Reflexões sobre o caso Geisy

Expulsão – O que levaria a Universidade Bandeirantes a expulsar Geisy Arruda, a jovem vítima do episódio de hostilidade pelo uso de um minivestido nas dependências da instituição? Ao ler a notícia anunciando a expulsão – embora no mesmo dia a decisão tenha sido revogada – me obriguei a refletir sobre o assunto. Geisy Arruda sai escoltada da UnibanNão importa o que tenha motivado a decisão da instituição, considero que a medida foi um verdadeiro “tiro no pé”.

A princípio, imagino que a questão crucial tenha sido uma estratégia jurídica. Geisy não foi expulsa pelo uso do minivestido ou por ter assumido, como justificou a faculdade, uma conduta que teria provocado todo o tumulto. Se a atitude da jovem não condizia com os preceitos da instituição, porque a expulsão só veio depois do ocorrido? Para mim, foi apenas uma manobra da universidade que seria utilizada como fundamento de defesa na ação movida pela jovem.

Trocando em miúdos, a universidade poderia estar pensando em argumentar na sua defesa que a atitude da jovem não se adequava aos preceitos da faculdade. E que foi expulsa por esta razão. Não justifica. Não convence. O argumento é tão sem fundamento que chega a ser irritante. Tão sem fundamento que logo em seguida os diretores recuaram da decisão. Seria esse o tratamento que a jovem merecia depois de tudo o que sofreu nas dependências da faculdade?

Educação – E que exemplo uma instituição de ensino poderia dar em uma situação como essas? Um de seus alunos é vítima da ira dos demais por um motivo fútil. O que fazer? Primordialmente, o papel da universidade é promover a educação por meio das discussões. O que eu esperava daquela instituição era um papel de guardiã do Estado democrático de Direito, como todos devemos ser.

Por que, então, ao invés de buscar punir a jovem, a instituição não pensou em promover palestras para debater o assunto nas suas próprias dependências? Não é ali um local de formação de indivíduos, de seres mais humanos, de pensadores? Que exemplo a Uniban está dando com uma atitude mais hostil ainda que aquela apresentada por seu alunado diante da jovem? Que sociedade é essa que estamos construindo, em que a própria universidade, centro de disseminação do conhecimento, toma atitude tão reprovável e fica por isso mesmo?

Comportamento – Ninguém merece passar pelo que aquela jovem passou. Sair escoltada da própria sala de aula, coberta por roupas emprestadas pelos professores, cercada de policiais e apavorada com a possibilidade de ser agredida a qualquer instante? Ver sua vida virada pelo avesso, estampada nas capas de jornais e revistas… E o pior, a meu ver, é ler a opinião de alguns estudantes e até professores da faculdade sobre o episódio.

Muitos se posicionaram no sentido de que a roupa da menina e seu comportamento justificavam a reação dos colegas. Pergunto-me: usar um  shortinho curto e apertado agora vai justificar o estupro? A vítima de assédio será considerada a verdadeira responsável pelo crime apenas porque é bonita e atraente?Teremos uma revolução legislativa que vai atenuar a pena daquele que estuprou uma mulher porque estava ela com roupas que despertaram o seu desejo?

Não consigo conceber que, em pleno século XXI, o uso de determinadas roupas seja aceito como justificativa para atitudes brutais e animalescas.

Espetáculo midiático – Chegamos a um momento em que é preciso refletir, promover o debate. Não dá para transformar a história em um espetáculo midiático, ganhar audiência com ela, sem que seja ela alvo de uma avaliação da própria sociedade. Todos exaltam o papel social do jornalismo, a ponto de tentar tornar absoluto o direito à liberdade de expressão, a ponto de considerar qualquer restrição um ato grave de censura.

Mas, nos momentos em que mais percebemos a necessidade desta postura de responsável pela formação da opinião de indivíduos esse papel parece evaporar-se diante da necessidade econômica. Tenho acompanhado a cobertura deste episódio desde o início. Salvam-se uns pela postura de seriedade e de indignação pelo ocorrido, a maioria, no entanto, entra de cabeça na história comovente da jovem de baixa condição massacrada por colegas.

Isso vende. O espetáculo vende. E se vende, é porque alguém tem interesse em comprar. Fato é que, recentemente, já foi noticiado o aplique colocado na estudante e a tintura no cabelo, ambos oferecidos por um cabeleireiro comovido (????) com a história da menina. E isso virou notícia! E a hostilidade dos colegas? E a postura da universidade? Que espaço teremos para discutir estas questões?

