Artigo: Ditadura da Beleza x Atitudes Extremas

Estava selecionando material para o blog nesta segunda-feira, em dúvida se publicava post sobre exercícios físicos para gestantes ou pilates na terceira idade, ou ainda se escrevia sobre o divórcio – post que prometi há algum tempo para vocês – quando meu email acusou mensagem nova. Era o texto abaixo, enviado pela Accesso e de autoria do cirurgião plástico Maurício de Maio. O tema, embora já tenha sido tratado diversas vezes, por profissionais das mais diversas áreas, chamou minha atenção por ser abordado por um cirurgião plástico. Foi uma grata surpresa perceber que alguém que vive da beleza tenha um senso crítico tão apurado sobre a obsessão em ser belo que toma conta de homens e mulheres na contemporaneidade. Não que em outras épocas da história não tenha havido essa super valorização da estética, mas nunca com contornos iguais aos de agora. Os posts sobre divórcio, pilates e ginástica para grávidas vão esperar mais um pouco. Enquanto isso, confiram o artigo sobre a ditadura da beleza e pensem um pouco no assunto:

=========================================================

*DITADURA DA BELEZA X ATITUDES EXTREMAS

por **Maurício de Maio

O dismórfico é aquele que não consegue se enxergar como é na realidade, mas como imagina que seja. Meninas anoréxicas, por exemplo, sempre se veem gordas diante do espelho, embora estejam esqueléticas

Muito antes de Vinícius afirmar que beleza é fundamental, a necessidade de ser belo já influenciava a sociedade no culto e na aspiração de atingir o padrão estético vigente. Há casos em que essa pressão atua de forma perversa, e leva o indivíduo a desenvolver distúrbios psicológicos sérios.

Na natureza, a beleza tem um papel importante para a evolução, pois determina a seleção dos parceiros. É por isso que, em geral, os machos são mais coloridos e vistosos, pois precisam se sobressair para seduzir as fêmeas. Com a raça humana tem acontecido justamente o oposto. Enquanto os homens são valorizados por sua capacidade intelectual e pelo sucesso profissional e financeiro, o que está diretamente relacionado à função de manter e sustentar a família, as mulheres tornaram-se objeto da beleza. Espera-se, então, que sejam eternamente jovens e atraentes.

Há sociedades que chegam a atitudes extremas. Na China Milenar, por exemplo, era costume enfaixar os pés das meninas nobres para que os pés não crescessem. Pé pequeno era sinal de delicadeza, ao mesmo tempo em que simbolicamente representava o controle masculino. É possível citar ainda as famosas Mulheres-Girafa da Ásia, que usavam argolas na adolescência para aumentar de duas a três vezes o comprimento do pescoço. Assim como no caso das meninas chinesas, a ideia aqui não era só adequá-las a um padrão estético, mas também mantê-las sob o domínio dos homens, já que não poderiam mais sobreviver sem as argolas.

Se voltarmos à era pré-histórica, quando os homens saíam para caçar e as mulheres ficavam o tempo todo em casa cuidando dos filhos, entendemos, por exemplo, o porquê de a pele clara ter se tornado sinônimo de beleza. O fato é que elas praticamente não se expunham ao sol. Isso se perpetuou até a década de 20, com o look bronzeado proposto por Channel, que passou a ser associado à saúde e sensualidade.

Com a chegada ao mercado de trabalho, cada vez mais mulheres preferem adiar o casamento em detrimento do desenvolvimento profissional. Ainda assim elas continuam a ser selecionadas pelos parceiros em função da beleza, ou seja, precisam estar sempre bem cuidadas e arrumadas.

Nem mesmo os momentos de crise impediram que as mulheres continuassem a investir em beleza. Há registros de que durante a Segunda Guerra Mundial os gastos com cosméticos chegaram a superar os com alimentos. Esse fenômeno, que recentemente voltou a se manifestar com a crise financeira internacional, foi batizado pelos especialistas econômicos de “Lipstick Effect”.

A verdade é que envelhecer e não atender ao padrão de beleza causa sofrimento a algumas pessoas. Exemplo disso é que mulheres muito belas na juventude tendem a entrar em depressão com a perda do alto padrão estético. É quando iniciam uma busca desenfreada por procedimentos rejuvenescedores e, pela falta de conhecimento, acreditam que o excesso de produtos trará de volta os anos que passaram, o que é tecnicamente impossível e nada natural.

De uns cinco anos para cá, os homens também começam a sofrer com a ditadura da beleza. Não somente os metrossexuais, indivíduos altamente focados nos cuidados pessoais e com a imagem, mas também executivos de altos cargos que se sentem impactados pelo envelhecimento, que prejudica o desenvolvimento e manutenção de seu status profissional, tornaram-se símbolo desse novo padrão de comportamento masculino que valoriza a estética.

Seja homem ou mulher, a questão é que a busca desenfreada pela juventude e beleza se torna um grande problema para aqueles que sofreram algum tipo de perda, que se acham velhos.     Pessoas que sofreram retaliação na infância e/ou adolescência, período importante do desenvolvimento psicológico, podem apresentar traumas difíceis de curar. Há casos em que mesmo após uma cirurgia plástica corretiva, o paciente continua se vendo com o nariz grande e largo, no mesmo padrão de sua adolescência.

Michael Jackson, um dos exemplos mais famosos de cirurgia plástica feita de forma obssessiva e irresponsável

Também são muito comuns situações em que o indivíduo renega seus sinais raciais. Os asiáticos vão atrás das cirurgias popularmente conhecidas como de “ocidentalização”, nas quais é possível deixar os olhos mais abertos, arredondados e com o sulco palpebral evidente. A mudança do nariz é demanda recorrente, também por parte de afrodescendentes. Enquanto os asiáticos querem aumentar a altura do perfil do nariz, os afrodescendentes buscam o afinamento da ponta e das narinas.

