As quintanices do poeta Mário

quintana-2Em maio próximo completam-se 15 anos que o poeta gaúcho Mário Quintana dava adeus a esse mundo e ia flanar pelos ares com seus “aeroanjos”. Um poetinha tão delicado, de versos aparentemente simples, mas que foi capaz de inventar um novo verbo. Cada vez que alguém pensa ou até arrisca versejar sobre o miudinho da vida cotidiana, “a obsessão do mar oceano”, os arroios, que “são rios guris”, os “degraus de sonho” que descemos ou subimos por esta vida, está quintaneando. Quintanear virou sinônimo de filosofar entre os seus leitores mais ávidos.

Conversa de Menina convida vocês a quintanear nos belos versinhos do poeta:

DA OBSERVAÇÃO
Não te irrites, por mais que te fizerem…
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio…

DOS MUNDOS
Deus criou este mundo. O homem, todavia,
Entrou a desconfiar, cogitabundo…
Decerto não gostou lá muito do que via…
E foi logo inventando o outro mundo.

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis… ora!
Não é motivo para não querê-las…
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!

DOS MILAGRES
O milagre não é dar vida ao corpo extinto,
Ou luz ao cego, ou eloqüência ao mudo…
Nem mudar água pura em vinho tinto…
Milagre é acreditarem nisso tudo!

DO AMOROSO ESQUECIMENTO
Eu, agora – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

DA DISCRIÇÃO
Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também…

mario-quintana_blogO AUTO-RETRATO
No retrato que me faço
– traço a traço –
às vezes me pinto nuvem,
às vezes me pinto árvore…
às vezes me pinto coisas
de que nem há mais lembrança…
ou coisas que não existem
mas que um dia existirão…
e, desta lida, em que busco
– pouco a pouco –
minha eterna semelhança,
no final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!

>>Para saber quem foi Mário Quintana

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Por que falar de Neruda?

Em Puerto Varas, no Chile, um grupo de turistas aguardava ansioso o início do circuito do Cruce Andino, um passeio com destino a Bariloche (Argentina), em um percurso que alterna trechos terrestres e outros por embarcações, cruzando os lagos andinos. Na fila, dois brasileiros conversam sobre turismo, viagens e afins, quando um deles retruca ao comentário do outro com um espantoso “Eu não sei quem foi Pablo Neruda”.

Pablo Neruda 2Embora eu aceite a ideia de que ninguém tem obrigação de conhecer todas as personalidades do universo, que temos o direito de ser ignorantes em uma série de assuntos, admito que fiquei chocada ao ouvir a história. Afinal de contas nós estávamos no Chile, a terra natal do brilhante poeta que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1971 e  inclusive foi cônsul de seu País na Espanha e no México. É a razão de eu estar falando de Neruda aqui. Porque, sim, ele merece ser assunto.

Claro que abaixo estão apenas algumas poucas informações sobre ele. É uma dose inicial, pra fazer nascer a curiosidade de pesquisar mais e mais, de ler sobre ele, de ler suas obras. Eu não tenho a menor dúvida do quanto será recompensador. Não há como se arrepender ao ler Neruda.

Ah, o mar – Neruda era um escritor apaixonado pelo mar. As águas do Pacífico lhe encantavam. Seu profundo amor pela imensidão azul inspirou a arquitetura de suas três casas, todas construídas no Chile, em Isla Negra, Santiago e Valparaíso. Seu fascínio, porém, era aliado ao medo das águas. E foi isso que o motivou a traduzir em suas moradas a estrutura de um grande barco. Se temia vagar pelos oceanos, trouxe-o para perto de si, através das suas construções, cercadas pelas águas.

Os assoalhos cobrem o chão. Ao serem tocado pelos pés, aceleram a sensação de que, realmente, seria possível estar em uma embarcação em alto mar. A beleza da poesia de Neruda está traduzida também ali, em cada estrutura que pensou para acomodar a sua vida, na qual coube três mulheres.

Neruda e MatildeMatilde, meu amor –  O grande amor foi Matilde, com quem manteve um tórrido romance enquanto ainda estava casado com Delia de Carril, a segunda esposa, vinte anos mais velha. Foi para esconder Matilde e dividir com ela os momentos de paixão que construiu a casa de Santiago, batizada de “La Chascona”.

E quando finalmente se separou da segunda esposa e assumiu publicamente a relação com Matilde, colocou em andamento o projeto da Sebastiana, a residência de Valparaíso. Lá em uma das estantes, uma frase nos traduz o quanto ele amava o mar. Não me recordo exatamente o trecho, mas posso tentar expressar o seu sentido: “de tão imenso o oceano, não houve onde colocá-lo, então colocaram-no defronte de minha janela”. É a visão da janela da casa de Neruda em Valparaíso. O oceano.  

