Literatura de qualidade na rede

 

Quem, nos seus devaneios de infância, nunca sonhou em encontrar um manuscrito raro dentro de uma garrafa que veio dar na praia? A ideia de um acervo virtual que disponibiliza toda a rara e antiga produção da humanidade é bem parecida com esse sonho infantil
Quem, nos seus devaneios de infância, nunca sonhou em encontrar um manuscrito raro dentro de uma garrafa que veio dar na praia? A ideia de um acervo virtual que disponibiliza toda a rara e antiga produção da humanidade é bem parecida com esse sonho infantil

 

Boas novidades para amantes da literatura e pesquisadores em geral. Na última terça-feira, dia 21, a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco) lançou, em Paris, a Biblioteca Digital Mundial (World Digital Library – WDL). O objetivo é disponibilizar acervo raro como livros, manuscritos, filmes, ilustrações e fotos para estudiosos e curiosos. Até agora, já digitalizaram 1,4 mil documentos  de 32 bibliotecas em 19 países.

Segundo nota divulgada no Portal da Imprensa, o internauta poderá acessar os links com informações completas, fazer download e até converter as peças em PDF. A intenção é fazer com que o grande público tenha acesso às obras raras. O site está em sete idiomas, incluindo o português.

Para saber mais sobre o WDL, leia reportagem publicada na Folha On line.

Outra boa pedida é pesquisar no site Estante Virtual, que reúne sebos de diversos estados. A página, além de trazer dicas de livros que nem sempre são possíveis de encontrar em livrarias comuns, tem ainda uma boa sessão para que os internautas comentem as obras disponiveis que eles já leram. Assim, antes de comprar, você tem acesso a opinião de quem já leu. Muitas vezes, confiamos mais na opinião de pessoas que tem uma realidade mais parecida com a nossa e tem necessidades semelhantes, do que na opinião da crítica especializada. Embora o trabalho dos críticos mereça todo respeito.

Para terminar as dicas, uma reflexão de Eric Schmidt, da Google, enviada para mim por uma amiga, também jornalista e blogueira:

Ainda acredito que sentar e ler um livro é a melhor forma de aprender alguma coisa. Eu temo que estejamos perdendo isso. Se você pegar qualquer platéia de pessoas em educação, é importante que comecemos pela leitura”.

E é isso mesmo meninas e meninos, nada substitui um bom livro, nem toda tecnologia do mundo. No máximo, google, WDL, Estante Virtual e tantos outros sites vão facilitar a busca por documentos raros e informações, vão ampliar o nosso acesso a acervos que ficam muitas vezes trancados e ao alcance apenas de estudiosos, mas sempre, sempre mesmo que vocês tiverem a chance, leiam a obra impressa e visitem a biblioteca mais próxima da sua casa, lá tem coisas surpreendentes, aposto!

Vejam a entrevista completa de Eric Schmidt aqui neste link.

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Agatha Christie, a rainha do crime

Agatha ChristieMeu fascínio pelos livros policiais começou com a leitura de Agatha Christie. Na época, eu estava com uns 15 anos e fazia curso de inglês na Acbeu. Lá, tinha uma biblioteca vasta. Não apenas livros em inglês, mas diversos outros, muito interessantes, em português, tanto da literatura nacional, quanto internacional. Um dia, em uma das estantes, lá estava Convite para um Homicídio. Eu sempre gostei de histórias com investigações criminais e muito suspense. E na orelha no livro,  o anúncio de que ali poderia conter uma narração interessante me fez locá-lo. Não, eu não sabia quem era Agatha Christie naquele momento, e aquele livro foi o suficiente para me apaixonar pela literatura dela.

Dela, li praticamente tudo. Na época, chegava a ler um livro inteirinho por dia. Devorava as páginas enquanto tentava desvendar as histórias tão bem entrelaçadas. No final da leitura, eu já tinha acreditado que todo mundo podia ter sido o assassino. O tempo me fez compreender melhor a lógica narrativa… em alguns livros cheguei a descobrir, orgulhosa, o final da trama antes mesmo de chegar a ela. Mas na maioria dos casos, uma grande confusão se formava em minha cabeça, criava várias teorias e quando chegava aos capítulos finais, eram surpresas atrás de outras. Certa feita, ela anunciou: “Dentro de alguns anos, só quero ser lembrada como uma boa escritora de casos policiais”. Ela morreu em 1976, aos 85 anos, com o merecido título de “rainha do crime”.

Agatha ChristieReza a lenda que seus pais fizeram um esforço sobrenatural para trasnformá-la em cantora lírica e pianista. E para o nosso agrado, ainda bem que não conseguiram. Ela sempre preferia se dedicar aos contos e poemas. Sua estreia nos livros policiais foi com O Misterioso Caso de Styles, em 1920. De lá para cá, ela já vendeu nada menos que dois bilhões de livros por todo o mundo. Foi a publicação que fez nascer o detetive Hercule Poirot. Ele e a iniciante Miss Jane Marple (que estrela, inclusive, seu último livro, Um Crime Adormecido), foram os dois personagens eternizados pela escritora como as mentes investigativas mais brilhantes do mundo. Ah, e não foi só nos livros que ela brilhou, porque diversas de suas obras acabaram adaptadas para o cinema.

De onde alguém pode tirar tantas ideias criativas e inovadoras? Nem ela mesma respondia. Agatha Christie afirmava que nunca sabia onde as histórias poderiam nascer. Na sua autobiografia, ela conta que andava sempre com uma caneta em mãos. “Repentinamente, uma ideia esplêndida me ocorria”, conta ela em seu livro. Como viajou muito durante a vida e conheceu gente de todo o canto, gênero e estilo, deste universo ela retirava inspiração e referências para escrever seus livros. Em uma passagem, seu neto a descrevia como uma mulher que observava mais do que era observada e que ouvia mais do que falava.

Mas daí a se tornar a rainha do crime é um longo caminho. Mais do que vontade, observação e ouvidos atentos, precisa de muita dedicação, criatividade e um certo dom da escrita. Agatha Christie tinha dezenas de livros de anotações, onde reunia as tais ideias esplêndidas. Além disso, só começava a nova história, só colocava mesmo a trama no papel, quando já tinha em mente cada detalhe bem delineado. Só pra dimensionar, o livro O Inimigo Secreto surgiu de uma conversa em uma casa de chá; Assassinato no Campo de Golfe nasceu de um artigo sobre uma morte misteriosa na França; e uma viagem para assistir à apresentação de uma atriz levou à criação de Treze à Mesa.  É muita imaginação para uma pessoa só! E a gente agradece!

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Algumas curiosidades sobre Agatha Christie:
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>> Seu primeiro livro levou cinco anos para ser publicado e foi rejeitado por seis editoras.
>> Foi a única escritora policial que conseguiu fama e adoração para seus dois personagens (Hercule Poirot e Jane Marple).
>> Quando ela morreu, seu personagem Hercule Poirot ganhou uma página inteira no obituário do The New York Times.
>> Seus escritores favoritos eram Elizabeth Bowen e Graham Greene.
>> Uma de suas grandes paixões na vida era a música, especialmente as óperas de Wagner.
>> Ela escreveu seis romances sob o pseudônimo Mary Westmacott (ela conseguiu manter sua identidade em segredo durante 20 anos).
>> Ela levou 15 anos escrevendo sua autobiografia, entre 1950 e 1965.

