Artigo: De volta ao começo do ciclo

Recebi um artigo muito interessante, nesta quinta, via email, e que de certa forma tem relação com o último “texto filosófico” que escrevi aqui para o blog, sobre como a TPM é tratada de maneira rasa por um programa de TV. No artigo, a coach Melissa Setubal relata uma experiência pessoal. Ao divulgar o texto, não estou dizendo que todas as mulheres devem ou precisam seguir o mesmo caminho que ela escolheu. Mas creio que o depoimento sincero rende uma reflexão. As questões que Melissa levanta são sobre os benefícios e os malefícios da pílula. Ela, porém, não deixa de ressaltar que, ao abrir mão da pílula, precisou buscar outro método contraceptivo. Vale lembrar ainda para quem estiver lendo, que além de evitar gravidez indesejada, os contraceptivos como a camisinha, por exemplo, protegem das DSTs (doenças sexualmente transmissíveis) e do vírus da Aids. Boa leitura!

De volta ao começo do ciclo

*Melissa Setubal

Acabo de ter um dos melhores resultados que eu aguardava da minha caminhada na alimentação e estilo de vida saudáveis: meu primeiro ciclo menstrual natural em 16 anos!

Foi há cerca de um ano que comecei meu desafio de retomar as rédeas do meu sistema reprodutivo. Iniciei um tratamento que usa apenas comida e suplementos naturais para limpar o organismo feminino de problemas típicos de nossa era.

Não vou dizer que é moleza, mas para mim, que já estava mudando muita coisa no meu estilo de vida, foi quase natural. Comecei aprendendo a como comer para dar suporte ao meu sistema endócrino, depois comecei a tomar algumas ervas e suplementos vitamínico-minerais para dar aquele apoio extra, e finalmente conversamos muito sobre energia feminina.

Foi então que tomei uma decisão que jamais imaginei que iria acontecer nessa vida: parar de tomar a pílula anticoncepcional depois de usá-la initerruptamente desde os 15 anos. Para quem tem Ovário Polimicrocístico, isso é quase como uma condenação, pois logo cedo aprendi que, para controlar suas manifestações temidas (acne, pelos, excesso de peso, menstruação irregular, resistência à insulina, etc), a única saída é a pílula, e não há cura.

Ainda mais porque eu passei a tomá-la sem parar para menstruar por cerca de 7 anos, na tentativa de controlar uma TPM forte e enxaquecas excruciantes, sem muito sucesso.

Aprendi que a pílula causa coisas ainda piores, como predisposição a trombose, doenças cardíacas, derrame, entoxicação do fígado, e muitas outras coisas assustadoras. Eu que já vinha com bronca da indústria farmacêutica convencional, fiquei mais revoltada ainda por nunca ter sido devidamente orientada sobre tudo isso.

Mas e o medo de largar essa muleta que me “sustentava” há tanto tempo? Como será que meus ovários iriam se comportar? Minha cara ia voltar a ficar cheia de espinhas? Eu iria continuar tendo os sintomas terríveis antes e durante a menstruação das quais eu tentava fugir? Como eu iria evitar a gravidez?

Sabia que exigiria da minha paciência, que me desafiaria a cada instante, e que volta e meia eu teria vontade de desistir e usar alguma “pílula mágica” para fazer parar qualquer sofrimento que eu estivesse sentindo no momento. E assim foi: passei 7 meses sem menstruar, com episódios de depressão, irritação, rosto e corpo cobertos por acne, cabelo caindo, dentre outras coisas “divertidas”. Minha impressão era, naquele momento, que minha vida era melhor com a pílula. Mas volta e meia alguma coisa acontecia para me lembrar o porque escolhi esse caminho.

Uma das mais incríveis foi a melhora em 90% da minha enxaqueca, algo que jamais imaginei que me livraria. Isso vinha atrapalhando minha vida tão profundamente, que há algum tempo atrás eu tinha crises fortíssimas de não conseguir sair do quarto pelo menos uma vez por semana. Agora, fiquei sem nenhuma manifestação por mais de 3 meses, e quando ela veio no dia antes da menstruação, não passava de um pequeno desconforto e uma leve dor de cabeça, que não me impediu de continuar minha atividades normais.

Hoje, tenho apenas poucas e pequenas espinhas, meu cabelo está nascendo novamente, minha energia e humor estão mais estáveis, meu fígado funciona melhor do que nunca, a glicose no meu sangue estável, e um sorriso no rosto ao ver que a menstruação está descendo.

Essa para mim é a maior vitória de todas: me sentir confortável no meu corpo de mulher, celebrar cada etapa do meu ciclo e usá-lo ao meu favor no meu dia-a-dia, e abraçar o feminino em mim que esteve reprimido por tantos anos, aprendendo a usar seu grande poder de transformação no mundo.

*Melissa Setubal é coach de Saúde Integrativa especialista em saúde da mulher

**Texto enviado ao blog pela SBPNL e publicado mediante citação da autoria e respeito à integridade do conteúdo.

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Artigo: Hormônios, chatices e chateações

Adoro os textos da jornalista Marli Gonçalves e fico bem feliz quando recebo email com um dos artigos dela. Me divirto demais lendo e paro para pensar em um monte de coisas legais que ela nos diz, de um jeito nada metido, super gostoso e informal. Claro que tinha de compartilhar com vocês 🙂 Esse de hoje tem bem cara de blog feminino, mas não significa que os meninos não devam ler. Recomendo que vocês leiam, viu moços, porque são tão movidos a hormônios quanto nós…

Hormônios, chatices e chateações

*Por Marli Gonçalves

Tem uns assuntos que são bem chatinhos, e a gente evita a todo custo até lembrar-se deles, quanto mais comentar ou tocar neles. Entre alguns, o de pensar e avaliar nossas próprias limitações, o que acontece no nosso organismo, ou admitir dores, fraquezas, cansaços e idiossincrasias, inclusive sexuais. Cobrar amigos também é um porre, igual aguentá-los quando eles estão de porre. A lista é enorme. E dependem de nossas descargas hormonais do dia. Descobri o culpado pelos males do mundo: os hormônios.

Prato do dia: hormônios efervescentes à Provençal. Oferta do dia: hormônios equilibrados, com baixas calorias e irritações. Na sobremesa, altas taxas de compreensão e, de quebra, um livrinho iogue qualquer, com exercícios para manter a cabeça no lugar quando o que se quer mesmo é arrancá-la do tronco, se não for a sua própria, especialmente aquela cabeçorra de quem está aborrecendo você.

Nos meus retiros espirituais, como diria Gilberto Gil, descubro certas coisas tão normais. Só que eu não tenho tempo para retiro algum, e ando vendo as coisas normais absolutamente anormais. Por exemplo, você faz uma compra pela internet justamente por causa da urgência que tem. Os caras não só não te entregam logo, como ainda cozinham seu galo em banho-maria. Só resolvem quando você ameaça, e mais, você precisa brigar e lutar via todos os canais competentes, com a boca no trombone e a mão na catapulta. Não seria mais fácil resolverem sem isso? Levei um mês para conseguir receber uma lavadora. Uma saga.

Hormônios? Isso é coisa da sua cabeça!

Nada mais se faz – me parece – de forma simples. Outro dia resolvi me libertar, em minha casa, do jugo da Telefonica. Gastava e pagava sem usar. Quando usava pagava mais do que gastei. Enfim, resolvi. Vocês já tentaram se livrar de uma operadora? Foram quase duas horas de puro desgaste, espere um momentinho, departamento x, para departamento y, perguntas, respostas, mesmas perguntas e, claro, as mesmas respostas. Parecia aula de jornalismo. Por que, quando, onde.

O melhor foi uma enorme e variada quantidade de coisas que me ofereceram tentando me demover da ideia, só faltou (uma pena) oferecerem um cruzeiro no Caribe. Se podiam me dar tudo isso, porque não deram antes? Juro: foi difícil demais da conta. As atendentes só faltaram me contar histórias de como elas seriam açoitadas caso me deixassem partir. Agiram como amantes abandonadas à própria sorte, grávidas, no meio do Congresso Nacional assistindo a discurso do Suplicy.