Brilhantismo da caneta – Mas poesia mesmo Neruda fazia com a ponta da caneta. Os seus escritos têm uma sensibilidade singular. Alguns poucos sabem, mas o nome Pablo Neruda nasceu como um pseudônimo. Na certidão de nascimento, constava Neftalí Ricardo Reyes Basoalto. Por uma necessidade de sua vida política, acabou adotando oficialmente o nome Pablo Neruda, com direito ao registro legal da mudança. Era como ele era conhecido. E seria mais estratégico divulgar este nome em sua campanha.

Pablo Neruda 3As suas poesias sofreram influências várias ao longo do tempo. O começo de seu trabalho literário é mais voltado ao romantismo extremo, muito próximo do que escrevia o poeta norte-americano Walt Whitman. Daí, ele passa por uma fase mais surrealista, com traços da literatura de André Breton. Também passou por experiências literárias mais herméticas. Ele difundiu os problemas Espanha de 1936 e a condição dos povos latino-americanos e seus movimentos libertários.

Ele era um revolucionário. Um militante comunista, ícone da esquerda latino-americana, seguidor dos ideais de Carl Marx. Na sua roda de amigos estavam personalidades renomadas como García Lorca e Miguel Hernández. Suas casas são repletas de obras de arte, a grande maioria delas cedidas pelos amigos. Dentre eles, Pablo Picasso. Era amigo pessoal de Salvador Allende, para quem cedeu a presidência do Chile quando foi indicado ao cargo. Agora é só ler mais e mais. O caminho por onde começar segue logo abaixo.

Livros de Neruda para se aprofundar

Capa do livro Confesso que ViviConfesso que Vivi (Neruda)– é uma autobiografia, único livro de Neruda escrito em prosa. Conta sua trajetória de vida desde a infância, até a morte de Salvador Allende, assassinado pelas tropas de Pinochet. Veja a cotação de preços e compre o livro.

Capa do Livro MInha Vida com Pablo NerudaMinha Vida com Pablo Neruda (Matilde Urrutia) – Uma obra comovente em que o grande amor do poeta chileno retrata os anos de convivência. Veja a cotação de preços e compre o livro.

E MAIS:
*Vinte poemas de amor e uma canção desesperada
*Livro das perguntas (também para a criançada)
*Presente de um poeta
*Prólogos
*Cadernos de Temuco
*E todos os outros que você encontrar na livraria!!!!

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Receita de Mulher – Vinicius de Moraes

Vou abrir um espaço para atender ao pedido de um casal de amigos. Os dois queriam ver no blog, um poema que marcou o início do relacionamento deles. Entre paquera, namoro, noivado e casamento, são 20 anos juntos. Se conheceram no final da adolescência, caminham lado a lado rumo aos 40. Brigam? Claro que brigam, todo casal briga. Mas sabem reconciliar interesses, afinar vontades, aparar arestas, respeitar individualidades. Por isso, a receita deles dá tão certo quanto essa Receita de Mulher de Vinicius. Em homenagem ao casamento feliz e possível dos meus amigos, um poema que descreve mulheres reais, mas ainda assim, com aquele toque de sonho que só o poetinha consegue dar.

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Leia também:
>> Vinicius de Moraes, o poeta
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Receita de mulher

vinicius-de-moraesAs muito feias que me perdoem
Mas beleza é fundamental. É preciso
Que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture
Em tudo isso (ou então
Que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República [Popular Chinesa).
Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.
É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche
No olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso
Que tudo seja belo e inesperado. É preciso que umas pálpebras cerradas
Lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços
Alguma coisa além da carne: que se os toque
Como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-e dizer-vos
Que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro
Seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e
Seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem
Com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então
Nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca
Fresca (nunca úmida!) e também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos
Despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas
No enlaçar de uma cintura semovente.
Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem [saboneteiras
É como um rio sem pontes. Indispensável
Que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida
A mulher se alteie em cálice, e que seus seios
Sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca
E possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas.
Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral
Levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal!
Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de [coxas
E que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima [penugem
No entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio
Apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!)
Preferíveis sem dúvida os pescoços longos
De forma que a cabeça dê por vezes a impressão
De nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre
Flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos
Discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face
Mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca [inferior
A 37° centígrados podendo eventualmente provocar queimaduras
Do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes
E de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e
Que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão
Que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta
Ou, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos
Ao abri-los ela não mais estará presente
Com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá
E que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer [beber
O fel da dúvida. Oh, sobretudo
Que ele não perca nunca, não importa em que mundo
Não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade
De pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma
Transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre
O impossível perfume; e destile sempre
O embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto
Da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina
Do efêmero; e em sua incalculável imperfeição
Constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável.

