Especial Dia da Criança: “ser” criança

No terceiro artigo da série Especial Dia da Criança, a diretora do Instituto Canção Nova, Shirleya Nunes de Santana fala sobre a missão dos educadores na formação da meninada e relembra a figura da educadora Zilda Arns, morta no terremoto do Haiti, ano passado, e de sua importância para mudar a forma como a pedagogia brasileira passou a encarar a infância depois das ações pioneiras da pesquisadora e militante em prol das causas infantis. Zilda Arns, que era também médida pediatra, tinha um importante trabalho no combate a mortalidade infantil e materna, não só no Brasil, mas em diversos países. Confiram:

E nesta terça-feira, os últimos quatro artigos da série!

A riqueza imensurável do “ser” criança

*Shirleya Nunes de Santana

É impressionante como o conviver com crianças nos leva muitas vezes a lembrar de quão belo é ser criança e de como elas se aventuram nas coisas e situações da vida com todo entusiasmo, sem medo de errar. Amam, choram, caem, sorriem, são amigas, brigam e fazem as pazes rapidamente, pois o ser criança implica em ser “livre” para demonstrar esses e tantos outros sentimentos e ações. Criança é criança e ponto!

A valorização dessa fase é primordial e faz toda a diferença na formação do futuro adolescente, do jovem, do homem ou mulher. E essa preocupação nos ajuda a tocar em tudo o que ela exige. É uma fase de cuidados e descobertas, para cada criança e para cada educador. Quem trabalha com crianças lida com o “novo” e com o “desprender-se” todos os dias. Entender sentimentos e ações é simples. O desafio é amar e demonstrar esse amor. E muitas vezes nós, educadores, premidos pelas responsabilidades do dia a dia, nos distanciamos dessa pureza e decisão de amar.

Pediatria social era uma das especialidades da médica e educadora Zilda Arns, incansável militante no combate a mortalidade infantil

A atividade educacional vai além do cotidiano escolar, estendendo-se a atividades nos finais de semana e inserindo o educador diretamente na vida e família de cada aluno. É uma missão envolvente, de grandes descobertas e de riqueza incalculável. Passam os anos, as turmas se renovam, mas o espírito de dedicação e de mútuo aprendizado é sempre o mesmo. O educador sempre ganha com as crianças a oportunidade de resgatar em si mesmo a “criança” que com o tempo acaba adormecida, impedindo o adulto de ser verdadeiro como os pequenos.

Houve uma mulher em nossa sociedade que foi e é referência para o Brasil e o mundo no que diz respeito à busca do entender e respeitar a criança como um todo. E sempre sem olhar onde, como e a quem serviu. Bastava ser uma criança e lá estavam ela e aqueles que com ela acreditavam na ajuda real, afetiva e concreta aos pequeninos. Zilda Arns Neumann, arrancada de nosso convívio durante um terremoto no Haiti, é o nome dessa mulher. Como médica, ensinou a educadores e pais o respeito e o amor pelas crianças, vistas como “um todo” em formação. Isso fez e faz a diferença.

Comemoramos o “Dia da Criança”, mas precisamos comemorar diariamente o dom da vida de uma criança, que se traduz na sua liberdade e simplicidade. As crianças carregam a mais bela forma de amar e o ato de construí-las é um dos mais nobres gestos de amor. Portanto, quando formos comemorar ou pensar na criança, olhemos mais que brinquedos ou travessuras, olhemos o belo presente que é ter uma criança perto de nós. Amor, atenção, educação, saúde e respeito são bons presentes para esses pequenos que se tornarão grandes homens e grandes mulheres, a exemplo da nossa querida Zilda Arns.

*Shirleya Nunes de Santana é diretora do Instituto Canção Nova – Unidade 2 da Rede de Desenvolvimento Social da Canção Nova.

**Material encaminhado ao blog pela Ex-Libris Comunicação Integrada

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Leia os posts anteriores da série:

>>Especial Dia da Criança: Preservação ambiental

>>Especial Dia da Criança: Avós e netos

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Luto: Morre Zilda Arns, mulher que fez a diferença

Zilda Arns em uma de suas palestras. Crédito das imagens: Agência Brasil

A médica pediatra e sanitarista Zilda Arns, criadora das pastorais da Criança e do idoso, indicada ao prêmio Nobel da Paz em 2006, foi uma das vítimas do forte terremoto que abalou o Haiti e foi sentido em boa parte do pacífico caribenho nesta terça-feira à noite. Zilda Arns viajou ao Haiti para fazer uma palestra sobre combate à desnutrição e voltaria para casa no próximo sábado, dia 16. Infelizmente, quis o destino que ela estivesse no local de uma tragédia de grandes proporções. Foram três terromotos, um deles alcançou 7 graus, o mais alto na escala Richter. Os abalos derrubaram um hospital e diversos edifícios e casas, ferindo moradores e turistas de Porto Príncipe, a capital haitiana. Também atingiu as instalações do exército brasileiro – há tropas do país, inclusive baianos, servindo nas forças de paz da ONU naquela ilha – e até a embaixada brasileira foi afetada. Enquanto os governos do Brasil e EUA tentam mitigar o sofrimento dos haitianos e descobrir informações sobre as vítimas, Conversa de Menina faz uma singela homenagem à Zilda Arns, uma mulher que sem dúvida, ao longo dos seus 76 anos de vida, fez a diferença.

Alguns anos atrás, fui uma das repórteres que entrevistou a médica durante um evento da pastoral da criança, em Salvador. Fiquei impressionada com a força de caráter e a bondade e delicadeza demonstrados por aquela senhora quase da idade da minha mãe, tão ativa e dinâmica, cheia de energia e com tanta vontade de ajudar aos outros. Incansável, ela vivia viajando, militava pela diminuição da mortalidade infantil nos países subdesenvolvidos, militava contra  a fome, era inteligentíssima e profunda conhecedora da natureza humana.

Para quem tem curiosidade em saber mais sobre quem foi Zilda Arns, abaixo uma resumida biografia:

Pediatria social era uma das especialidades da médica, incansável militante no combate a mortalidade infantil e manterna

Zilda Arns nasceu em agosto de 1934, em Santa Catarina. Era irmã do cardeal e arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns.  Estudou medicina em Curitiba e escolheu a pediatria como carreira, tendo trabalhado durante anos em prol da diminuição da mortalidade infantil e materna e pelo fim da violência doméstica contra crianças. Ao longo da carreira, fez dezenas de cursos de especialização: em medicina sanitária, educação física, pediatria social, educação em saúde materno-infantil. No começo dos anos 80, ela coordenou a primeira grande campanha de vacinação contra a poliomielite em Santa Catarina e o método que ela desenvolveu foi posteriormente adotado pelo Ministério da Saúde em todo o país. Em 1983,  criou a Pastoral da Criança e desde então, percorreu diversos países no seu trabalho como médica, sanitarista e divulgando os trabalhos da pastoral. Os caminhos da solidariedade levaram Zilda Arns até a Indonésia, Angola, Estados Unidos e quase toda a Europa. Graças ao trabalho na pastoral da Criança, essa mulher que ainda encontrou tempo para criar cinco filhos sozinha – ficou viúva em 1978 – recebeu da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), a missão de criar a Pastoral da Pessoa Idosa, o que ela fez em 2004. Por sua luta em prol da infância, Zilda Arns recebeu diversos prêmios e títulos nacionais e internacionais. Além da indicação ao Nobel, um dos prêmios internacionais de destaque foi o título como “heroína da saúde pública das Américas”, concedido pela Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS).

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