Quem dará voz a este debate, o mais importante de todos? É o que me pergunto diariamente.

=======================
Leia também:

>> O que Mary Quant diria sobre os universitários do ABC?
>> Caso Uniban: carta de repúdio da UNE

=======================

Leia Mais

Caso Uniban: carta de repúdio da UNE

Recebemos uma carta assinada pela diretoria de mulheres da União Nacional dos Estudantes (UNE) repudiando o ato da Universidade Bandeirantes (Uniban) que decidiu, pasmem, expulsar a estudante de turismo hostilizada, humilhada e atacada pelos colegas de curso por ter ido à aula usando uma minissaia. Reproduzimos a íntegra da carta, pois o alerta da UNE nos dá muito no que pensar enquanto sociedade (incluindo o papel da imprensa, que se arvora o título de representante da população), confiram:

=======================================

*UNE repudia expulsão da estudante de Turismo da UNIBAN

Diretoria de Mulheres divulga nova nota sobre o caso de machismo da UNIBAN

Episódio de violência sexista acaba em mais uma demonstração de machismo

No dia 22 de outubro, o Brasil assistiu cenas de selvageria. Uma estudante de turismo da Universidade Bandeirante (São Paulo) foi vítima de um dos crimes mais combatidos na sociedade, a violência sexista, que é aquela cometida contra as mulheres pelo fato de serem tratadas como objetos, sob uma relação de poder desigual na qual estão subordinadas aos homens. Nesse episódio, a estudante foi perseguida e agredida pelos colegas, hipoteticamente pelo tamanho de vestido que usava, e só pôde deixar o campus escoltada pela polícia. Alguns dos alunos que a insultaram gritavam que queriam estuprá-la. Desde quando há justificativa para o estupro ou toleramos esse tipo de violência?

Pasmem, essa história absurda teve um desfecho ainda mais esdrúxulo. A Universidade, espaço de diálogo onde deveriam ser construídas relações sociais livres de opressões e preconceitos, termina por reproduzir lamentavelmente as contradições da sociedade, dando sinais de que vive na era das cavernas.

Além de não punir os estudantes envolvidos na violência sexista, responsabiliza a aluna pelo crime cometido contra ela e a expulsa da universidade de forma arbitrária, como se dissessem que, para manter a ordem, as mulheres devem continuar no lugar que estão, secundárias à história e marginalizadas do espaço do conhecimento.

É naturalizado, fruto de uma construção cultural, e não biológica, que os homens não podem controlar seus instintos sexuais e as mulheres devem se resguardar em roupas que não ponham seus corpos à mostra. Os homens podem até andar sem camisa, mas as mulheres devem seguir regras de conduta e comportamento ideais, a partir de um padrão estético que a condiciona a viver sob as rédeas da sociedade, que por sua vez é controlada pelos homens.

Esse desfecho, somado às diversas abordagens destorcidas do fato na mídia, demonstram a situação de opressão que todas nós, mulheres, vivemos em nosso cotidiano. Situação em que mulheres e tudo o que está relacionado a elas são desvalorizados e depreciados. A mulher é vista como uma mercadoria – ora utilizada para vender algum produto, ora tolhida de autonomia e direitos, ora violentada, estigmatizada e depreciada. É essa concepção que acaba por produzir e reproduzir o machismo, violência e sexismo, próprios do patriarcado. Tal concepção permitiu o desrespeito a estudante.

Nós, mulheres estudantes brasileiras, em contraposição a essa situação, estamos constantemente em luta até que todas as mulheres sejam livres do machismo, da violência, do desrespeito e da opressão que nos cerca.

Repudiamos o ato de violência dos alunos contra a estudante de turismo, repudiamos a reação da mídia que insiste em mistificar o fato e não colocar a violência de cunho sexista no centro do debate e denunciamos a atitude da universidade de punir a estudante ao invés daqueles que provocaram tal situação.

Exigimos que a matrícula­ da estudante seja mantida, que a Universidade se retrate publicamente e que todos os agressores sejam julgados e condenados não somente pela instituição, a Uniban, mas também pela Justiça brasileira.

Somos Mulheres e Não Mercadoria!

*Diretoria de Mulheres da UNE -União Nacional dos Estudantes

==================================

Leia também:

>>O que Mary Quant diria sobre os universitários do ABC?

 

Leia Mais