Chamados de distúrbios dismórficos, os casos considerados mais graves revelam pacientes extremamente preocupados e angustiados com mínimos detalhes de sua aparência e nunca se satisfazem com nenhum tratamento. Acabam se fragilizando muito quando, em especial, não atingem seu objetivo, que na maioria das vezes é irreal.

O fato de existirem técnicas que possibilitam essas modificações não significa que não haja um limite. Não se pode esquecer que após cada ato cirúrgico há um processo inflamatório e de fibrose. E quanto mais se opera uma determinada área, mais risco existe de comprometer a vascularização e a nutrição das estruturas faciais.

Recentes avanços na medicina possibilitam o uso de métodos não-cirúrgicos, promovendo resultados similares ou iguais sem o risco excessivo de fibrose, necrose parcial ou total do tecido. Entretanto, isso não isenta a responsabilidade que o médico tem de orientar seu paciente sobre os limites para não prejudicar a saúde, ainda mais quando for detectado qualquer problema psicológico.

Independente do que seja feito e de como a sociedade evolua, a beleza tende a continuar a exercer um papel de ditadora. Trata-se, como já vimos, de um instinto de sobrevivência. Mesmo assim, a busca pelo padrão estético ideal ou pela juventude pode ser vista como um estímulo à busca pelo equilíbrio e por uma vida mais saudável. Basta que, para isso, cada um tenha consciência de seus limites. Sejam médicos ou pacientes.

*Material encaminhado ao blog pela Accesso Comunicação

** Maurício de Maio é cirurgião plástico, mestre em Medicina e doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Também é consultor internacional e autor dos seguintes livros: “Tratado de Medicina Estética”, Ed. Roca/ Brasil em 2004; “Fillers in Aesthetic Medicine (Substância de Preenchimento em Medicina Estética)”, Ed. Springer-Verlag/ Alemanha, em 2006; e “Botulinum Toxin in Aesthetic Medicine (Toxina Botulínica na Medicina Estética)”, Ed. Springer-Verlag/ Alemanha, em 2007, os dois últimos traduzidos para o português, espanhol e coreano.

Leia Mais

Escravos da beleza: quando você vai se libertar?

Uma breve observação e você vai perceber que todos estão parecendo cada dia mais iguais. A moda dita, a televisão vende e a gente compra. O culto à beleza ganhou tamanha proporção, que hoje a sensação é que todos são iguais. A começar pelo corpo, todo mundo é saradinho, graças às horas dedicadas à malhação intensa. Isso virou obrigação. Malhar agora é item indispensável aos afazeres diários. Não, você não pode mais não gostar de malhar. EstilosAté porque quando não há mais desculpas para justificar tanta dedicação aos pesos, vai ser pela saúde.

Os meninos então, nossa! Todos com ombros imensos, pernas nem tanto, e músculos estourando de toda parte do corpo. Elas de cabelos alisados à base da chapinha, de shorts, vestidos ou saias bem curtas, blusas abertas nas costas e sandálias baixas. Ah, agora sair de havaianas está na moda. E andar de saltão também. Se alguém me perguntar como ir a uma festa sem fazer feio, eu respondo sem ter receio de errar: põe um short, uma blusa com qualquer decote que valorize os seios, e uma sandália baixa. Pronto! Você vai estar igual a um monte de gente.

A maquiagem também é igual. Que coisa, né? Hoje todo mundo decidiu valorizar os olhos, com lápis forte, sombra colorida e um batom mais discreto. Ah, todas também usam base e pó compacto (é, gente, ninguém mais tem espinhas ou marcas no rosto… agora é tudo uniforme com pó compacto). E os homens também não ficam atrás. Com tanto braço, e gominhos na barriga, é só colocar qualquer bermuda e arrancar a camisa na festa, ou colocar uma camiseta que deixe os braços à mostra. Também acertarão em cheio.

Não, eu não sou contra a malhação, a geração academia, tampouco os corpos esculturais e a moda. Eu até gosto de malhar, inclusive. O que me incomoda é o fato de as pessoas aceitarem o que é vendido pela indústria do consumismo e abrir mão de seu próprio estilo para entrar no rol, ou para se sentir aceito pela sociedade. O que me faz gastar algumas linhas a escrever sobre isso é essa pressão geral que faz com que as pessoas se convençam de que estão fazendo escolhas, quando na verdade estão apenas se enquadrando num Modaperfil que é diariamente imposto pelo mercado.

Será que ninguém está percebendo? Será que vamos deixar nos roubarem o direito de ter cabelos crespos ou cacheados? Será que vamos permitir que nos arranquem o prazer de usar roupas confortáveis e tênis? A questão, como falei, não é de massacrar certos tipos de comportamentos sociais. O meu dilema aqui é outro, o de exaltar a diferença, e mostrar que não podemos permitir que nos escravizem. Não podemos ficar de braços cruzados a isso. Ao invés de vendermos nossa imagem, por que não vendermos nossa essência?

Quando vamos nos rebelar contra esse culto à imagem que descreveu um perfil de beleza e exige que todos nos enquadremos nele? A nossa beleza precisa estar justamente na nossa diferença, no que nos torna único. Mas hoje somos obrigados a ser iguais. E aceitamos isso de cabeça baixa, sem questionar, sem lutar. Precisamos destruir esse conceito que criaram antes que ele nos destrua. Porque um dia isso vai acontecer. Não é um exercício de futurismo, mas apenas a conclusão de um raciocínio lógico. E meu conselho é: se liberte enquanto ainda há tempo.

Leia Mais