equipamentos demolidos mas não contam tanto, pois muitos deles já se reergueram em outros negócios ou mudaram de ramo (veja fotos da derrubada das barracas).

Sobrou mas uma vez para a população que, acostumada com a cultura da barraca de praia e do atendimento à beira do mar – ainda que um serviço sofrivelmente ineficiente e pouco higiênico, em sua maioria – dividiu-se entre os favoráveis e contrários à extinção das barracas. Quem não tinha alternativa e não quis perder o lazer das praias, recorreu à saída de improvisar a velha “farofa” e levar para não passar fome durante a diversão. Fato é que a situação não foi resolvida e os quilômetros de orla mostram-se à deriva e à espera de alguma alternativa do poder público que possa contemplar, a um só tempo, o hábito cultural do baiano sem desrespeitar determinações legais. Mas isso é assunto que ainda vai render muito em 2011.

Outro processo marcante em 2010 foram as eleições majoritárias, em que pela primeira vez, uma mulher foi eleita presidente da República no Brasil. Com a candidatura turbinada pelo carisma e poder de transferência de votos do presidente Lula, Dilma Roussef conseguiu vencer uma disputa marcada pela baixaria e invencionices em um pleito em que propostas foram deixadas de lado para favorecer uma troca de acusações que lembrou a fatídica eleição presidencial de 1989, em que Lula foi derrotado pelo surgimento de uma filha fora do casamento. Episódio altamente explorado por parte da mídia, assim como o episódio da bolinha de papel também foi este ano, mas com resultados diferentes. Naquele momento, Lula não conseguiu se reeleger. Este ano, Dilma por pouco não sofreu um inesperado revés.

2011 começa com uma mulher no mais importante cargo da República já com uma série de desafios a enfrentar

No cenário local, poucas mudanças, com a reeleição de Jaques Wagner e a promessa de realizar ações que não foram cumpridas ao longo do primeiro mandato, como atitudes concretas contra a degradação da segurança pública na Bahia, que passou a ser palco de acontecimentos antes só vistos em cidades historicamente violentas, como a decapitação com requintes de tortura de duas adolescentes por traficantes em um caso ainda envolto em mistério. Em outro episódio forte que chocou os soteropolitanos foi a morte do menino Joel, um garoto de 10 anos, que se preparava para dormir dentro de casa, dentro do seu quarto, quando foi atingido mortalmente por duas balas disparadas por policiais que agiam no bairro de Nordeste de Amaralina. Espero que este caso não caia na vala comum daquele velho ditado citado por nossas avós “Quem morreu, é que perdeu a vida” e que a justiça seja feita para que casos assim não se repitam, ceifando vidas de inocentes. Acompanhe o vídeo da Bahiatursa em que Joel aparece contando seu sonho de ser mestre de capoeira.

Mas não foi somente de violência que Salvador se ressentiu durante este ano de 2010. A cidade sofreu com lixo, com buracos, com falta de estrutura, com o famigerado transporte público e com o mais que prometido, nunca chegado, e sempre frustrante metrô da capital. O menor metrô do mundo, foi prometido, começaria a operar este ano, mas novamente não foi desta vez que a montanha de dinheiro investida no sistema começou a dar retorno para a população em forma de um serviço que nos faz falta: limpo, eficiente, rápido, pontual e com preço justo. Mas, em vez disso, as luzes do ano são fechadas com a notícia de mais um aumento na tarifa do nosso péssimo transporte coletivo que agora vai passar a custar R$2,50, uma das mais caras do país, se não a mais cara, se formos levar em conta a questão custo-benefício.

Marcante também foi a implosão da Fonte Nova, um equipamento da cidade que fez parte de muitas vidas, seja de torcedores ou não, seja de amantes do Vitória ou do Bahia. Um dia que entrou nos corações das pessoas que passavam pela região do Dique do Tororó durante pelo menos 50 anos e que agora já não vêem mais o estádio no horizonte. Episódio que pode representar o começo de uma transformação necessária para a cidade que será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 e que precisa de muita infraestrutura, seja em termos de mobilidade urbana, no que diz respeito ao conforto de seus cidadãos que precisam de um lugar que já é prazeroso de se viver por suas belezas naturais, mas que necessita crescer impulsionado pelas ações humanas. Relembre o post sobre a implosão da Fonte Nova.

Para nós, do Conversa de Menina, foi um ano de consolidação de uma ideia que brotou de duas cabeças brilhantes (Alane e Andreia) e se mostrou vitoriosa. Foram 12 meses de trabalho honesto, troca de ideias, maior aproximação com os leitores e de fortalecimento da credibilidade conquistada com o aval dos nossos leitores. Fazer os posts do blog é um exercício diário de reflexão, de tolerância, de entendimento e de compartilhamento das opiniões dos outros e é nisso que acreditamos a cada dia.

A despeito de todas as mazelas vividas em 2010, o ano não foi somente de coisas ruins, afinal, cada pessoa passou por apertos, mas também experimentou conquistas pessoais que valem muito e cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é, com o perdão do clichê. Nossa cidade nos ofertou com seu clima, com as pessoas, sempre agradáveis e dispostas a fazer contato com o outro e donas de um humor inigualável. Morar em Salvador, na Bahia, é bom demais e para nós três, soteropolitanas que somos, compartilhar nossas ideias, visão de mundo, cultura e opiniões é mais do que recompensador. Feliz Ano Novo para todos vocês, leitores e leitoras do Conversa de Menina! Que 2011 venha cheio de coisas boas e que a gente possa seguir sempre em frente em busca do que é melhor para nossas vidas, em todos os aspectos. Até o ano que vem!