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Mais informações:
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>> Site oficial (em inglês)
>> Relação de seus livros com um pequeno resumo de cada (aproveite para escolher por qual deles vai começar a ler)
>> Lista de todos os seus trabalhos (em inglês)

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Livros infantis para mudar o mundo

A leitura transforma os seres humanos. Como diz Guiomar de Grammont, no seu ensaio Ler devia ser proibido, a literatura abre portas para a imaginação, nos torna “perigosamente humanos”, nos dá visão crítica, capacidade de julgar, avaliar, escolher e, principalmente, opinar. E é com uma sociedade opinativa, crítica e imaginativa que podemos mudar o mundo, melhorá-lo e torná-lo mais justo. Por acreditar nessas premissas e para incentivar que o gosto pela leitura comece na infância, é que o Conversa de Menina apresenta para vocês a coleção Jeitos de mudar o mundo, da editora Escala Educacional. Idealizada pelo ilustrador Fernando Vilela e pela escritora Stela Barbieri, a coleção é formada por livros que se baseiam nas oito metas do milênio estabelecidas pelas Organização das Nações Unidas no ano 2000. Abaixo, uma pequena sinopse de cada livrinho da coleção e a meta do milênio ao qual ele está ligado…

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Leia também:
>>Livros que todo adulto precisa ler
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Na sombra do Baobá (mortalidade infantil)

baobaO livro conta a história de uma comunidade que vive à sombra de um imenso baobá. A árvore é o reservatório de água da aldeia em tempos de seca e a proteção da comunidade contra o terrível dragão devorador de crianças Nguma Monene. Um dia, Mafuane, uma mulher que queria muito ter filhos, reza embaixo do baobá para ter um bebê. Nasce Ilunga, uma criança minúscula, que cabia na palma da mão da sua mãe, mas era bastante forte. Certa feita, o terrível dragão ataca e rouba as crianças da aldeia, junto com elas, o pequeno Ilunga. Apesar do seu tamanho, ele demonstra que é capaz de grandes feitos…

A ponte (trabalho comunitário/ voluntariado)

ponte1Essa é a história de Guadalupe e Diego, amigos de infância que crescem e se casam.
O casal recebe um pedaço de terra de presente dos pais de Guadalupe. Com a ajuda dos homens e das mulheres da comunidade, erguem uma casa e depois preparam a terra para plantar o milho. O grande problema de todos os que moram no povoado é transportar os alimentos que produzem, por meio de canoas, até o outro lado do rio onde fica a cidade. O sonho deles é construir uma ponte…

O amigo dos animais (respeito ao meio ambiente)

amigos-dos-animaisCauã vive numa aldeia no meio da floresta dos tucanos. Todos em sua aldeia vivem felizes e só matam os animais para seu próprio sustento. Mas, os caçadores aparecem para matar milhares de animais com armas de fogo e Cauã não entende o porquê, pois aquela matança poderia alimentar seu povo por um ano; além disso, a cada dia a quantidade de animais diminui. Incomodado, Cauã pergunta ao pajé porque os caçadores matam tantos bichos e o Pajé explica que o homem branco não queria a caça, mas a riqueza que a caça trazia com a venda de sua pele. Indignado com essa situação, Cauã pensa numa forma de ajudar a floresta…

Gênio do poço encantado (combate às doenças endêmicas)

genioA Vila do Poço Encantado tem um reservatório de água limpa cuidado por um gênio generoso. Na vila, vivem os irmãos Kiri e Arun, filhos da lavadeira Sovann. Tudo vai bem na aldeia, as crianças adoram cantar e seu canto atrai reis e rainhas, até que um dia algumas pessoas da cidade começam a ficar doentes. A doença se espalha e cada dia mais e mais homens, mulheres e crianças adoecem. As ervas e os remédios disponíveis não conseguem curá-los. Arun, o filho da lavadeira Sovann também fica doente. Até que o gênio descobre que o povo está enterrando lixo perto do poço…

A menina do feijão suculento (fome e combate à miséria)

menina-e-feijaoMahura mora na roça, numa casa de barro vermelho. Seu divertimento predileto é andar pela estrada de terra e visitar os sítios vizinhos para brincar com as outras crianças.
Um dia para de chover, as plantações morrem, os animais começam a definhar e os rios a secar. As pessoas que vivem ali começam a passar fome e todos ficam desanimados, com exceção da menina. Ela encontra alguns grãos de feijão em um pote. Junto com sua mãe, resolve plantá-los. O rio é longe, mas todos os dias elas trazem um pouco de água para regar as sementes. Quando os feijões são colhidos não são suficientes para alimentar todas as pessoas, então Mahura tem uma ideia…

Radija e seus tapetes mágicos (igualdade de gênero)

radijaA narrativa mostra como Radija, estimulada pelas histórias contadas pelos mercadores de tapetes, desperta o desejo de ser livre em uma sociedade que valoriza os homens em detrimento das mulheres. Ela quer partir com as caravanas e viajar pelo mundo, mas seu pai não deixa porque ela é uma menina, até que Radija consegue mostrar o valor das mulheres na sociedade…

O reino dos mamulengos (educação)

mamulengosEssa é a história de Severino, um rapaz que resolveu sair pelo mundo em busca de sua sorte. Sua especialidade é fazer e manipular mamulengos. Ele aprendeu com o pai, que por sua vez aprendeu com o avô, que aprendeu com o bisavô, que aprendeu com o tataravô. Desse modo, faz parte de uma linhagem de bonequeiros, que criam mamulengos e interpretam histórias cheias de encanto e humor. Severino não sabe ler, o que o impede até de se defender de algumas ciladas. Mas, no Reino das Terras Altas, ele muda o seu destino…

Satiko e o vulcão (atenção à saúde da gestante)

satiko“Satiko e o vulcão” narra à história de Satiko que está grávida de sete meses e vive em uma aldeia às margens do lago de águas claras, aos pés do grande vulcão em uma pequena casa com o pai, senhor Sho, a mãe e o marido. Um dia, o pai de Satiko diz que o vulcão vai entrar em erupção e por isso todos precisam se mudar da aldeia. Mas, ninguém acredita nele. Então, o senhor Sho prepara embarcações de madeira para que todos possam fugir quando o vulcão entrar em erupção e depois da fuga, todos partem numa grande jornada em busca de outro lugar para morar…

Serviço:
Coleção Jeitos de mudar o mundo
Autora: Stela Barbieri
Ilustrador: Fernando Vilela
Editora: Escala Educacional
Preço sugerido: R$ 24,50 por livro

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Warat: por uma nova filosofia do direito

Luis Alberto Warat

Amar y participar de un aula es la misma cosa.
Si no se puede crear un clima mágico, lo mejor es desistir
.”
(Luis Alberto Warat)

Ouvi falar em Luis Alberto Warat durante uma aula de hermenêutica jurídica. O professor da disciplina, Clovis, advogado militante da causa dos sem-terra, já tinha conquistado o meu respeito um semestre antes, durante as discussões que provocou quando tentava nos fazer compreender os ensinamentos da filosofia do direito. Para mim, o fato de ele mencionar o nome de Warat já significava muita coisa. Lembro de ter pesquisado um pouco sobre ele na época e de ter desenvolvido uma admiração pelas suas ideias sobre a necessidade de humanizar mais o direito. Mas admiração mesmo nasceu ao vê-lo ali, em minha frente, junto com mais um grupo de dez alunos em círculo, discutir arte, amor e sensibilidade em pleno curso de ciências jurídicas.