Eu, de minha parte, senti-me uma carrasca, com a no final, como está tanto na moda, a fria, a insensível por abandonar uma empresa tão “legal” depois de dezenas de anos de convivência. Deve ser mais fácil separar-se do marido do que desvencilhar-se das operadoras. Eu consegui, mas ando atormentada se algumas dessas atendentes não foram demitidas por minha causa. As pessoas do caso da máquina de lavar, ao contrário, não me comoveram. Por mim, desejei que todas elas e eles comprassem no mesmo lugar e tivessem o mesmo problema para ver como é bom para a tosse, e enfiassem aquelas respostas cretinas que me davam em um lugar bem legal.

A mim parece que o mundo todo está no limite, ou sendo levado até ele. O tempo. A política. A natureza. O bom senso. As relações humanas. Será que estamos recebendo descargas atômicas junto com todas essas chuvas? Será a nossa alimentação? Não há teses falando dos hormônios das carnes dos animais que comemos, e dos efeitos dos agrotóxicos, que nem barato dão? Será o ar que respiramos? Será culpa do governo? Do Obama?

Aí, saquei o que acontece. Os hormônios – verdade! – parece que têm, sim, boas partes de culpa no cartório. Eles estão na corrente sanguínea ou em outros fluídos corporais. Esses casos nervosos acabam envolvendo todos, os masculinos, os femininos, os vegetais (é, são fundamentais), os dos adolescentes. Sou a favor de penas mais leves, por exemplo, para mulheres que cometeram crimes durante o período de TPM.

Fui fazer uma pesquisa sobre isso, tentando entender o meu próprio organismo. Estou num tal de climatério, palavra bonita, mas que acaba irritando mais porque lembra calor e cemitério. Dizem por aí que o citado dá ondas de calor, suores noturnos, insônia, menor desejo sexual, irritabilidade, depressão, ressecamento vaginal, dor durante o ato sexual, diminuição da atenção e memória. Ufa! Não cheguei a tudo isso, mas pensei que se tem quem passa por metade, imagine pisar sem querer no calo dessa mulher.

É tudo culpa dos hormônios, sim! Só pode ser a falta ou excesso de estradiol, progesterona, testosterona, esterona, cortisol, melatonina, um bando a quatro, os culpados pelos males do mundo. Descobri até um que chama premarim, estrogênio artificial receitado com frequência, porque protegia pessoas com problemas cardíacos, mas também já contribuía para o aumento do câncer de mama e do endométrio (parte interna do útero). Os médicos tentaram melhorar a coisa, aliando-o ao provera (progesterona sintética), mas o risco de doenças cardíacas aumentou de novo. O pior vem agora: segundo consta, o premarim é feito com urina de éguas prenhas que são aprisionadas, tratadas estupidamente e sacrificadas para este fim. Socorro!. O que uma veggie, vegan, vegeta diria?

Não sei se estou certa ou não, mas fico mais tranquila em saber que não sou só eu que passa por tantos perrengues. Que esses hormônios atacam todo mundo, desde que nascemos até nossa morte. Nos adolescentes que quase piram, tantas transformações. Nas mulheres, por outro tanto. Nos homens, nos ossos, nos órgãos, nos acúmulos de gordura aqui e ali.

Por via das dúvidas já fui ao médico, fiz todos os exames e as coisas – por dentro – estão normais. O que me faz crer que, então, as chatices e chateações são da natureza.
São do dia-a-dia que temos que viver. Calma. Take it easy

São Paulo, o que ajuda na irritação, 2011

*Marli Gonçalves é jornalista e consultora de comunicação. Ela adora trocar uma ideia com novos amigos e é generosa para compartilhar seus textos, desde que a fonte original seja devidamente citada e a integridade do material respeitada. Grita quando pisam no seu calo. Ia esquecendo de contar que descobriu que existe um tal de hormônio estradiol, que os pesquisadores dizem que eleva a autoestima e faz com que as mulheres traiam porque acabam se sentindo menos satisfeitas com seus parceiros e menos comprometidas com eles, em um comportamento que chamaram de “monogamia oportunista em série”. Segundo os cientistas, isso se deve a um instinto de buscar parceiros com mais qualidades. Bonitinho esse desequilíbrio, não?

>>Para seguir a Marli no Twitter: www.twitter.com/MarliGo; para acessar esse e outros artigos dela na fonte original: www.brickmann.com.br ou no blog pessoal: marligo.wordpress.com. E ela também recebe emails em: marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br.

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Outros textos de Marli Gonçalves aqui no blog:

>>Artigo: A vitória das ruas

>>Artigo: “Violência contra a mulher”

>>Artigo: Impaciências

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Ainda o estereótipo da mulher como presa fácil

*Texto e reflexões de Andreia Santana

Esse texto vai pular a fila e passar à frente da Carol de Camila Pitanga (preciso comentar essa personagem, gente, é ponto de honra!), porque a urgência do fato se sobrepõe e, como se diz no jargão jornalístico, o tema está na ordem do dia.

Recebi a dica de uma amiga, via G-Talk: “pra você que gosta de refletir sobre as representações da mulher”. Ela deu RT no Twitter, igualmente chocada com o conteúdo. Detalhe: o RT foi do Twitter de um amigo, para vocês verem que os homens de bom-senso também se sensibilizam com essas coisas. Trata-se de um post num dos blogs da NOVA On Line (Taça em Y). A revista, considero abertamente machista tanto na versão impressa quanto na virtual, mas, infelizmente, engana meia dúzia de incautas. Se você pensa que as dicas de “como enlouquecer seu gato na cama” ou “como conseguir ter mais orgasmos que suas amigas” te tornam super poderosa, lamento informar, companheira, a NOVA vende as velhas “amelinhas” de outrora, submissas, objetos de decoração e dispostas a tudo para “agradar” o macho alfa, competitivas e nada solidárias com outras mulheres, de uma forma que considero negativa e que não ajuda em nada a imagem coletiva que se faz do feminino. A diferença é que as novas “amelinhas” estão embaladas para presente em fashionismo fake. Mulheres de atitude, de verdade, passam longe da intenção editorial da revista, do contrário, não se justificaria um post desses, em pleno Carnaval.

O título sugestivo: “Como descolar um gringo no Carnaval”, já mostra por quais caminhos vai a minha análise. Felizmente, ao acessar a página novamente, vi que tiraram o conteúdo do ar, provavelmente porque repercutiu mal nas redes sociais (280 RTs no Topsy -Twitter Trackbacks) e a ira de outros blogueiros em portais grandes como o Uol, mas o título continua registrado, para provar que não foi delírio coletivo (acesse aqui). Além disso, na internet, já ficou provado, a palavra dita e publicada é igual a tatuagem, pode até apagar, mas a cicatriz fica (aqui a versão salva pelo São Google).

Fico exultante de felicidade quando vejo a twittosfera e a blogosfera descendo o sarrafo nesse tipo de conteúdo que em nada ajuda a diminuir os índices de desrespeito e violência contra a mulher e que fazem questão de nos rotular sempre pejorativamente e de preferência como presas fáceis da lascívia masculina. Inclusive, o tema da representação feminina, como lembrou minha amiga, é corriqueiro por aqui, porque me irrita profundamente ver que esse tipo de visão distorcida é vendida como “ideal feminino”.

Como assim dar conselhos para que as brasileiras solteiras na folia arranjem um gringo “com cara de perdido” para “chamar de seu” durante o Carnaval? Estamos no século XXI, mas essa tendência de achar que as mulheres abaixo da linha do Equador são todas lanchinho fácil remonta há pelo menos 200 anos. Quem me conhece sabe que sou fascinada por crônicas de viagem e que os cronistas do século XIX, entre eles membros da realeza como o arquiduque Maximiliano da Áustria, já incentivavam o turismo sexual ao descrever, embasbacado e com artes literárias, o efeito devastador nos seus nervos, que exerciam os ombros à mostra das “belas mulatas baianas”. O príncipe esteve em Salvador lá pelos idos de 1800 e escreveu um livro inteiro sobre suas impressões da visita, dedicando um capítulo à beleza e ao “sangue quente” das mulheres daqui.