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Breve comentário sobre a eleição de Dilma

O Brasil terá a primeira presidenta da sua história. A petista Dilma Rousseff foi eleita, com aproximadamente 56% dos votos do eleitorado nacional. Nos últimos dias, ouvi diversos comentários sobre o pleito, participei de uma série de bate-papos sobre o assunto. Muita gente questionando o papel de Dilma, afirmando ser ela desconhecida e inexperiente. Ouvi sobre a falta de carisma, sobre o receio de que ela poderia afundar o País. Ouvi também críticas à população, sobre o equívoco que muitos estavam cometendo ao achar que, votando em Dilma, estariam votando em Lula.

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>> Veja os resultados do 1º e 2º turnos, geral e por região
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Não participei diretamente da cobertura de eleições este ano. Como jornalista, minhas atribuições neste período passaram longe do acompanhamento do pleito. Como cidadã, conversei muito e dividi opiniões neste momento de mobilização política. Fiz questão de pensar a respeito do assunto, de tentar minimamente entender o contexto histórico de mudanças que estamos presenciando. Num distante amanhã (quando tudo isso for atropelado pelo passar do tempo), estarão muitos levantando teses sobre os últimos anos de transformações políticas. É o efeito do passado.

A meu ver, quando a população decidiu dar um basta no reinado direitista em 2002, ao eleger Lula, não se sabia muito bem o que seria o governo petista. Claro que Lula fez promessas tentadoras durante a campanha, mas nós não sabíamos quem, de fato, era o político Lula. Imaginávamos o que esperar de um Governo de esquerda, por todas as ideias disseminadas nas campanhas, mas, na prática, precisamos pagar para ver. Quando criticam o fato de a população colocar no poder uma desconhecida, me lembro muito claramente de que com Lula fizemos a mesma coisa. Em 2002, assumimos o risco de ter um Governo que prometia muito, mas que nunca havia assumido o poder. Até porque o primeiro cargo político de Lula fora a Presidência da República.

Muitos vão questionar que é diferente. Que Lula já havia concorrido à Presidência em diversas oportunidades (1989, 1994, 1998, 2002 e 2004). Que ele tem uma história de luta social; que fora presidente do Partido dos Trabalhadores; que participou da assembleia constituinte responsável pela elaboração da Constituição Federal de 1988; que embora não tivesse assumido nenhum cargo eletivo, tinha a vivência política a seu favor. E eu concordo que tudo isso tenha sido relevante para a formação do político Lula. E é mesmo diferente votar em Lula e votar em Dilma. São pessoas diferentes, não é? Não haveria como ser igual. Não existia a menor possibilidade de ser igual.

Mas o que quero dizer com toda essa discussão é que o voto em Dilma significa a vontade nacional de manter uma situação. Significa que o povo, de alguma maneira, aprovou a forma de condução gerenciada por Lula. Mesmo com o escândalo do mensalão estourando no governo dele, mesmo com o caso Erenice, só para exemplificar, a população admitiu, nas urnas, preferir a esquerda no poder. Votar em Dilma, no meu entendimento, tem a ver com a vontade de que a liderança do País continue na linha desenvolvida por Lula. Nossa opção foi correr mais um risco, foi votar acreditando que Dilma vai manter, na essência, o modelo de Governo de Lula.

Não, não acho que a população votou em uma desconhecida. Acho que a população votou em uma ideologia, ainda que fragilizada. É o voto de confiança.

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O que Dilma já fez?*
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>> Militou na Polop (Organização Revolucionária Marxista – Política Operária).
>> Integrou o Colina (Comando de Libertação Nacional), movimento adepto da luta armada.
>> Recebeu treinamento de guerrilha, embora não tenha participado de ações armadas
>> Foi presa em São Paulo e ficou detida na Oban (Operação Bandeirantes), onde foi torturada. Foi condenada a 6 anos e 1 mês de prisão, além ter os direitos políticos cassados por dez anos. Conseguiu redução da pena junto ao STM (Superior Tribunal Militar).
>> Formou-se em Economia pela UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), sendo demitida da FEE (Fundação de Economia e Estatística), órgão do governo gaúcho, após ter seu nome incluido em uma lista de “subversivos”.
>> Atuou no governo do Rio Grande do Sul, nas secretárias da Fazenda e de Energia, Minas e Comunicações, e nos governos de Alceu Collares (PDT) e Olívio Dutra (PT).
>> Fez campanha para Leonel Brizola (PDT), candidato a presidente; no segundo turno, apoiou Lula (PT). Desfiliou-se do PDT em 2001, quando entrou no PT.
>> Assumiu o cargo de Ministra de Minas e Energia do governo Lula.
>> Se tornou ministra-chefe da Casa Civil no lugar de José Dirceu.
>> Foi indicada pelo presidente Lula como gestora do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento).
>> Foi eleita a primeira mulher presidente do Brasil.

*Fonte: UOL

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PS: Não estamos defendendo nenhum posicionamento político aqui. A intenção deste post é debater um ponto considerado relevante durante as discussões a respeito da sucessão presidencial.
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