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Quer saber quem é Warat?
>> Veja vídeos do professor falando sobre sua história pessoal, formação intelectual e visão do futuro (em espanhol)
>> Acesse o currículo de Warat no CNPQ
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Lembro claramente da primeira pergunta que Warat fez àqueles alunos em início de curso, igualdadeansiosos por respostas a tantas dúvidas. Ele queria saber o que era direito. E por incrível que pareça, ficamos todos calados. Acho que por dois motivos especiais. O primeiro deles, porque quem estava perguntando era ninguém menos que Warat. E havia aquele receio comum de falar alguma coisa precipitadamente. E, segundo, porque o conceito de direito, embora pareça algo tão claro, é motivo de divergência entre os estudiosos mesmo. Alguns acreditam até que nem deve ser considerado ciência, embora eu não compactue com esta visão. Mas o fato é que após os segundos iniciais de silêncio, começamos, aos poucos, arriscar alguns palpites e participar da discussão. E entre um pitaco e outro, um aluno levantou a questão do direito x igualdade.

Claro, pensamos todos naquele momento, o direito precisa incidir de forma igualitária sobre todos. Ou, melhor dizendo, o direto deve tratar de forma igual todos os membros da sociedade. Foi quando Warat nos alertou, em seu espanhol arrastado aos nossos ouvidos atentos: Não. A função do direito não é tratar todos de forma igual. Pelo contrário, deve o direito tratar os desiguais de forma desigual, para que, aí sim, cheguemos perto de uma igualdade material. Não podemos viver diante de uma igualdade formal (aquela que sobrevive apenas nas letras da lei), mas precisamos de uma igualdade substancial (real, na qual os pares brigam judicialmente nas mesmas condições). Bastou para me fazer apreciar o pensamento de Warat e fazer mudar a compreensão que aquela caloura do curso de direito tinha construído até ali, reforçada pouco depois pelos ensinamentos de Hannah Arendt.

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Warat escreveu e você não pode deixar de ler:
>> Amor tomado pelo amor
>> Por quem cantam as sereias
>> A ciência jurídica e os seus dois maridos
>> Os quadrinhos puros do direito
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sensibilidadeEm sequência, uma nova reflexão, desta vez sobre a importância da sensibilidade aos operadores do direito. E eu concordei imediatamente após breves divagações que foram amadurecendo ao longo do curso. Os litígios judiciais são longos, recheados de conflitos. E no meio disso tudo existe uma coisa chamada processo (o meio de solução dos conflitos) e outra chamada procedimento, que são regrinhas que determinam a forma de andar do processo. A questão é que a coisa é tão cheia de detalhes, de prazos, de exigências, de burocracias… que em um determinado momento os operadores do direito esquecem que ali naqueles milhões de páginas amontoadas existem pessoas que precisam de uma resposta justa aos seus problemas. Esquecem que ali naquelas linhas existem sentimentos, expectativas, dores, sofrimento…

O Amor é expressão de conciliação, de mediação,
frente à segregação do universo, é o anseio do homem

(Platão, em O Banquete)

A sensação é que cada uma daquelas pessoas que vai buscar uma prestação jurisdicional do Estado acaba se transformando em mais um número. Só que desta vez, o número do processo. E com tantas normas, tanta questão prática a se resolver, esquecem as pessoas que lidar com problemas de outras pessoas exige mais do que mero conhecimento de regramento jurídico. Exige compreensão, exige sensibilidade e, como pontua Warat, exige amor. Não apenas pela profissão, mas pelo outro, pelas pessoas…  E por isso mesmo é que ele defende uma modificação sistemática no ensino do direito. Não mais nos tornaremos decorebas de códigos, mas, agora, nos tornaremos humanos. É o que mais precisamos nesse momento, nos tornar mais humanos para que consigamos compreender que por trás de cada processo há vida.

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Fernando Pessoa: “um enigma em pessoa”

Minha estima por Fernando Pessoa é comparada àquela que nutro por Pablo Neruda. Para mim, são dois grandes nomes da poesia do século XX, sem sombra de dúvidas. O português Pessoa, rei dos heterônimos. Sim, os personagens que criou durante a vida, todos eram carregados de personalidade forte e bem desenhada. Como não lembrar de Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro, ou ainda de Ricardo Reis? Todos tão reais, facetas do Fernando Pessoa.

Fernando Pessoa

Sobre a vida de Pessoa, pouco sei. Recordo-me apenas de que viveu parte da adolescência na África do Sul, que perdeu o pai muito cedo, de tuberculose. Também lembro-me de ter lido em algum lugar sobre o gosto exagerado pelo álcool, vício que teria sido decisivo para a morte precoce, aos 47 anos, de cirrose hepática. E mesmo no leito de morte, Pessoa eternizou sua poesia, ao declarar “I know not what tomorrow will bring” (Não sei o que o amanhã trará).

“A tua carne calma é fria em meu querer. Os meus desejos são cansaços. Nem quero ter
nos braços meu sonho do teu ser.”

De tanto criar pessoas, Pessoa se recriou. A resposta que muitos buscavam era para a pergunta “quem é ele?”. Seus personagens tornaram sua vida mais misteriosa ainda. Muitos pensavam inclusive se não seria o próprio Pessoa mais um de seus personagens. Ele morreu sem nos esclarecer a questão. Melhor que tenha sido assim. É como a expressão usada pelo crítico brasileiro Frederico Barbosa: “Pessoa é um enigma em Pessoa”.

Fernando Pessoa

Não me canso de ler Fernando Pessoa. A cada leitura, redescubro um fascínio ainda maior por suas palavras. Fernando Pessoa me ganhou na primeira poesia que li dele, que diz: “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a de minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus”. Para uma adolescente em busca de seu próprio caminho, nada podia ser mais significativo.

“Não sei, mas meu ser tornou-se-me estranho.E eu sonho
sem ver os sonhos que tenho.”

A partir dali, viramos caça e caçador. Eu, em busca de tudo e qualquer coisa que tivesse a sua assinatura por trás. Logo em seguida, descobri os personagens que havia criado, soube das biografias que instituiu para cada um deles, das diferenças tão bem delineadas. Me apaixonei de vez. A sensação era que eu estava diante de uma pessoa imaginária, de tão discreta, cheia de imaginação e possuidora de um grau de intelectualidade intangível, fora do comum.

