Conto: Conformismo

Crédito da ilustração: Clarissa Pacheco

-Você conseguiu o mais difícil, me fazer baixar a guarda… e agora quem levanta a guarda é você… Depois de tanta insistência, você simplesmente recua… Eu não consigo te entender…

[silêncio]

-O que eu preciso fazer pra você confiar em mim? Pra você acreditar que eu estou a fim de enfrentar o mundo por nós dois? Pra te mostrar que eu estou disposta a comprar essa briga, mesmo sabendo o quanto vai ser difícil…

-É medo…

-Medo? Medo de que?

-Medo de correr o risco e perder você… Medo de assumir essa relação, de comprar essa briga e tudo dar errado… Do jeito que estamos, mesmo que dessa forma estranha de viver a dois, terei você a vida inteira. Se a gente arriscar e não der certo, perderei você pra sempre…

-Mas você não acha que a gente pode se esforçar pra fazer dar certo ao invés de deixar de arriscar por medo de dar errado? Você não acha que esse é um risco que vale a pena correr?

-Você não entende… O risco de perder você nunca valerá a pena correr.

[Lágrima e silêncio]

[Silêncio e lágrima]

– Eu amo você. Mas nunca vou poder ter você do jeito que eu quero. E eu prefiro te ter por perto assim, desse jeito, apenas em minha cama, do que não ter você em minha vida. É o conformismo mais medíocre que já vivi.

[Silêncio e adeus]

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Comodismo e zona de conforto: uma reflexão

A gente demora a compreender algumas coisas. A gente demora a se adaptar a uma nova realidade. Tendemos a nos prender ao passado, mantemos determinadas situações apenas por medo da mudança. O comodismo é compreensível, porque são tantos os traumas ao longo da vida, que nos conformamos com as situações teoricamente estáveis.

É difícil mudar isso, é difícil recomeçar, deixar para trás, esquecer, ignorar. Mas o recomeço pode lhe trazer novas perspectivas. E, por isso, não desperdice a oportunidade de pelo menos pensar sobre a possibilidade de dar um novo rumo a sua vida, de mudar a direção.

Muitas vezes nos acomodamos sem nem mesmo perceber. O tempo é cruel, ele passa, não importa o que aconteça. Dia a dia ele continuará se arrastando e te arrastando junto com ele, ainda que você implore para que ele te conceda um pouco mais de tempo.

O comodismo pode se instalar em diversos setores de sua vida, tanto no lado pessoal quanto no profissional, e se caracteriza, muitas vezes, pela atitude mecânica que começamos a impor para cumprir determinadas rotinas. Deixamos de pensar, de analisar, de construir e ligamos o piloto automático.

No dicionário, o comodismo está ligado ao egoísmo, à atitude de cuidar apenas de si. No nosso cotidiano, demos um novo sentido a ele, mais voltado à atitude de aquietar-se, de se conformar com uma situação pelo simples receio da mudança. Costumamos resistir às mudanças, e esta resistência se transforma em um obstáculo à adaptação à nova realidade.

Alguns psicólogos explicam que as novas rotinas exigem uma re-estruturação da função cerebral. Como nosso cérebro costuma fazer as coisas do mesmo jeito sempre, a novidade exige dele a criação de um novo padrão funcional. É trabalhoso, claro, despende energia.

O comodismo muitas vezes reflete o ter uma situação estável e ser infeliz nesta situação. Aqui a infelicidade não precisa ser necessariamente exaustiva ou crônica. Pode ser apenas sistemática, por exemplo. Pode ser aquela infelicidade vislumbrada simplesmente porque não estamos felizes e realizados dentro daquele contexto.

Daí que nos acostumados a viver a vida daquele jeito. Não é uma infelicidade que imprescindivelmente traz lágrimas aos olhos, mas pode ser aquela que não leva o riso à boca. É o não estar plenamente feliz e aceitar passivamente esta condição. É a tal da zona de conforto ocupando espaço em nossas vidas.

A inquietação é essencial, os questionamentos idem. E a felicidade, meninos e meninas, a felicidade deve ser inalienável, direito fundamental de todo cidadão. E é pela busca deste estado de espírito que precisamos nos mexer mais, lutar mais e acreditar nas possibilidades.

Às vezes precisamos perceber melhor a tal zona de conforto. Talvez ela não seja tão confortável assim, e você esteja apenas com medo do que te espera lá fora. Tudo bem se você chegar à conclusão que prefere que seja assim. O importante é ter a iniciativa de pensar sobre isso a ponto de ter a chance de fazer uma opção, qualquer que seja ela.

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