O mínimo que o post da NOVA faz é aconselhar as moças dispostas a fisgar o gringo “a pegar um bronze e ficar da cor do pecado”. Movimento Negro Unificado, por favor, manifeste-se!

Que no século XIX se tivesse essa visão limitada de mundo e de respeito ao feminino – principalmente às mulheres negras – , eu entendo, embora não aceite, porque existe toda uma construção histórica milenar por trás dos aparentes elogios à sensualidade tropical. Entendo também  que o texto tenha sido escrito, naquela época, por um homem, da realeza, ou seja, não era qualquer homem, sabemos o que um europeu, branco e da nobreza, era capaz de fazer naqueles tempos. Agora, que nos dias de hoje, uma mulher se dê ao trabalho de montar um manual que ensina outras mulheres a “caçar” e vender-se como banana na feira para um estrangeiro no Carnaval me envergonha demais.

Esse é o arquiduque Maximilian, que pelo visto fez escola

Além disso, o texto é racista – tanto no que diz respeito a empurrar as “morenas” brasileiras para cima de “gringos” que, não todos, mas uma parte, chegam por aqui atrás  dessa promessa de Sangri-la do sexo; quanto racista e xenofóbico em relação à figura dos estrangeiros que visitam o país no verão e ao qual os órgãos de turismo nos dizem com todas as letras, o tempo todo, massivamente, para tratar bem. Tratar bem significa, inclusive, dormir com eles, coitados, tão carentes e sozinhos desse lado do oceano!

É xenofóbico pois reúne os visitantes num pacote único: “gringo otário que pode ser seduzido e explorado” nos dias de reinado de Momo. Cadê o respeito, não ao fato de serem visitantes que deixarão dólares (ou euros) na nossa economia, mas por serem estrangeiros que recebemos em casa e a quem, infelizmente, mostramos nosso pior lado, quando poderiamos aproveitar a oportunidade para desfazer equivocos que perduram há 200 anos! Mas que nada, Maximiliano da Áustria deixou sucessores (e sucessoras)…

Escrever, todo mundo pode escrever o que bem quer, até porque a liberdade de expressão existe para isso. Mas é temerário publicar qualquer coisa, mesmo que sob a desculpa do “estávamos apenas zoando ou tentando ser engraçadinhos no clima momesco”. Mais temerário ainda se torna quando o texto é publicado em site ou veículo impresso de grande repercussão, que forma opinião e que acaba moldando padrões de comportamento, como todo conteúdo de cultura faz. Da novela ao blog, sempre vai ter quem “leia” a mensagem e assuma aquilo como verdade absoluta, disseminando ideias que boa parte das vezes escondem (pre)conceitos absurdos. A ideia aqui não é exercer patrulha ideológica e nem bancar a moralista, porque abomino as duas coisas, mas apenas alertar para que se pense com calma antes de escrever e publicar coisas desse tipo.

Em nada ajuda a diminuir o desrespeito, violência, humilhações e estereótipos dos quais nós mulheres somos vítimas em potencial ou rotuladas diariamente. Ainda existe uma onda machista que se renova e disfarça em várias formas, perigosa e à espreita, pronta para nos engolir e levar de enxurrada tudo o que conquistamos até agora, após décadas de tentativa de conseguir sermos tratadas como seres humanos que merecem tanto respeito quanto qualquer outro, independente do sexo biológico, da orientação sexual, da cor da pele ou da conta bancária. Vamos acordar por favor e usar o poder da mídia – quanto o temos em nossas mãos – para disseminar uma cultura positiva de feminilidade e não para nos expor na prateleira como a mercadoria mais pitoresca do Carnaval brasileiro.

Era por isso que a Simone de Beauvoir dizia que ninguém nasce mulher, torna-se uma. Só que essa construção do feminino não pode ser de uma mulherzinha vendida em revistas e cartazes de cervejaria com a falsa promessa de liberdade sexual e ser dona do próprio nariz se quem dita as regras do jogo são os machinhos que ainda nos dividem em “para casar” e “para passar o tempo”, como o integrante do reality show da moda tanto alardeia.

Engana-se tremendamente quem pensa que bancando a femme fatale para “gringo” ver é que se conquista espaço e se afirma uma identidade de mulherão.  Mulher retada, na real, não é a que assume atitude masculina na caçada. O exercício pleno e livre da nossa sexualidade tão demonizada ao longo dos séculos não passa por esse caminho de degradação. Um recado para quem ainda compactua com esse tipo de ilusão: “acordem e pensem na frase da Simone – que tipo de mulher vocês querem se tornar?”

*Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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Artigo: Sexo frágil e a prevenção da AIDS no carnaval

Para reforçar a campanha sobre sexo seguro no Carnaval, que este ano tem como foco o público feminino jovem, o blog abre espaço para mais um artigo de autoria de Maria Helena Vilela, diretora do Instituto Kaplan. Além de falar da campanha e trazer dados sobre o avanço do HIV/Aids entre as mulheres, Maria Helena dá dicas importantes sobre a sexualidade e autoestima femininas. Mas, embora o foco sejam as garotas na faixa dos 15 aos 24 anos, os conselhos sobre autopreservação valem para as mulheres maduras e também para todos os casais, independente da orientação sexual. Cuidar de si e de quem se ama não é questão restrita a um determinado gênero. Boa leitura!

Sexo frágil e a prevenção da AIDS no Carnaval

*Maria Helena Vilela

A campanha de Carnaval de 2011 terá como público as mulheres de 15 a 24 anos.  O público feminino foi escolhido porque a infecção entre as mulheres está em constante crescimento. Apesar de haver mais casos da doença nos homens, essa diferença diminui ao longo dos anos. Segundo o Ministério da Saúde – Departamento de DST/Aids, em 1989, a razão de sexos era de cerca de 6 casos de aids no sexo masculino para cada 1 caso no sexo feminino. Em 2009, chegou a 1,6 caso em homens para cada 1 em mulheres.

As mulheres lutaram por seus direitos sexuais, pelo direito de estudar, desenvolver uma carreira profissional e conquistar sua autonomia econômica e pessoal. Mas, quando a questão é amor e sexo, a garota volta no tempo, e ainda se comporta de forma submissa aos desejos do namorado e, presa a mitos e tabus que colocam sua vida em risco, como por exemplo, a virgindade. A virgindade ainda é muito valorizada na mulher. Sabendo disso, muitas garotas acabam cometendo equívocos incríveis para não romper o hímen – fazer sexo anal; prática sexual que quando realizada sem preservativo é a de maior risco de infecção pelo HIV. Na contra mão dos fatos, pesquisas mostram a dificuldade de a garota negociar o uso da camisinha por medo de perder o namorado, de ser julgada “galinha”, ou ainda pior: não usar preservativo em nome do amor, acreditando que “quem ama confia”. Tais comportamentos fazem da mulher o verdadeiro sexo frágil.

A infecção pelo HIV se dá pelo contato direto com o sangue, o sêmen e as secreções vaginais, e isto pode acontecer no sexo oral, mas principalmente, na relação vaginal e no sexo anal. O ânus e a vagina são órgãos muito vascularizados, revestidos por um tecido delgado chamado de mucosa. Na relação sexual, especialmente durante a penetração, o pênis provoca atrito na vagina ou no ânus, causando micro-fissuras nas paredes das mucosas, aumentando o risco de que o HIV presente no esperma entre na corrente sangüínea.

Outro fator que aumenta a vulnerabilidade da mulher à Aids é a menstruação. Quando a mulher está menstruada, a descamação da parede do útero o deixa completamente exposto ao HIV. Fazer sexo menstruada é “entregar o ouro para o bandido”, pois o vírus atinge a corrente sangüínea sem precisar fazer esforço.

