O que Mary Quant diria sobre os universitários do ABC?

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Quem diria que Mary Quant, lá nos anos 60, inventaria uma peça de roupa capaz de despertar tanto ódio

*Texto da jornalista Giovanna Castro

Outubro de 2009, século XXI, São Bernardo do Campo, cidade do complexo ABCD, pedaço do Brasil dos mais pujantes dentro do mais pujante estado e que se auto-vangloria de ser cosmopolita e moderno – São Paulo. Setembro de 1968, século XX, Atlantic City, Estados Unidos – então a maior potência mundial, título que ainda ostenta embora ultimamente bastante alquebrado pela crise -, controverso episódio Bra-Burning, ou Queima de Sutiãs, para os íntimos. Apenas quatro anos antes, a estilista Mary Quant havia criado a ousadíssima minissaia.

Uma distância de exatos 41 anos entre os dois períodos destacados não foi suficiente, no entanto, para evitar a execração pública de uma jovem de 20 anos,  estudante de Turismo da Uniban, no “B” do centro industrial paulista, que resolveu ir à aula com um vestido curto, não tão mais curto do que qualquer menina de hoje em dia usa na rua no nosso ensolarado e calorento país.

O que pode ter acontecido, fico me perguntando, ao mesmo tempo em que relembro as cenas de uma faculdade em fúria, alunos agitados, de celulares em punho gravando o acontecimento e prestes a pular em cima da moça? Centenas de homens e mulheres engrossavam os gritos de “puta! puta! puta!”, enquanto ela saía da sala de aula em que havia se refugiado – na tentativa frustrada de aguardar que os ânimos se acalmassem – visivelmente constrangida e escoltada por cinco policiais. “Eles estavam possuídos. Fiquei com muito medo”, disse a jovem, depois do ocorrido.

No que pensavam as moças e rapazes que se concentraram de forma ameaçadora expressando sua opinião intolerante em relação a uma minissaia? Que nem era tão mini assim conforme se vê no vídeos postados no Youtube pelos universitários… Penso na palavra “moral”, na expressão “bons costumes”, mas nada disso faz sentido quando se trata da massa revoltada.

São os mesmos que nas baladas se orgulham de ter beijado não sei quantos ou não sei quantas numa única noite, os mesmos que têm cada vez mais liberdade para dormir com seus namorados (as) na casa dos pais, que se reúnem em grupos identificados justamente pela roupa que vestem, que alardeiam a prática do sexo e curam suas consequências com a pílula do dia seguinte. Que contradição é essa? Hipocrisia?

E, mais do que isso, trata-se de jovens estudantes que, na academia, deveriam estar assimilando conteúdo, aprendendo a eliminar o preconceito, a respeitar os outros e usar da criatividade em prol da sociedade. Mas não, eles se aglomeraram para “protestar” contra a minissaia da colega. Me impressiona mais ainda o desprezo expressado no diálogo entre duas mulheres cujas vozes soam ao fundo da gravação: “Ela tá chorando gente”, uma delas se solidariza. Enquanto a outra cospe: “Dane-se!”.

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Pernas femininas continuam virando a cabeça deles e delas

Injustificável a postura masculina diante do episódio, já que vivemos num mundo machista, apesar de quererem nos convencer de que as coisas estão mudando, porém imperdoável para as mulheres. Porque não a solidariedade? Porque não a proteção? Porque não a identificação? Por acaso aquelas meninas se sentiram ameaçadas no seu território? A jovem de vestido curto é uma ameaça para seus namorados, amantes, maridos, ficantes? Questão complexa, essa, até porque as escolas têm se transformado em verdadeiros desfiles de moda. Atualmente, meninas, adolescentes e jovens se arrumam para a escola como se estivessem indo pra uma festa, visando alcançar objetivos nada acadêmicos.

Este episódio reflete, a meu ver, uma crise de valores pela qual passa a sociedade contemporânea. Não já disseram que o direito de um termina onde começa o direito do outro? O que a jovem do ABC fez de tão ofensivo à alma e à conduta dos demais estudantes da Uniban? O que os estudantes da Uniban queriam fazer com essa moça, ao tentar invadir em massa a sala de aula em que ela se refugiara?

A contemporaneidade exige comportamentos e posturas diferentes, as coisas andam muito mais flexíveis, ainda que muito à beira do precipício do exagero. Só que não é possível voltarmos ao tempo da barbárie, do tacape e dos puxões de cabelo. Porque um vestido curto foi associado à prostituição? O que há de diferente nessa moça das top modelos das passarelas que mostram seus corpos, das atrizes que fazem cenas de sexo na novela das 19h e das meninas que saem à noite vestidas para matar o primeiro incauto que aparecer?

Chocante a atitude dos alunos, homens e mulheres, surpreendente a posição do segurança da faculdade: “Mas também que roupa curta, hein?”, disse irônico e desrespeitoso após ser chamado para proteger a aluna da turba desenbestada. Enfim, todo esse episódio me cheira àqueles comentários absurdos e neanderthais que, não raro, alguns fazem ao saber de notícias de estupro. “Ah, mas ela deu lugar, né? Com aquele vestido provocante, queria o quê? Nenhum homem aguenta…”. Mary Quant não poderia imaginar que sua invenção fosse alvo de tamanho ódio e rejeição tanto tempo depois.

4 comentários em “O que Mary Quant diria sobre os universitários do ABC?

  1. Eu não entendo! A roupa da menina não era tão curta assim! Já vi piores até na rua!!!

    O que querem? Que as mulheres vistam burca?

    Estou mesmo indignada. Tadinha…

  2. Nossa!! Que absurdo!! E sabe o que é pior? Ela foi criticada por mulheres. Teoricamente deveríamos nos apoiar e acabamos nos deparando com mulheres verdadeiramente machistas.

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