“És melhor do que tu. Não digas nada: sê! Graça do corpo nu
Que invisível se vê.

Algumas coisas de Pessoa seguem abaixo. Eu simplesmente não consigo fazer uma seleção. Cada texto que releio, volto a me apaixonar perdidamente, como se estivesse diante de uma primeira leitura. Cada linha que descubro me encobre de mais admiração. Não consigo pinçar da obra de Pessoa, coisas que mais gosto, ou que mais me instigam. Eu só consigo enxergá-lo como um conjunto. Pessoa é um todo e cada trecho é apenas uma parte, um pedaço do universo que é sua poesia.

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Para inspirar
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Cancioneiro

Nota preliminar
2 – Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E – mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem – pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser “Há sol nos meus pensamentos”, ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes.

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Tenho tanto sentimento

Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

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Entre O Sono E Sonho

Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.

Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.

Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.

E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre –
Esse rio sem fim.

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Grandes mistérios habitam

Grandes mistérios habitam
O limiar do meu ser,
O limiar onde hesitam
Grandes pássaros que fitam
Meu transpor tardo de os ver.

São aves cheias de abismo,
Como nos sonhos as há.
Hesito se sondo e cismo,
E à minha alma é cataclismo
O limiar onde está.

Então desperto do sonho
E sou alegre da luz,
Inda que em dia tristonho;
Porque o limiar é medonho
E todo passo é uma cruz.

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Viajar! Perder países!

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.

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Análise

Tão abstrata é a idéia do teu ser
Que me vem de te olhar, que, ao entreter
Os meus olhos nos teus, perço-os de vista,
E nada fica em meu olhar, e dista
Teu corpo do meu ver tão longemente,
E a idéia do teu ser fica tão rente
Ao meu pensar olhar-te, e ao saber-me
Sabendo que tu és, que, só por ter-me
Consciente de ti, nem a mim sinto.
E assim, neste ignorar-me a ver-te, minto
A ilusão da sensação, e sonho,
Não te vendo, nem vendo, nem sabendo
Que te vejo, ou sequer que sou, risonho
Do interior crepúsculo tristonho
Em que sinto que sonho o que me sinto sendo.

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Para ler
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alvaro de camposPoesia Completa de Álvaro de Campos

ricardo reisPoesia Completa de Ricardo Reis

alberto caeiroPoesia Completa de Alberto Caeiro

obra poéticaObras Poéticas

desassossegoLivro do Desassossego

pessoaE tudo mais que você achar!!!

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Hannah Arendt: filósofa, judia e mulher

Hannah Arendt integra a minha lista pessoal das mulheres mais importantes da história da humanidade. Não apenas porque sua trajetória de vida nos apresenta uma mulher guerreira, de origem judia, nascida na Alemanha, e que sofreu na pele a perseguição do regime nazista de Hitler, mas também porque se impôs e fez-se reconhecer como pensadora, filósofa, que se dedicou a mudar as ideologias Hannah Arendtsociais de sua época, através de seus escritos sobre, por exemplo, os regimes totalitários, a política e o conceito de liberdade. Ela foi uma verdadeira cientista política, uma mulher que se empenhou nos estudos críticos e conseguiu transformar o pensamento ocidental.

Para quem quer se aprofundar nos estudos sobre a ideologia política contemporânea, é salutar acrescentar Hannah Arendt à lista de bibliografia essencial. Depois de concluir o doutorado em filosofia, na Universidade de Heidelberg (1928), ela sofreu os efeitos do racismo anti-semita e foi obrigada a se refugiar em Paris. Lá, trabalhou com refugiados judeus e teve o privilégio de estudar com Karl Jaspers e Martin Heidegger (com quem manteve um complicado relacionamento amoroso). A vida não foi das mais fáceis para ela. Já no início da década de 40, a França foi ocupada pelos nazistas e Hannah precisou novamente fugir, desta vez para os Estados Unidos, naturalizando-se cidadã norte-americana. É nessa época que ela lança sua primeira obra “Origens do Totalitarismo” (1951), que virou um clássico e entrou para o rol das grandes contribuições literárias para a compreensão do regime totalitário.

A narrativa começa com a ascenção do anti-semitismo na Europa oitocentista e segue pela análise do imperialismo colonial europeu de 1884 até a deflagração da Primeira Guerra Mundial. Um dos grandes méritos da publicação está em dissecar a Alemanha nazista e a Rússia estalinista. A escritora faz um desenho preciso da transformação por que passou as classes sociais e a formação das massas, ressaltando inclusive a função da Hannah Arendt propaganda no território não totalitário. Ela consegue, com maestria, explicar como a manipulação do terror e do medo são indispensáveis para a manutenção destes tipos de governo, e arremata com uma análise detalhada do estado de solidão dos indivíduos enquanto condição determinante para o domínio absoluto do Estado totalitário.

Novas polêmicas ancoraram com “Eichmann em Jerusalém” (1963), em que denunciava a participação das lideranças judaicas no extermínio promovido pelos nazistas na 2ª Guerra Mundial. O livro, que faz uma análise do julgamento do oficial nazista responsável pela organização dos campos de extermínio, Adolf Eichmann, fez brotar o conceito da banalidade do mal. Em linhas gerais, ela pontua que embora os atos cometidos pelos seguidores de Hitler sejam considerados monstruosos, muitos deles não eram sádicos nem pervertidos. Eles apenas cumpriam ordens. E completa: “mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais”. O estudo do inquérito policial, do seu comportamento durante o julgamento e do histórico de vida de Eichmann levaram-na à conclusão de que as suas atitudes derivavam de uma “curiosa e bastante autêntica incapacidade de pensar”. Esta é a essência da banalidade do mal, e, basta uma observação supercial da nossa realidade, veremos que se aplica perfeitamente aos nossos dias.

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Livros: veja a cotação dos preços e compre
>> Eichmann em Jerusalém
>> A condição Humana
>> Entre o Passado e o Futuro
>> Origens do Totalitarismo
>> Nos Passos de Hannah Arendt (biografia escrita por Laure Adler)
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Juntos, os dois livros mostram-se absolutamente indispensáveis para o entendimento do que foi o século XX. A eles, somam-se tantos outros, como “Entre o Passado e o Futuro”, no qual aborda o discurso político do século XX. Afinal, foi ela personagem de toda essa transformação por que passou a sociedade da época. E não há como esquecer de “A Condição Humana”, uma ampla reflexão sobre as práticas políticas do século passado e a teoria que as envolve. O que mais me fascina em Hannah Arendt, além de sua linguagem ousada e das críticas fundamentadas, é a forma como remonta toda uma era, adotando uma postura de enfrentamento da realidade e combate. É importante destacar que, apesar do berço judeu, Hannah Arendt não foi criada sob os dogmas religiosos e tradicionais.  