Como se não bastasse tudo isso, o canal vaginal é um órgão interno, o que dificulta à mulher perceber qualquer alteração na vagina. Muitas vezes, ela só descobre que tem uma infecção, ou mesmo uma DST, se consultar um ginecologista, ou quando a doença já está bastante adiantada. Uma infecção agrava ainda mais a fragilidade da parede vaginal, aumentado a vulnerabilidade da mulher à Aids.

Meninas sejam espertas e fiquem fora desta estatística da Aids. Se existe sexo frágil, estes são o sexo anal e o vaginal, quando o assunto é Aids. Portanto, alguns cuidados são fundamentais na sua vida, e especialmente, no carnaval:

>> Nunca delegue o cuidado com o seu corpo. O corpo só tem um dono, e este é você. Quando você delega, o outro pode não priorizar os seus interesses.

>>Só se previne quem tem convicção dessa necessidade. Busque informações sobre razões para se prevenir, sexualidade, prevenção, DST/Aids e métodos contraceptivos.

>>Não faça qualquer negócio sexual no Carnaval. A auto-estima da mulher está condicionada a sua capacidade de despertar o interesse nos homens, principalmente, em festas como o Carnaval. Se achar que está invisível, mesmo assim, não faça nenhum acordo que possa lhe colocar em risco.

>>Antes de cair na folia escreva uma lista com os nomes das pessoas que você considera importantes e que lhe amam. Isto ajudará você a não esquecer que é amada

>>Sei que é difícil, mas se for transar não beba. A bebida atrapalha o prazer e faz você esquecer seus limites.

>>Nunca negocie o uso da camisinha na hora da transa. O tesão embriaga e lhe deixa entregue a sorte, ou azar!

>>Conheçam a camisinha feminina. Ela é uma opção, e já existem modelos mais simples que facilita a sua colocação.

>>Na falta da camisinha, você não precisa abrir mão do prazer sexual. O casal pode realizar práticas sexuais que não sejam de risco, como a masturbação simultânea entre os parceiros

>>Existem camisinhas de vários tipos e qualidades. Portanto, sempre haverá uma que se adeque ao seu parceiro.

>>Sexo é uma brincadeira de verdade. Quando a gente se machuca, a cicatriz fica para sempre.

*Maria Helena Vilela é diretora do Instituto Kaplanwww.kaplan.org.br

**Conteúdo enviado pela Vera Moreira Comunicação e publicado com autorização, mediante citação da autoria e respeito à integridade do texto.

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Artigo: Você está comprometido com você?

Como prometido, publico hoje o segundo texto resgatado do meu email e que reflete as questões sobre as quais ando “filosofando”: tempo, trabalho, cotidiano corrido, falta de amor nas relações e também, no caso deste artigo abaixo, do Christian Barbosa, o compromisso com os próprios projetos, o que não deixa de ser uma falta de amor consigo mesmo. Muitas vezes, pensamos dezenas de coisas bacanas para fazer ao mesmo tempo, começamos uma meia duzia dessas dezenas e no final das contas, respiramos aliviados se conseguimos concluir uma ou duas delas. Isso quando a rotina não nos engole sem sequer mastigar. Pode ser desorganização e falta de compromisso – como diz o Christian – com os próprios objetivos (praticamos autosabotagem por diversas razões, inclusive medo); ou ainda investimento no projeto errado. Sim, pode acontecer de apostarmos as fichas no objetivo errado e demorarmos para nos dar conta. Ando naquela fase de revisão de conceitos, ideias, projetos, parcerias, relações e caminhos – ou seja, passando a vida a limpo -, então esses dois textos, o de ontem  e o que segue abaixo, representam mais uma etapa nessa minha jornada de autoconhecimento. Espero que sirva para vocês também!

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Leia o primeiro post sobre o tema:

Artigo: Agenda cheia, coração vazio

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VOCÊ ESTÁ COMPROMETIDO COM VOCÊ?

*Christian Barbosa

O ano está começando e, pelo andar da carruagem, será intenso. Raríssimas vezes tive a agenda tão abarrotada nos primeiros meses do ano como em 2011. Tenho recebido e-mails de muitas pessoas falando que 2011 será o ano de colocar os projetos para andar, as metas para acontecer e que será o ano da mudança. A pergunta que faço é: será mesmo que esse vai ser o Seu Ano?

Eu tenho pesquisado muitas coisas interessantes nesses últimos meses, até porque estou escrevendo um novo livro e isso me coloca em estado “nerd” (leio e pesquiso muito). Uma das pesquisas em que estou trabalhando é sobre execução de metas e projetos, e uma palavra constante nesse meio é “commitment” ou “comprometimento”, em português.

A consultoria Gallup publicou diversos trabalhos exclusivamente sobre essa questão de comprometimento e, sem dúvida, é líder nesse assunto. Em uma recente pesquisa apontou que apenas 21% dos profissionais estão engajados em suas empresas, ou seja, a maior parcela dos colaboradores, entre cargos operacionais e gerenciais (79%), simplesmente não está nesta mesma sintonia.

É muita gente sobrevivendo a um trabalho sem paixão, sem sentimento de conexão e colaboração com a empresa. Talvez isso explique o péssimo atendimento que temos em diversos segmentos públicos e privados no País. O interessante é que o mesmo sentimento se replica na vida pessoal – ou talvez o sentimento da vida pessoal se replique na empresa.

Questionei algumas pessoas que tiveram uma nula ou baixa realização dos seus planos no ano anterior. E depois de um mar de desculpas vagas, o que realmente parece é que eles não estavam comprometidos com nada que planejaram. Triste realidade, mas muita gente está vivendo exatamente desse mesmo jeito agora. São apenas zumbis, que ligaram o piloto automático e estão sobrevivendo ao dia a dia. Talvez, até mesmo você, não esteja profundamente comprometido com a sua meta de emagrecer, viajar, falar inglês, prosperar, de fazer a empresa crescer etc.

São insanas as pessoas que buscam resultados diferentes no ano novo, fazendo tudo do mesmo jeito que fizeram no ano passado. São insanas as pessoas que acham que as coisas vão cair do céu, que vão acontecer por osmose, que alguém vai fazê-las subir rapidamente na empresa. São insanas as pessoas que criticam a sorte pelo resultado. São insanas as pessoas que culpam o tempo por ser tão rápido.

Semana passada, fechamos o planejamento estratégico da Triad e, nas minhas férias, fechei o meu planejamento pessoal do ano. Foi muito legal descobrir que Eu fui um insano! Um dos meus projetos está andando muito devagar há dois anos. Devagar porque eu, sem perceber, repeti um plano medíocre nesses dois anos, fiz poucas atividades diferentes! Comparado a tudo que andou de forma excepcional no ano, esse especificamente ficou bem tímido. Fantástico acordar para isso! Na verdade, não me comprometi profundamente com esse objetivo, apesar de querer muito que ele aconteça. Não coloquei foco, energia, não ousei, revisei o plano poucas vezes, arrisquei pouco, fechei os olhos em alguns momentos.

Isso acontece a todo o momento, com quase todo mundo! Quando a falta de comprometimento está controlada em uma ou outra coisa o impacto é pequeno, mas tem gente que não se compromete com a própria vida. Deixa tudo para depois, não se compromete com o amanhã porque não se comprometeu nem com o hoje. Não consegue descobrir o seu importante, pois nunca se comprometeu em parar e refletir profunda e honestamente sobre isso.

Quer saber se 2011 será o SEU ano? É simples, basta saber o quanto você está realmente comprometido em fazer com que as coisas aconteçam! Comprometa-se com você mesmo antes de reclamar que as coisas simplesmente não acontecem e faça de 2011 um ano diferente. Quem sabe esse não é o ingrediente que falta para você sair do lugar e fazer com que as metas de ano novo se concretizem?

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*Christian Barbosa é especialista em administração de tempo e produtividade, fundador da Triad PS, empresa multinacional especializada em programas e consultoria na área de produtividade, colaboração e administração do tempo e ministra treinamentos e palestras para as maiores empresas do país e da Fortune 100. Também é autor dos livros A Tríade do Tempo e Você, Dona do Seu Tempo, Estou em Reunião e co-autor do Mais Tempo, Mais Dinheiro. Mais nos sites: www.triadps.com.br e www.maistempo.com.br.