Alguns autores se referiram a Hannah Arendt como a teórica do inconformismo. Pra mim este rótulo consegue refletir a importância do pensamento dela. Inconformada, disseminou seus ideais, ganhou adeptos e contribuiu para a transformação social. Hannah Arendt é uma mulher que disse muita coisa, mas que poucas pessoas leram. Revisitar as obras de pensadores como Hannah Arendt me faz recordar uma frase de Pascal, matemático e filósofo francês. Ele dizia: “Nada é mais difícil que pensar”. Embora difícil, é uma arte que precisa de exercício contínuo. É o exercício constante da mente que nos faz adquirir elementos para a resolução dos tantos problemas. Que muitos se inspirem nela e comecem agora, porque nunca é tarde, a pensar.

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Vinicius de Moraes, o poeta

Vinicius de Moraes“Vinicius é o único poeta brasileiro que ousou viver sob o signo da paixão. Quer dizer, da poesia em estado natural. Eu queria ter sido Vinicius de Moraes”. Foram essas as palavras de Carlos Drummond de Andrade ao se referir a Vinicius. Falar do poeta é falar de paixão. Talvez esta seja mesmo a palavra que defina sua essência. Vinicius de Moraes foi um apaixonado. E para tentar compreender o homem, explorou temas como o mistério, o amor e a morte. Vinicius não se deteve à poesia escrita. Drummond certa vez falou: “Foi o único de nós que teve a vida de poeta”. Talvez porque ele se envolvera tão intimamente com a música, ou por ter se aventurado em nove casamentos, ou ainda porque passou a vida entre viagens, ou por tudo isso junto.

Esse foi Vinicius. Um homem que aos nove anos decidiu transformar o Marcus Vinitius da Cruz e Mello Moraes no nosso querido Vinicius de Moraes, que nasceu no Rio sob a égide da poesia, com a ascendência dividida entre a música e os textos. Um personagem cujo percurso de vida é marcado por uma série de fatos que começaram a acontecer ainda cedo. Foi batizado na maçonaria pelo avô; entrou para o coro das missas de domingo do colégio Santo Inácio; participou de peças teatrais infantis e formou um grupo muscial, ao lado dos irmãos Paulo e Haroldo Tapajóz, que se apresentava nas festas das casas de conhecidos. É com eles que começa a compor canções como “Loura ou morena” e “Canção da noite”, que fizeram grande sucesso.

No meio do caminho, tira o bacharelado em Letras; substituiu Prudente de Moraes Neto como representante do Ministério da Educação junto à Censura Cinematográfica; vira amigo de Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade; ganha uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford; vira crítico de cinema e colaborador de um jornal; ingressa na carreira diplomática; sofre um acidente aéreo; fica amigo de Pablo Neruda; estuda cinema; lança a revista Film; colabora como cronista e crítico de cinema no Última Hora; sofre acidente de automóvel; compõe com Jobim, com Baden Powell, com Carlos Lyra e Pixinguinha, com Edu Lobo; integra o júri do Festival de Música Jovem, na Bahia; casa-se com uma baiana; dá início a uma parceria com Toquinho; se muda para Salvador… E em 1980, na manhã do dia 09 de julho, morre de edema pulmonar.

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Leia também:
Receita de Mulher – Vinicius de Moraes
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Livros sobre o poeta:
– O Poeta da Paixão (José Castello)
– Vinícius de Moraes: Uma Geografia Poética (José Castello)
– Vinicius de Moraes – O múltiplo das paixões (coleção “Gente do Século”)
– Vinícius de Moraes (Pedro Lyra)
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Para ouvir:
A arca de Noé 2 (1981
Um pouco de ilusão – Toquinho e Vinicius (1980
A arca de Noé (1980
10 anos de Toquinho & Vinicius (1979
Amália/Vinícius Amália Rodrigues e Vinicius de Moraes (1978
Vinicius de Moraes – antologia poética (1977
Tom / Vinicius / Toquinho / Miúcha – gravado ao vivo no canecão (1977
La voglia, la pazzia, l’incoscienza, l’allegria – Ornella Vanoni, Toquinho e Vinicius (1976
Vinicius / Toquinho (1975
O poeta e o violão – Toquinho e Vinicius (1975
Vinicius & Toquinho – Toquinho & Vinicius (1974
Encontro e desencontro – Marília Medalha e Vinicius de Moraes (1972
Vinicius canta “nossa filha Gabriela” – trilha sonora da novela da tv tupi (1972
São demais os perigos desta vida – Toquinho e Vinicius (1971
Toquinho e Vinicius (1971
Como dizia o poeta… Música nova – Vinicius, Toquinho e Marília Medalha (1971
La vita, amico, é l’arte dell’incontro – Vinicius de Moraes, Sergio Endrigo e Giuseppe –   Ungaretti (1969
Vinicius e Caymmi no zum zum (1967
Os afro-sambas de Baden e Vinicius (1966
Vinicius: poesia e canção vol. I (1966
Vinicius: poesia e canção vol. Ii (1966
Vinicius & Odete Lara (1963
Brasília – sinfonia da alvorada – música: Antônio Carlos Jobim – poesia: Vinicius de Moraes (1961
Canção do amor demais (1958
Poesias – vol. Ii – Vinicius de Moraes / Paulo Mendes Campos (1957
Orfeu da conceição (1956
A história dos shows inesquecíveis – poeta, moça e violão – Vinicius de Moraes, Clara Nunes e Toquinho (1991
Deus lhe pague – trilha sonora da peça – músicas de Edu Lobo e Vinicius de Moraes (1976
Fogo sobre terra – trilha sonora da novela da tv globo (1974
Toquinho, Vinicius & amigos (1974
O bem amado – trilha sonora da novela da tv globo (1973
Eu sei que vou te amar (1972
Vinicius + Bethânia + Toquinho – en la fusa (1971
Vinicius de Moraes en la fusa – Vinicius de Moraes, Maria Creuza e Toquinho (1970
Pobre menina rica – trilha sonora original – Carlos Lyra e Dulce Nunes (1964
Coletânea – Toquinho e Vinicius (1997
Coletânea – Vinicius de Moraes (1967
Coletânea – Convite para ouvir – Toquinho e Vinicius
Tributo – falando de amor pra Vinícius (2001
Chega de saudade – um tributo a Vinicius de Moraes (2000
Vinicius – a arte do encontro – mpb-4 e Quarteto em Cy (2000
Vivendo Vinicius ao vivo – Baden Powell, Carlos Lyra, Miúcha e Toquinho (1999
Afro-sambas – de Baden Powell e Vinicius de Moraes (1996
Songbook Vinicius de Moraes (1993
Vinicius em cy (1993
Se todos fossem iguais a você – Manuel Bandeira e Vinicius de Moraes (1988
Vinicius de Moraes – negro demais no coração (1988
Vinicius de Moraes (1988
Marcus Vinicius da Cruz de Mello Moraes (1980
A música de Jobim e Vinicius (1963
Elizete interpreta Vinicius (1963
Por toda minha vida – música: Antônio Carlos Jobim – poesia: Vinicius de Moraes (1959

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Algumas poesias:

Soneto de Maior Amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

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Soneto de Fidelidade

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

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Soneto do Amor Total

Amo-te tanto, meu amor … não cante
O humano coração com mais verdade …
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade.

Amo-te afim, de um calmo amor prestante
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim, muito e amiúde
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

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Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor
seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentando
Pela graça indizível
dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura
dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer
que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas
nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras
dos véus da alma…
É um sossego, uma unção,
um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta,
muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite
encontrem sem fatalidade
o olhar estático da aurora.

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Poema dos Olhos da Amada

Ó minha amada
Que olhos os teus
São cais noturnos
Cheios de adeus
São docas mansas
Trilhando luzes
Que brilham longe
Longe dos breus…
Ó minha amada
Que olhos os teus
Quanto mistério
Nos olhos teus
Quantos saveiros
Quantos navios
Quantos naufrágios
Nos olhos teus…
Ó minha amada
Que olhos os teus
Se Deus houvera
Fizera-os Deus
Pois não os fizera
Quem não soubera
Que há muitas era
Nos olhos teus.
Ah, minha amada
De olhos ateus
Cria a esperança
Nos olhos meus
De verem um dia
O olhar mendigo
Da poesia
Nos olhos teus.

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Por que falar de Neruda?

Em Puerto Varas, no Chile, um grupo de turistas aguardava ansioso o início do circuito do Cruce Andino, um passeio com destino a Bariloche (Argentina), em um percurso que alterna trechos terrestres e outros por embarcações, cruzando os lagos andinos. Na fila, dois brasileiros conversam sobre turismo, viagens e afins, quando um deles retruca ao comentário do outro com um espantoso “Eu não sei quem foi Pablo Neruda”.

Pablo Neruda 2Embora eu aceite a ideia de que ninguém tem obrigação de conhecer todas as personalidades do universo, que temos o direito de ser ignorantes em uma série de assuntos, admito que fiquei chocada ao ouvir a história. Afinal de contas nós estávamos no Chile, a terra natal do brilhante poeta que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e  inclusive foi cônsul de seu País na Espanha e no México. É a razão de eu estar falando de Neruda aqui. Porque, sim, ele merece ser assunto.

Claro que abaixo estão apenas algumas poucas informações sobre ele. É uma dose inicial, pra fazer nascer a curiosidade de pesquisar mais e mais, de ler sobre ele, de ler suas obras. Eu não tenho a menor dúvida do quanto será recompensador. Não há como se arrepender ao ler Neruda.

Ah, o mar – Neruda era um escritor apaixonado pelo mar. As águas do Pacífico lhe encantavam. Seu profundo amor pela imensidão azul inspirou a arquitetura de suas três casas, todas construídas no Chile, em Isla Negra, Santiago e Valparaíso. Seu fascínio, porém, era aliado ao medo das águas. E foi isso que o motivou a traduzir em suas moradas a estrutura de um grande barco. Se temia vagar pelos oceanos, trouxe-o para perto de si, através das suas construções, cercadas pelas águas.

Os assoalhos cobrem o chão. Ao serem tocado pelos pés, aceleram a sensação de que, realmente, seria possível estar em uma embarcação em alto mar. A beleza da poesia de Neruda está traduzida também ali, em cada estrutura que pensou para acomodar a sua vida, na qual coube três mulheres.

Neruda e MatildeMatilde, meu amor –  O grande amor foi Matilde, com quem manteve um tórrido romance enquanto ainda estava casado com Delia de Carril, a segunda esposa, vinte anos mais velha. Foi para esconder Matilde e dividir com ela os momentos de paixão que construiu a casa de Santiago, batizada de “La Chascona”.

E quando finalmente se separou da segunda esposa e assumiu publicamente a relação com Matilde, colocou em andamento o projeto da Sebastiana, a residência de Valparaíso. Lá em uma das estantes, uma frase nos traduz o quanto ele amava o mar. Não me recordo exatamente o trecho, mas posso tentar expressar o seu sentido: “de tão imenso o oceano, não houve onde colocá-lo, então colocaram-no defronte de minha janela”. É a visão da janela da casa de Neruda em Valparaíso. O oceano.  

Brilhantismo da caneta – Mas poesia mesmo Neruda fazia com a ponta da caneta. Os seus escritos têm uma sensibilidade singular. Alguns poucos sabem, mas o nome Pablo Neruda nasceu como um pseudônimo. Na certidão de nascimento, constava Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Por uma necessidade de sua vida política, acabou adotando oficialmente o nome Pablo Neruda, com direito ao registro legal da mudança. Era como ele era conhecido. E seria mais estratégico divulgar este nome em sua campanha.

Pablo Neruda 3As suas poesias sofreram influências várias ao longo do tempo. O começo de seu trabalho literário é mais voltado ao romantismo extremo, muito próximo do que escrevia o poeta norte-americano Walt Whitman. Daí, ele passa por uma fase mais surrealista, com traços da literatura de André Breton. Também passou por experiências literárias mais herméticas. Ele difundiu os problemas Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários.

Ele era um revolucionário. Um militante comunista, ícone da esquerda latino-americana, seguidor dos ideais de Carl Marx. Na sua roda de amigos estavam personalidades renomadas como García Lorca e Miguel Hernández. Suas casas são repletas de obras de arte, a grande maioria delas cedidas pelos amigos. Dentre eles, Pablo Picasso. Era amigo pessoal de Salvador Allende, para quem cedeu a presidência do Chile quando foi indicado ao cargo. Agora é só ler mais e mais. O caminho por onde começar segue logo abaixo.

Livros de Neruda para se aprofundar

Capa do livro Confesso que ViviConfesso que Vivi (Neruda)– é uma autobiografia, único livro de Neruda escrito em prosa. Conta sua trajetória de vida desde a infância, até a morte de Salvador Allende, assassinado pelas tropas de Pinochet. Veja a cotação de preços e compre o livro.

Capa do Livro MInha Vida com Pablo NerudaMinha Vida com Pablo Neruda (Matilde Urrutia) – Uma obra comovente em que o grande amor do poeta chileno retrata os anos de convivência. Veja a cotação de preços e compre o livro.

E MAIS:
*Vinte poemas de amor e uma canção desesperada
*Livro das perguntas (também para a criançada)
*Presente de um poeta
*Prólogos
*Cadernos de Temuco
*E todos os outros que você encontrar na livraria!!!!