**Texto enviado ao blog pela Image Press e publicado com autorização, mediante citação da autoria e respeito a integridade do material.

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Artigo: Agenda cheia, coração vazio

Reflito bastante sobre o tempo, o trabalho, a correria cotidiana e a falta de amor nas relações atuais. Me irrito bastante também, “Nossa Senhora me dê paciência”, diria o velho Manoel Bandeira. É a idade, minha gente, quanto mais ela avança, mais me torna pensativa. Dando uma geral no meu email por esses dias, vi dois artigos que também refletem essas minhas “inquietações”, para usar uma palavra bem contemporânea, e resolvi trazer o conteúdo para a nossa Conversa. Antes de vocês encherem os olhos com as Curtinhas do Mundo Fashion do dia (sim, a coluna vai ser diária!!), publicarei os dois artigos que estavam na minha caixa de entrada. O primeiro, agora, e o outro, neste domingo. Este que abre a micro série é da Erika de Souza Bueno, consultora do portal Planeta Educação. Vale muito a pena ler e pensar no que ela nos diz. Encham a alma!

Agenda cheia, coração vazio

*Erika de Souza Bueno

Agenda cheia, coração vazio. É assim que muitas pessoas se sentem nestes dias tão tumultuados, com uma pauta imensa de obrigações como reuniões, congressos, e-mails a ser encaminhados/respondidos, contas e mais contas a pagar.

Mas será mesmo que os assuntos que tomam todo o nosso dia e levam o nosso vigor, deixando-nos exaustos, são mesmos indispensáveis ao nosso bem-estar? Para responder a isso é necessário responder primeiro o que realmente nos proporciona o conforto, a satisfação e a paz.

Prioridades. Esta é a palavra-chave para aqueles que não têm mais tempo para aproveitar o dia ou, ainda, aproveitar enquanto é dia e a luz ainda está a brilhar, mesmo que muitos não tenham tempo para nem sequer perceber isso.

Os dias e os anos passam em velocidade muito maior que a de anos atrás, alguns podem pensar. Porém, acredito que não é o tempo que está correndo e, sim, nós mesmos. Somos nós que quando resolvemos tirar o pé do acelerador, já não temos mais nenhuma energia para direcioná-la em momentos que nos conduzirão, realmente, à plenitude do sucesso.

Ao me referir ao pleno sucesso, estou dizendo que o sucesso só será completo se lançarmos sobre a vida um olhar mais amplo, que contemple tanto o lado do sucesso profissional quanto o sucesso pessoal e familiar.

Pessoas que vivem numa busca enlouquecida pelo sucesso na carreira, mas não dispensam o devido cuidado com a saúde física e emocional, incluindo a construção de laços afetivos, por exemplo, estão buscando o sucesso apenas numa área da vida, esquecendo-se de outras que são fundamentais para sermos realmente felizes.

É como um carro indo na contramão. Os motoristas de outros veículos buzinam num sinal de alerta, dizendo que ali não é a direção certa, mas disso até uma mudança de atitude/direção muita coisa pode acontecer e, não se tomando as devidas providências, o resultado desta viagem insana pode ser fatal.

Conheço algumas pessoas que chegaram à velhice com uma confortável aposentadoria, resultado de árdua dedicação ao trabalho, mas ao olharem do lado não veem ninguém. Estão sozinhas, não tiveram tempo em suas agendas para construir bases sólidas para as suas vidas.

Nossa vida é curta demais para vivermos todas as experiências de todas as pessoas. Por isso, é importante olharmos do lado e atentarmos para a experiência daqueles que já viveram situações que, possivelmente, nós não teremos chances de viver.

Ouvi alguém dizendo que só nos damos conta de que aquilo que fazíamos era errado quando não temos mais chances de mudar mais nada. Resta-nos a sabedoria de aprendermos com o outro, enquanto ainda há tempo para mudar nosso modo de ver o mundo e repensar nossa lista de prioridades.

Nosso trabalho precisa de dedicação, mas de forma alguma esta dedicação precisa ou deve ser integral. Dedique-se ao planejamento sábio, visando todas as áreas de sua vida. Se for preciso, acorde ou durma mais cedo. Passeie com seu filho, brinque com ele, vocês dois se recordarão destes momentos algum dia.

Saia de férias, descanse até mais tarde para repor suas energias. Se achar que não tem tempo, comece a pensar que todos nós temos as mesmas 24 horas no dia. Ninguém, afortunado ou não, tem 25. Se algumas (poucas) pessoas conseguem dedicar-se à família, ao trabalho e a si próprias, nós também conseguiremos. O que nos diferencia é, basicamente, a forma como organizamos nossos dias e nossas vidas. Pense em maneiras de aproveitar o dia, sem deixar a luz da esperança e do amor se apagar.

*Erika de Souza Bueno é Editora e Consultora-Pedagógica de Língua Portuguesa do Portal Planeta Educação (www.planetaeducacao.com.br), Professora de Língua Portuguesa e Espanhol pela Universidade Metodista de São Paulo. Articulista sobre assuntos de língua portuguesa e família.

**Texto encaminhado ao blog pela Ex-Libris Comunicação Integrada e publicado com autorização desde que citados os créditos e respeitada a integridade do material.

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Amizades “solares” e amizades “pé no chão”

*Texto e reflexões de Andreia Santana

Acordei com vontade de refletir sobre a amizade, um tema que já foi abordado aqui no blog algumas vezes, mas que é daqueles recorrentes. Fiquei pensando nos diversos grupinhos por onde transitamos e também no que certos amigos podem significar para nós. Lembrei das amizades “solares” e daquelas “pé no chão”, todos conhecemos amigos assim. O que me motivou foi um trecho de uma oração que li ontem à noite. Quem costuma acompanhar o que escrevo, aqui ou nos outros blogs que mantenho, sabe que não tenho religião definida e nem gosto que tentem me convencer a abraçar uma. Mas tenho um sentimento, digamos, de religiosidade filosófica, que transcende os credos. Talvez essa “conexão mística reflexiva” venha do interesse enorme pelas mitologias: a oriental e a ocidental.

Mas, qual a relação da religiosidade com amizade? Já explico. Na oração que estava lendo, um dos trechos da novena para Santa Edwiges, de quem minha mãe é devota, há uma meditação de São Thiago – o apóstolo – sobre o silêncio, mais precisamente o não pecar por palavras. Basicamente, o trecho fala da necessidade de saber calar, de não “se divulgar o que os outros não tem o direito de saber”. Mais adiante, em outra frase, o santo reflete o seguinte: “Quantas vezes a falta de silêncio em torno de certos assuntos não é também uma falta de caridade!”

E aí é que faço a conexão entre essa oração lida e minha inquietação com a amizade. Em outras ocasiões já defendi que gosto sempre de saber a verdade, mesmo que ela doa. Mas, refletindo um pouco mais a questão, tem momentos na vida em que é melhor não saber por exemplo, o que dizem pelas nossas costas. Isso porque, de nada vai servir saber que alguém não gosta de nós a ponto de destilar veneno sempre que possível ou mesmo de criticar uma decisão ou trabalho nosso, sem sequer ter se dado ao trabalho de investigar melhor o tema ou as nossas motivações para agir de uma forma e não de outra.

Pessoalmente, prefiro saber  daqueles que gostam de mim, relegando à mais fria indiferença os que não gostam. Também tenho verdadeira repulsa por frases do tipo: “só estou te contando isso para abrir seus olhos”. É aqui que entraria o que São Thiago chama de falta de caridade e que eu, no meu modo “pagão”, chamo é de falta de respeito, de carinho e de solidariedade. E sim, amigos, mesmo que sem intenção declarada, são capazes de cometer tanto falta de respeito, quanto de carinho ou solidariedade. E nós também. Basta fazer um exame de consciência profundo, que em algum momento iremos encontrar uma frase, uma resposta, uma palavra desferida na direção de um amigo com a precisão de uma flecha no peito. Por menos que gostemos de admitir, há momentos em que somos cruéis ou então, vítimas da crueldade, até mesmo dos mais íntimos.