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Justa homenagem à Zélia Gattai

A editora Companhia das Letras vai relançar a obra completa da escritora Zélia Gattai, falecida em maio do ano passado. Paulista de nascimento, esposa do escritor baiano Jorge Amado, Zélia “abaianou” depois de mais de 50 anos ao lado do autor. Ela começou a escrever na maturidade, primeiro, lembrando a história dos seus pais, depois, reunindo as deliciosas crônicas do cotidiano da família Amado. Quem não riu muito com as aventuras dos Gattai em Anarquistas Graças a Deus, que até virou minissérie? E quem não viveu a aflição dos imigrantes italianos atravessando o Atlântico em Cittá Di Roma? Zélia, que escreveu também Crônica de Uma Namorada, seu primeiro livro de ficção, tem um estilo delicioso, de uma tia muito querida ou uma delicada avó contando suas memórias mais caras. Outro livro da autora, Chão de Meninos, é ambientado na infância dos filhos. Além de usar experiências pessoais e de amigos como fonte de inspiração, Zélia Gattai buscou no dia-a-dia do brasileiro, na Bahia, no Rio de Janeiro, ou na São Paulo da sua infância, elementos para deixar um legado que se constitui em verdadeiro registro histórico do cotidiano miudinho, geralmente aquele que os historiadores relegam. Nos seus escritos, há espaço também para recordar os memoráveis encontros de Jorge Amado com artistas e pensadores como o filósofo francês Jean Paul Sartre. Zélia faz parte daquele ramo de autores que se dedica ao memorialismo, ao registro de um passado nem tão remoto, mas bastante pitoresco. Confira a sinopse dos livros da autora, atualmente disponíveis em edições da Record:

anarquistasAnarquistas, graças a Deus, 1979 – Resgata memórias da infância de Zélia, caçula de cinco irmãos. A autora passou a infância na Alameda Santos, no bairro Paraíso em São Paulo. Ernesto Gattai, seu pai, tinha mania de inventor e vivia fazendo experiências, principalmente com motores de veículos. Dona Angelina, a mãe, adorava ópera. Impagável a sequência em que Zélia conta que quebrou um dos discos preferidos de sua mãe quando era criança.

um-chapeuUm chapéu para viagem, 1982 – Este livro traz as memórias da escritora entre 1945 e 1948, quando conheceu Jorge Amado e a família do autor baiano. Os dois se conheceram durante um movimento para a libertação de presos políticos.

Passáros noturnos do abaeté, 1983 – Este livro, lançado pela editora Macunaíma, de Salvador, reúne desenhos do artista plástico Calasans Neto e texto de Zélia.

senhora-donaSenhora Dona do baile, 1984 – Resgata o período em que Jorge Amado e Zélia viveram exilados na Europa, em 1948. Os dois tiveram de sair do país porque o partido Comunista, do qual eram membros, foi considerado ilegal. Eles moraram em Paris e na atual República Tcheca, que na época ainda era Tchecoslováquia.

reportagemReportagem Incompleta, 1987 – Em todos os momentos da família Amado, lá estava Zélia com sua rolleyflex, registrando tudo. As fotos viraram este livro, que teve até edição trilíngüe: português, inglês e francês.

jardimJardim de Inverno, 1988 – Novo registro da escritora sobre o período em que viveu com Jorge Amado na França, Tchecoslováquia e Rússia, complementa as memórias iniciadas com Senhora Dona do baile.

pipistreloPipistrelo das mil cores, 1989 – Estréia de Zélia na literatura infanto-juvenil, é todo narrado em versos e fala sobre as consequências da destruição ambiental para os seres humanos.

segredoO segredo da rua 18, 1991 – Nesta nova aventura infanto-juvenil da cronista, ela conta a história de um grupo de crianças que vivem diversas situações engraçadas e estranhas em busca do tesouro do pirata Gancho de Ouro.

chaoChão de meninos, 1992 – Crônicas da família Amado que resgatam a infância dos filhos de Zélia e Jorge. Foi lançado no ano em que Jorge Amado fez 80 anos. O texto é leve, alto-astral e contagiante, quase dá para se sentir parte da família.

cronicaCrônica de uma namorada, 1995 – Através da primeira experiência amorosa de uma adolescente, contada com muita graça e leveza por Zélia, ficamos sabendo como era a vida das meninas nos anos 50, suas expectativas, seus sonhos e as cobranças sociais. Jorge Amado escreveu o prefácio e foi o principal incentivador para que Zélia entrasse no ramo da ficção.

casaA casa do Rio Vermelho, 1999 – Nestas crônicas, Zélia coloca sua casa e a de Jorge Amado, no bairro boêmio do Rio Vermelho, em Salvador, como protagonista das histórias vividas pela família. O livro celebra a amizade, pois traz histórias deliciosas dos encontros ocorridos sob as mangueiras da antiga casa.

cittaCittá di Roma, 2000 – Neste livro, Zélia mergulha fundo nas memórias de sua família e conta a história da imigração dos italianos para o Brasil, no final do século XIX, através da viagem que seus avós, os pais de Ernesto Gattai e Angelina Dacol, fizeram no navio Cittá Di Roma.

jonasJonas e a sereia, 2000 – Outra obra infanto-juvenil da escritora, que reinventa o mito das sereias e conta uma história de amor improvável, mas perfeitamente possível no mundo da literatura, a paixão entre um homem e uma sereia.

codigosCódigos de família, 2001 – Quem não gostaria de saber o que se passa entre os membros de uma família famosa? Seus casos, as piadas, apelidos, os micos que pagaram? Pois é o que Zélia divide com os leitores em mais um volume das suas deliciosas memórias.

baianoUm baiano romântico e sensual, 2002 – O último livro publicado por Zélia Gattai foi escrito por ela e pelos filhos como uma homenagem a Jorge Amado, morto em 2001. Reúne três relatos, um de Zélia, um de João Jorge e um de Paloma.

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Livros para entender política e poder

Nãs se contente em ouvir o que te contam sobre poder. Há muito o que aprender, há muito o que pesquisar, porque há muito o que mudar em nossa sociedade. E, particularmente, não consigo conceber qualquer tipo de mudança sem que haja uma consciência coletiva. Aliás, há uma outra opção, claro. Derramar sangue. Para mim, são as duas formas de mudar a ordem: ou a gente vai se munir de informações e conhecimento e através deles buscar reconstruir esse mundo, ou vamos à luta, de mãos armadas, tirar a vida dos adversários.

Um dia, eu quis participar de um destes grupos revolucionários. Confesso que acreditava que a única forma de transformar nossa sociedade seria por meio da luta armada, do derramamento de sangue. Com o tempo, percebi que nenhuma nova ordem vai agradar a todos. E se pensarmos em reconstrução do sistema por meio da guerra, nunca sairemos dela. Afinal, sempre haverá aquele grupo descontente disposto a empenhar suas armas em prol do que considera uma sociedade justa. Por isso, desisti das armas.

Optei pelo conhecimento, por esgotar as ferramentas que estão às minhas mãos, os livros. Um dia, ouvi de alguém que os livros eram caros, inacessíveis a todos… Mas gente, vocês já pararam para checar quantas bibliotecas públicas há em sua cidade? Quais os volumes disponíveis nestes locais? Já visitou a biblioteca particular daquele amigo que gosta tanto de ler? Já foi às livrarias que te permitem sentar confortavelmente e degustar, ali mesmo, aquele mundo de linhas? Pois é. Acho que há uma questão pontual aqui, e se chama interesse.