Voltando aos dois tipos de amizade que estou analisando aqui neste post, nossos amigos “pé no chão” são aqueles que vira e mexe nos puxam para a realidade dura da vida, geralmente quando estamos “viajando demais na maionese”. Eles são mais que necessários para contrabalançar as forças, principalmente se temos uma tendência a devanear em excesso e alguma dificuldade de retomar o foco depois. Mas, esses mesmos amigos “pé no chão”, em alguns momentos, perdem a medida. Há ocasiões, bem sabemos, em que a verdade não precisa ser jogada na nossa cara com tanta veemência, ou que temos até o direito de quebrar a cara para ver como é a sensação. Não é necessário mentir ou adoçar a pílula como diz o ditado, mas basta fazer silêncio. Não tocar naquele assunto que abre feridas, não azedar o dia com as fofocas de bastidor que infelizmente, tornam-se cada vez mais norma neste mundo. Não exercer a crueldade infantil da pirraça, provocando discussões bobas.  Não fazer uma crítica só pela crítica, sem de fato contribuir para o crescimento do outro. E aqui, vale um adendo: em alguns casos, essa necessidade tão grande de nos “puxar para a realidade” nada mais é do que uma estratégia que nosso amigo “pé no chão” tem de estar sempre certo, de apontar o dedo e dizer: “eu não te disse!”

Até a lua, mantém sempre uma face oculta

Amigos, por mais íntimos, não estão insentos do sentimento de superioridade e tampouco de sentir inveja. Antes de ser o confidente de todas as horas, ele é humano e como tal, está apto a querer a vida do outro se essa parecer mais interessante que a sua própria. A questão não é sentir, mas saber o que fazer com os sentimentos. A sabedoria não é apregoar aos quatro cantos a perfeição muitas vezes inexistente, mas admitir a imperfeição e buscar mudar de postura. No mínimo, avaliar se aquela crítica ou “puxada para realidade” tem a real motivação de ajudar ou é só uma forma de “punir” o outro por ele ser ou ter aquilo que nos falta.

Já os amigos “solares” tem uma vantagem em momentos de necessidade de silêncio ou naqueles de dor. Eles podem não servir para analisar a questão com você sobre todos os ângulos possíveis e nem vão te jogar verdades na cara que o farão amadurecer, tampouco são os melhores trabalhadores por uma causa e nem pense que vão segurar sua barra, dividir a responsabilidade por um projeto, doar-se sem esperar recompensa. Mas certamente, saberão elevar o seu astral. Com sorrisos, conversas frívolas, distrações, os amigos solares irão desviar o seu foco da ferida e fazer com que você relaxe. E, de maneira indireta, essa também é uma valiosa contribuição, porque quando nos afastamos de nós mesmos, quando estamos tranquilos para pensar melhor no assunto, geralmente a solução para aquela crise surge como num passe de mágica.

Amigos “pé no chão” tendem a bancar nossos pais, mesmo de forma inconsciente, porque estão eternamente preocupados com o nosso bem-estar e perguntam tantas vezes como estamos nos sentindo, que acabam nos fazendo passar mal. Interpretam qualquer sinal de cansaço, desânimo e melancolia – somos humanos e propensos a qualquer desses momentos na vida -como sinais de fraqueza ou instabilidade. Isso porque geralmente, os amigos “pé no chão” são ou buscam ser pessoas muito centradas. No entanto, é bom que eles lembrem que a instabilidade faz parte da essência humana tanto quanto a certeza. Ninguém é uma coisa só, nem a Lua, que sempre mantém uma de suas faces na sombra. Mas, temos de reconhecer, sem um bom “amigo pé no chão”, corremos o risco sério de cair na autopiedade ou de nos perdermos em ilusões que podem nos ferir mais profundamente. Além disso, ao contrário dos “solares”, esse tipo de amigo carrega o piano com você.

Ferris Bueller (na foto, à frente), o típico amigo "solar"

Os amigos que chamo de “solares” são aqueles que tem a capacidade de tornarem-se um bálsamo naquelas horas em que não queremos analisar ou decidir nada, mas apenas viver um dia de cada vez. Eles que costumam incentivar todas as nossas loucurinhas, inclusive escolhem a jaca mais madura para que a gente enfie o pé. Podem não ser úteis para apontar nossos defeitos, nos fazer crescer e assumir responsabilidades, mas nos divertem e a vida sem diversão é impraticável. Uma vez que ele leva a vida despreocupadamente, pode perder o limite tênue que separa a independência do egoísmo, ou confundir autoestima elevada com egocêntria. Ou ainda, não perceber que a hora do recreio acabou. Mas para isso, para lembrar que toda diversão tem um fim, é que existem os “amigos pé no chão”, com sua sisudez e um pouco de peso que mantém o equilíbrio do nosso senso de gravidade.

Não pretendo aqui eleger qual tipo de amizade é mais valiosa, se a “pé no chão” ou a “solar”. Tampouco estou afirmando que não existam pessoas que tenham um pouco de cada, mas essas são criaturas raras. Quero apenas mostrar – acredito nisso – que há momentos na vida em que nos inclinamos mais para um tipo do que para outro.

De qualquer modo, a única maneira que conheço de fazer com que tanto um tipo de amigo quanto o outro respeitem os seus momentos de luz ou de sombra é falar para eles, sinalizar que naquele momento, você quer mais leveza ou mais responsabilidades na relação.

Tendemos a achar que nossos amigos nos conhecem com perfeição e que por isso não precisaríamos ficar sinalizando nada. Ledo engano. Se nem nós mesmos nos conhecemos com profundidade, como um amigo, mesmo aqueles trazidos desde a infância, vão conhecer? Geralmente, eles usam  a si mesmos como parâmetro para se comportar e relacionar conosco. Todos nós fazemos isso, levamos para uma relação aquilo que temos. E o que temos de fato é a nós mesmos, nossas convicções, os aprendizados, a educação que recebemos, nosso modo de apreender o mundo, que não é – e nem deve ser – igual a dos outros, independente de ser uma amizade antiga.

Bem sei que jogar com todas as cartas na mesa às vezes é utopia, porque se para algumas pessoas a transparência é importante, para outras suscita mal-entendidos, mágoas e interpretações equivocadas. Mas na medida do possível, é preciso dizer ao outro como nos sentimos em relação às suas atitudes. Independepente do tipo de amigo que você cultive, uma coisa é certa, ele não vêm com bola de cristal.

*Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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Artigo: Feliz Ano Novo!

Em busca de um texto bacana para levar vocês à reflexão neste começo de 2011, encontrei no e-mail do blog o artigo abaixo, do escritor Célio Pezza. Espero que gostem da escolha…

Feliz Ano Novo!
*Célio Pezza

Entre os povos do nosso mundo é costume no final de ano desejar um Feliz Ano Novo, mas o que isto realmente significa? Falamos a mesma frase desde há muito tempo, mas o mundo não parece estar mais feliz a cada ano que passa. Basta seguirmos a notícias do dia a dia pelo mundo e constataremos esta triste verdade. Continuamos a ter milhões de pessoas morrendo de fome ou doentes pela falta de uma nutrição mínima adequada, milhares sem teto perambulando pelas ruas, drogados em todos os cantos do planeta, pilhas de mortos e mutilados pelas guerras, famílias desesperadas pelo fantasma do desemprego e falta de futuro digno, desastres ambientais criminosos ou naturais de todas as espécies e assim por diante. Alguns dirão: Foi sempre assim! E não estão errados, pois foi sempre assim e de acordo com minha opinião e de muitos outros observadores, está piorando a cada ano que passa.

O que está errado? Todos desejam Feliz Ano Novo, mandam cartões, trocam presentes e o novo ano piora um pouco mais no aspecto global.  Evidente, para muitos o ano melhora e tudo de bom acontece. O meu questionamento é em relação ao planeta como um todo, olhando para todas as regiões onde exista um ser humano profundamente necessitado.