O blá, blá, blá anterior é apenas para introduzir algumas sugestões de leitura que acho importantes para quem pretende compreender como funciona a estrutura do poder em nossa sociedade. São apenas algumas indicações e ficarei bastante contente se alguém tiver mais volumes a acrescentar. E vale ressaltar que nenhuma leitura deve ser feita como se se tratasse de uma verdade incontestável. Aqui são apenas algumas propostas de leitura, que levarão vocês a tantas outras, à formação de um posicionamento crítico sobre elas.

E, mais uma vez, reforço. Evoluímos muito socialmente, mas ainda temos problemas incontáveis a resolver. Portanto, mãos os livros. Talvez se compreendermos a formação de nossa sociedade possamos descobrir novos instrumentos de luta.

AOS LIVROS

Braviário dos PoliticosBreviário dos Políticos (Cardeal Mazarin) – A que meios deve um indivíduo recorrer para ampliar ou preservar seu poder? É o que tenta responder Jules Mazarin, chefe de governo da França no século XVII. Basta dizer que o cardeal era qualificado como um homem vil, desprezível, covarde, desonrado, mentiroso… No livro, ele traz uma série de conselhos para que alguém possa chegar ao poder. E esse alguém, ao contrário do Príncipe de Maquiavel (leia também!), pode ser você, por exemplo. Porque as observações de Mazarin são destinadas a qualquer um, que deve exercer o poder sem violência. O poder brota dos relacionamentos e, portanto, cada indivíduo pode, dentro da sua esfera de relacionamentos, exercer a sua parcela de poder. A partir da leitura do livro, você vai acabar identificando uma série de perfis de pessoas que convivem ao seu redor.

A Arte da GuerraA Arte da Guerra (Sun Tzu) – Qual é o verdadeiro objetivo da guerra? Para Sun Tzu, um general chinês que viveu há cerca de 500 anos antes de Cristo, é a paz. Para mim, toda guerra traz disfarçado o objetivo de conquistar o poder. Foi esse general quem escreveu este livro, que se transformou em um manual de estratégia militar. São treze capítulos, com inúmeras dicas sobre como vencer uma batalha. Em sua filosofia, fica clara a sua predileção pela vitória sem luta. Ele defende, inclusive, que é preciso tornar o conflito desnecessário. Mas, sendo necessária a luta, que o indivíduo ou a nação entre nela para vencer. E ele vai ensinar como. Não foi à toa que o general norte-americano H. Norman usou técnicas de guerra de Sun Tzu na Guerra do Golfo. As dicas do general, assim como tem acontecido com o livro de Maquiavel, têm sido adaptadas para as relações pessoais, profissionais e comerciais.

Do contrato SocialDo Contrato Social (Jean-Jacques Rousseau) – Rousseau é dos pensadores que mais defendeu a liberdade, considerando-a “direito inalienável e exigência essencial da própria natureza espiritual do homem”. Este livro é considerado uma das obras primas do filósofo suíço. Antecessor de Rousseau, John Locke acreditava que o homem podia ser privado da liberdade, desde que fosse por sua vontade. Deveria, então, haver seu consentimento. Rousseau vem para rebater esta teoria, defendendo que a liberdade é um bem irrenunciável, porque inerente à condição humana. Neste contexto, ele propõe a criação de um contrato social, que seria a base da realização da vontade comum. Imagine os indivíduos, de comum acordo, decidirem formar um tipo de sociedade específica, com a vontade social dirigida ao bem comum, à qual prometem prestar obediência? É o que propõe o contrato social.

A PoliticaA Política (Aristóteles) – Todo mundo já ouviu falar de Aristóteles, mas tenho certeza de que poucas pessoas de fato leram alguma coisa escrita por ele. Aliás, este filósofo grego escreveu sobre quase tudo: física, psicologia, biologia, metafísica, ética, direito, poética… e política. Neste livro, o pensador analisa o Estado existente como se fosse o único possível. Assim, sai na defesa da escravidão. Para ele, a sociedade escravocrata era mais que necessária, era fundamental. “Ora, se um homem pertence a outro, é uma coisa possuída, mesmo sendo homem. E uma coisa possuída é um instrumento de uso”, dizia ele. O discípulo mais ilustre de Platão, e que em muito contrariava suas idéias (é só ler A República, de Platão, para compreender o que estou dizendo)  diferenciou a política (doutrina moral social) da ética (doutrina moral individual). Para ele, a política era a ciência da felicidade humana.

Microfisica do PoderMicrofísifca do Poder (Michel Foucault) – Para este pensador contemporâneo, o poder é uma relação de forças, presente em todas as esferas sociais. Ele é exercido, praticado e não um bem que pode ser fruto de apropriação. É dele a frase “toda forma de saber produz poder”. No livro, ele cita uma frase de Nietzsche, muito apropriada para o seu estudo: “o bom não é o contrapeso das forças entre o mais forte e o mais fraco, mas sim a cena desse enfrentamento”. O livro ajuda a compreender as novas formas de poder, que deixam de basear-se na força e na legitimação religiosa. Hoje, sua materialização é identificada nas diversas formas de disciplina, não havendo, portanto, uma única forma de manifestação. Ele fala do poder que emana nos bastidores da sociedade, do poder que impõe uma barreira ao saber das massas, do poder dissimulado que está por trás das prisões, do poder como meio de dominação. Pra complementar, leiam também “Vigiar e Punir”, do mesmo autor.

A Armadilha da GlobalizaçãoA Armadilha da Globalização (Hans-Pete Martin e Harald Schumann) – Quem ganha e quem perde com a globalização? Em uma avaliação realizada por líderes mundiais durante reunião promovida pela Fundação Gorbachev em 1995, concluiu-se que, no século XXI, será necessária apenas 20% da força de trabalho para fazer girar a economia. Você imagina como viverá os 80% restantes da população? O livro discute os rumos da globalização, o problema da internacionalização descontrolada dos mercados, dentre outros temas. O Brasil está nas páginas do volume, trazido à tona pela dupla de jornalistas como um exemplo do quadro desigual composto de ricos confinados em guetos e de massas pobres lutando pela sobrevivência. Será que é no que nos transformaremos? O livro traz também alternativas, em busca da salvação da política (que hoje vive à mercê da economia) e da restauração da democracia.

estadomodernoUm Ensaio Sobre o Estado Moderno (Christopher W. Morris) – O autor é professor de filosofia de uma universidade norte-americana. É uma publicação bem recente, de 2005, que faz um estudo sobre os formatos dos Estados modernos. O Estado é a melhor organização social? Ele deveria existir? O livro traz uma discussão sobre as justificativas determinantes para estes Estados, é um exame filosófico sobre o tema. Traz também alternativas de organizações políticas e suas formas de legitimação. O texto mostra o fracasso dos Estados em correspondência à imagem que fazem de si. É uma leitura que nos ajuda a compreender esse modelo de organização social e política em que vivemos, que nasceu lá na Europa (França e Inglaterra) e contaminou o mundo.

 

Claro que existem centenas de outros livros importantes sobre o assunto. Mas aqui, pelo menos, já serve como pontapé inicial à nova visão de mundo que você quer desenvolver. E boa leitura!

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Leia tabém:
>> Livros que todo adulto precisa ler
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