O que está errado? Será que desejamos um Feliz Ano Novo, mas não fazemos nada para que ele se transforme e simplesmente ficamos assistindo o mundo desmoronar? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos a bater na mulher, filhos, e ser o mesmo “machão” estúpido de sempre? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos roubando e fazendo acertos “por baixo dos panos” e prejudicando alguém como sempre? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos comercializando drogas para um batalhão de viciados? Desejamos um Feliz Ano Novo e continuamos a ser o mesmo preconceituoso e intolerante de sempre? O que está errado?

Será que infelizmente este “Feliz Ano Novo” é somente uma frase pronta que repetimos da boca para fora, pois é de bom tom fazê-lo no final do ano? Faz parte da nossa cultura e tradição, ficar repetindo como papagaios e mandando cartões e mensagens das mais variadas formas? Será que é isto? Somos papagaios que repetem frases e na verdade nem sabemos seu significado? Para ser de verdade um ano novo feliz, precisamos uma coisa fundamental: mudarmos nós mesmos. Não nos preocuparmos em repetir frases prontas ou mandar e-mails bonitos e cheios de estrelinhas piscando ao redor de taças de champanhe e pacotes de presentes.

O Ano Novo ou Réveillon é a celebração do término de um ano e o início de outro. A palavra réveillon vem do francês réveiller que significa acordar, despertar. Vamos neste final de ano, despertar para esta triste realidade e mudar. Deixar de lado os preconceitos, as mesquinharias, o ódio, a ignorância, a maldade, a brutalidade, o desamor, o conceito de “levar vantagem” e a intolerância. Desta forma, quem sabe teremos um Feliz Ano Novo de verdade.

Feliz Despertar a todos!

*Célio Pezza é escritor (www.celiopezza.com), mas tem sua formação acadêmica em Química e Administração de Empresas. Nascido em Araraquara, interior de São Paulo, mora atualmente em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. É autor de obras em português e inglês. Para saber mais, visite também o blog do autor.

**Material enviado ao blog pela Ralcoh, assessoria do autor, e publicado mediante autorização e respeitando a autoria e citação da fonte.

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Artigo: Amuletos e talismãs

Na terça-feira, a caminho do trabalho, fui abordada por uma senhora que tentou pregar para mim. Agradeci, mas expliquei que seria mais interessante se levasse sua mensagem a outra pessoa que pudesse dar-lhe a devida atenção. Ela me agradeceu, mas antes de ir embora, olhou o escapulário de prata no meu pescoço. Me perguntou por que eu usava um “objeto de idolatria”? Respondi que sempre gostei de escapulários, da mesma forma que gosto de brincos, aneis, da beleza solene da arte sacra ou do silêncio das velhas igrejas barrocas de Salvador, quando estão vazias. Não tenho religião, mas tenho uma relação profunda com a religiosidade. Hoje, acordei pensando num artigo que recebi por email em 9 de novembro passado, há quase um mês, e que fala justamente de amuletos, talismãs e fé. Creio que se eu tivesse uma religião, seria a filosofia, o que é um paradoxo! Mas o artigo de Célio Pezza me colocou para refletir. Trouxe o texto para cá nesta quarta, dia de Nossa Senhora da Conceição, padroeira da Bahia, para vocês pensarem um pouquinho também!

Amuletos e talismãs

*Célio Pezza

Quem de nós nunca ouviu dizer algo sobre um amuleto ou um talismã? Quem de nós nunca conheceu alguém que tenha um destes objetos? Você tem um? Você acredita neles? Você sabe a diferença entre eles? Um amuleto é utilizado para afastar o mal, proteger o seu usuário e normalmente é algo natural. Já um talismã é utilizado para atrair influências boas para quem o usa e é algo preparado e consagrado dentro de uma seita qualquer.

Desde os primórdios da História, o ser humano procura se defender através do uso de amuletos e talismãs. Encontramos no homem primitivo o uso de garras, dentes e peles de animais, seguidos de pedras pontiagudas, conchas, anéis, etc.. Existiram tribos indígenas que usavam dentes ou dedos de seus inimigos para proteção ou para intimidar seus desafetos. Os egípcios, os romanos, enfim todos os povos recorriam a esta prática de proteção. Na Europa, durante a idade média, deixava-se em um local da casa um prego usado em caixão de defunto para afastar a má sorte. Ainda hoje, quantas casas não possuem uma ferradura como símbolo da boa sorte? Existem regiões da Europa em que colocam colares nos chifres das vacas para afastar os perigos. Será que dentro de nossas carteiras não existe nenhum amuleto ou talismã? Círculos, quadrados, triângulos, cruzes, estrelas, luas, números, moedas, notas antigas, dentes de animais, sementes, imagens de santos, escaravelhos, conchas e muitos outros. Pedras e metais que vão desde o latão mais barato até o ouro mais nobre são utilizados para fazer um amuleto ou talismã.

Já os animais, coitados, estes não usam amuletos ou talismãs. Quem já viu um cachorro do mato carregando um amuleto? Ou um pássaro com um pequeno colar para atrair a boa sorte? Será que tudo isto é privilégio do Homem, que com sua inteligência e pretensa supremacia sabe como criar proteções e artefatos para atrair a boa sorte? Será que o ser humano possui determinadas crenças e, por conta delas, tem medos? Esta conversa pode até derivar para questões filosóficas profundas, portanto, vamos voltar ao uso dos tais objetos.

Existem também os objetos sagrados, relíquias dos santos e mártires, etc.. Na verdade, tudo isto remete para um ponto em comum: ter fé. Se você realmente acredita que determinado objeto vai trazer boa sorte, talvez ele realmente o traga, não por ele em si, mas pela sua fé. Da mesma forma, não adianta carregar o talismã mais poderoso do planeta, se não acreditarmos na sua eficácia, ou seja, se não tivermos fé!

Muitos já ouviram dizer que “a fé remove montanhas”, mas será que remove mesmo? Quantos acreditam de verdade?  Muitos dirão que é impossível, que é um jogo de palavras, que é sentido figurado, etc. Por outro lado, talvez estes mesmos que pensam desta forma, estejam usando amuletos e talismãs neste exato momento.

Das invocações de Maria, a que mais me atrai é a Conceição, com seu panejamento barroco e o símbolo da lua crescente sob os pés

Usá-los para que? Sem fé, sem acreditar, para que servirão? Servirão somente como um adorno qualquer. Por outro lado, com bastante fé, será que precisamos de amuletos e talismãs? Estamos falando tudo isto e dando uma volta tremenda para simplesmente dizer que um dos grandes problemas do ser humano é simplesmente falta de crença e de fé! Acreditamos no próximo? Acreditamos nos nossos governantes? Acreditamos nos discursos dos candidatos a qualquer cargo eletivo? Acreditamos em todas as notícias que diariamente nos chegam pelos mais diversos meios de comunicação? Acreditamos no que vemos na televisão? O lado ruim disto tudo é que esta crise de falta de credibilidade nos conduz a uma diminuição gradativa da nossa fé. Acreditamos em pouca coisa e desconfiamos de tudo e de todos!

A nossa crença está muito abalada e as mentiras ganham terreno dia a dia. Começamos a nos acostumar com pequenas mentiras e elas vão aumentando em tamanho e quantidade. Elas se alastram como uma verdadeira praga e vão diminuindo a nossa fé.  Vamos aos poucos, perdendo esta força terrível, que talvez seja a única que pode realmente mudar o curso das coisas. Acreditamos em nós mesmos? Se nem acreditamos em nós mesmos, como resolver esta questão?

Durante o lançamento do meu primeiro livro, escrevi uma simples mensagem: “Um mundo melhor é possível!” Quantos acreditam nisto? Será uma bobagem, uma utopia, uma simples frase de efeito momentâneo sem nenhum significado? Escuto todos os dias alguém dizer que o mundo está ruim, que está pior do que no passado e que o futuro será terrível. Será certo deixar piorar e esperar pela ajuda divina? Neste caso, realmente precisaremos de algumas dezenas de amuletos e talismãs para nos proteger de nós mesmos!

Vamos acreditar que é possível um mundo melhor! Vamos trabalhar para isto! Como? Cada um de nós encontrará a sua forma. Criando uma aura de otimismo a nossa volta, fazendo pequenas ações que muitas vezes passam despercebidas e, principalmente, evitando fazer o mal a quem quer que seja! A regra é simples: se não puder fazer o bem, pelo menos não faça o mal.

Acredito que alguns leitores irão parar um instante e pensar um pouco sobre estas considerações; também pode acontecer que alguns sintam uma vontade tremenda de fazer algo para tomar parte nesta mudança. Estes terão mais fé e acharão uma forma de transformar o mundo, mesmo que seja só ao seu lado e serão mais felizes, mesmo sem usar amuletos e talismãs!

*Célio Pezza é escritor, mas tem sua formação acadêmica em Química e Administração de Empresas. Nascido em Araraquara, interior de São Paulo, mora atualmente em Veranópolis, no Rio Grande do Sul. Para saber mais, visite o site do autor: www.celiopezza.com.

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Artigo: Impaciências

A chegada do fim do ano provoca uma síndrome de correria extrema e de ansiedade quase insuportável e generalizada. Junto, vem também uma impaciência digna de TPM, mas que não afeta só as mulheres. Os homens também perdem a calma cada vez com mais frequência, principalmente nessa época do ano. Como estamos em uma semana daquelas (as blogueiras não estão em período de TPM…ainda!!), separei para outras (os) desesperadas (os) um artigo fantástico da jornalista Marli Gonçalves. Confiram, divirtam-se e reflitam. Como diz uma amiga minha, “valapena”!

P.S.: O modelo petit dando chilique na primeira foto é meu o filhote.

Impaciências

*Marli Gonçalves

O sinal ainda ia fechar, mas o pedestre já está lá no meio da rua, driblando a faixa. O sinal vai amarelando e o cara de trás já tacou a mão na buzina. Se você deixar passar o tal pedestre, ainda vai é ser muito xingado pelo tal motorista que, em geral, gesticulará muito com as mãos, talvez dedos. A fila do caixa não anda, ninguém atende a porcaria do telefone e quem ficou de ligar não liga. Você fuma, come, bebe mais do que deve e pode começar a espumar.

O elevador vem vindo, mas o coitado do botão de chamada é massacrado, como se acelerador fosse. O cara vai descer daqui a dez pontos, mas já está na porta do ônibus, empatando a saída e outras coisas. Nem bem o Metrô parou, tem invasão de gente saindo e entrando pelo mesmo lugar, a porta – e duas coisas não ocupam o mesmo lugar no espaço. Às vezes a gente nem percebe, mas já está com ela incrustada: a impaciência. Entre os sintomas, o tamborilar de dedos na mesa, o pezinho batendo ou sacudindo mais nervosamente, vontade de esganar o mundo, uma certa agonia. Se não é TPM, é impaciência.

A impaciência é uma tensão, sentimento, sensação que acomete todo mundo em algum momento; e pode ser também característica “fixa” de personalidade. Por exemplo, ao tentar olhar com alguma simpatia para a presidente eleita, vejo nela uma mulher impaciente, e brava, ríspida, que não gosta de falar duas vezes a mesma coisa.

O problema é que ultimamente isso anda quase impossível. Todo mundo sabe tudo antes de ouvir a história e não presta atenção. Ou fica tão impaciente para discordar de você que até interrompe, muitas vezes com outro assunto, um não ou pitaquito. Ninguém mais lê nada completo e é difícil manter a atenção dos interlocutores, ou dividi-la com celulares, computadores, IPODIS, IPADIS, SMSsss,entre outras traquitanas (e reclamávamos do bip!). É a azáfama moderna, adiantada pelo Lewis Carroll quando criou o coelho “tenho pressa muita pressa” em Alice.

Quando a gente está mais impaciente, repare, é quando encontra ainda mais quem tenta nos contar as coisas nos míííínimos detalhes e em ordem cronológica, torrando o saco até de quem é habitualmente calmo. Não adianta demonstrar a sua impaciência olhando no relógio, tamborilando na mesa, nem pigarreando. Não adiantará. Se tiver dois celulares dê um jeito de ligar para você mesmo.

A impaciência nos acomete em variadas situações, em geral desagradáveis. Com fome, no restaurante. Com sede, no bar. Com pressa, no trânsito. Dizem os dicionários que significa falta de paciência, incapacidade de suportar algo ou alguém, de se constranger ou esperar. Falam em pressa e desespero, também. E em sofreguidão, mas com este termo não concordo. Tendo a achar a palavra mais adequada ao fazer coisas bem gostosas, realmente sôfregas.

Especialistas explicam que a falta de tempo, a competitividade e o individualismo são as principais causas da falta de tolerância e impaciência. Pesquisadores de uma universidade americana publicaram recentemente os resultados de uma pesquisa sobre as consequências da impaciência para a saúde das pessoas. As impacientes sofreriam mais com problemas de hipertensão e teriam mais probabilidades de contrair doenças cardíacas. Surpresa! Portanto, todos nós, hein, estamos sujeitos a puff!

O grau de impaciência foi avaliado com algumas perguntas: Você se aborrece quando tem de esperar? Você come depressa? Costuma sentir-se pressionado no fim de um dia normal de trabalho? Sente-se pressionado pelo tempo? Assim, descobriram o Brasil.

Outros andaram descobrindo também que fast food torna as pessoas mais impacientes. Para os pesquisadores, a exposição diária às redes de fast food pode ter um efeito subliminar sobre o comportamento, fazendo com que as pessoas fiquem mais apressadas nas atividades diárias, independentemente de serem – ou não – pressionadas pelo tempo e pela agenda. Contamos para eles a impaciência dos cachorros quando nos vêem com a coleira nas mãos? Contamos para eles que somos impacientes até quando vamos ao banheiro? Ou sobre nossa impaciência ao ver que parceiros, ou filhos, não mudarão, nem com o tempo? Vai negar?

Melhor, por que não detonamos logo o sistema que nos deixa assim? Nas terapias florais existe um remédio, um dos Florais de Bach, chamado Impatiens (extraído da flor Impatiens Gladulifera). Sabe qual flor é? Aquela que aqui chamamos de Maria Sem-Vergonha que nasce em qualquer canteiro, impaciente como ela só.

Diz um provérbio chinês: “Um momento de paciência pode evitar um grande desastre; um momento de impaciência pode arruinar toda uma vida”. Disse Napoleão: “A impaciência é um grande obstáculo para o bom êxito”. Para Saramago, “à paciência divina teremos que contrapor a impaciência humana. Para mudar as coisas, a única forma é ser impaciente”. Já a Bíblia afirma que a impaciência é uma manifestação de incredulidade e desconfiança, com o profeta Isaías apresentando quatro atitudes geradas pela impaciência: a impaciência leva-nos a substituir os planos de Deus pelos nossos; a impaciência nos conduz a fazer coisas proibidas por Deus; a impaciência gera frustrações e decepções; a impaciência produz a rejeição do tempo ou do momento certo de Deus.

Sei lá. Sede de viver. Medo de morrer antes de ter feito. Pressa por resultados, muitos dos quais, inclusive, nem interessam. Vontade de ser campeão, o melhor, o maioral. De ter a certeza de estar certo. De saber se vai conseguir. Sei só que estamos todos contaminados. A impaciência é mesmo imprevisível. Mas pode ser também advertência, abstinência, preferência, providência, previdência, imprudência, turbulência, suficiência, resistência, incoerência.

*Marli Gonçalves é jornalista e consultora de comunicação. Ela adora trocar uma ideia com novos amigos e é generosa para compartilhar seus textos, desde que a fonte original seja devidamente citada e a integridade do material respeitada. Para seguir a Marli no Twitter: www.twitter.com/MarliGo; para acessar esse e outros artigos dela na fonte original: www.brickmann.com.br ou no blog pessoal: marligo.wordpress.com. E ela também recebe emails em: marli@brickmann.com.br e marligo@uol.com.br.

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