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Justa homenagem à Zélia Gattai

A editora Companhia das Letras vai relançar a obra completa da escritora Zélia Gattai, falecida em maio do ano passado. Paulista de nascimento, esposa do escritor baiano Jorge Amado, Zélia “abaianou” depois de mais de 50 anos ao lado do autor. Ela começou a escrever na maturidade, primeiro, lembrando a história dos seus pais, depois, reunindo as deliciosas crônicas do cotidiano da família Amado. Quem não riu muito com as aventuras dos Gattai em Anarquistas Graças a Deus, que até virou minissérie? E quem não viveu a aflição dos imigrantes italianos atravessando o Atlântico em Cittá Di Roma? Zélia, que escreveu também Crônica de Uma Namorada, seu primeiro livro de ficção, tem um estilo delicioso, de uma tia muito querida ou uma delicada avó contando suas memórias mais caras. Outro livro da autora, Chão de Meninos, é ambientado na infância dos filhos. Além de usar experiências pessoais e de amigos como fonte de inspiração, Zélia Gattai buscou no dia-a-dia do brasileiro, na Bahia, no Rio de Janeiro, ou na São Paulo da sua infância, elementos para deixar um legado que se constitui em verdadeiro registro histórico do cotidiano miudinho, geralmente aquele que os historiadores relegam. Nos seus escritos, há espaço também para recordar os memoráveis encontros de Jorge Amado com artistas e pensadores como o filósofo francês Jean Paul Sartre. Zélia faz parte daquele ramo de autores que se dedica ao memorialismo, ao registro de um passado nem tão remoto, mas bastante pitoresco. Confira a sinopse dos livros da autora, atualmente disponíveis em edições da Record:

anarquistasAnarquistas, graças a Deus, 1979 – Resgata memórias da infância de Zélia, caçula de cinco irmãos. A autora passou a infância na Alameda Santos, no bairro Paraíso em São Paulo. Ernesto Gattai, seu pai, tinha mania de inventor e vivia fazendo experiências, principalmente com motores de veículos. Dona Angelina, a mãe, adorava ópera. Impagável a sequência em que Zélia conta que quebrou um dos discos preferidos de sua mãe quando era criança.

um-chapeuUm chapéu para viagem, 1982 – Este livro traz as memórias da escritora entre 1945 e 1948, quando conheceu Jorge Amado e a família do autor baiano. Os dois se conheceram durante um movimento para a libertação de presos políticos.

Passáros noturnos do abaeté, 1983 – Este livro, lançado pela editora Macunaíma, de Salvador, reúne desenhos do artista plástico Calasans Neto e texto de Zélia.

senhora-donaSenhora Dona do baile, 1984 – Resgata o período em que Jorge Amado e Zélia viveram exilados na Europa, em 1948. Os dois tiveram de sair do país porque o partido Comunista, do qual eram membros, foi considerado ilegal. Eles moraram em Paris e na atual República Tcheca, que na época ainda era Tchecoslováquia.

reportagemReportagem Incompleta, 1987 – Em todos os momentos da família Amado, lá estava Zélia com sua rolleyflex, registrando tudo. As fotos viraram este livro, que teve até edição trilíngüe: português, inglês e francês.

jardimJardim de Inverno, 1988 – Novo registro da escritora sobre o período em que viveu com Jorge Amado na França, Tchecoslováquia e Rússia, complementa as memórias iniciadas com Senhora Dona do baile.

pipistreloPipistrelo das mil cores, 1989 – Estréia de Zélia na literatura infanto-juvenil, é todo narrado em versos e fala sobre as consequências da destruição ambiental para os seres humanos.

segredoO segredo da rua 18, 1991 – Nesta nova aventura infanto-juvenil da cronista, ela conta a história de um grupo de crianças que vivem diversas situações engraçadas e estranhas em busca do tesouro do pirata Gancho de Ouro.

chaoChão de meninos, 1992 – Crônicas da família Amado que resgatam a infância dos filhos de Zélia e Jorge. Foi lançado no ano em que Jorge Amado fez 80 anos. O texto é leve, alto-astral e contagiante, quase dá para se sentir parte da família.

cronicaCrônica de uma namorada, 1995 – Através da primeira experiência amorosa de uma adolescente, contada com muita graça e leveza por Zélia, ficamos sabendo como era a vida das meninas nos anos 50, suas expectativas, seus sonhos e as cobranças sociais. Jorge Amado escreveu o prefácio e foi o principal incentivador para que Zélia entrasse no ramo da ficção.

casaA casa do Rio Vermelho, 1999 – Nestas crônicas, Zélia coloca sua casa e a de Jorge Amado, no bairro boêmio do Rio Vermelho, em Salvador, como protagonista das histórias vividas pela família. O livro celebra a amizade, pois traz histórias deliciosas dos encontros ocorridos sob as mangueiras da antiga casa.

cittaCittá di Roma, 2000 – Neste livro, Zélia mergulha fundo nas memórias de sua família e conta a história da imigração dos italianos para o Brasil, no final do século XIX, através da viagem que seus avós, os pais de Ernesto Gattai e Angelina Dacol, fizeram no navio Cittá Di Roma.

jonasJonas e a sereia, 2000 – Outra obra infanto-juvenil da escritora, que reinventa o mito das sereias e conta uma história de amor improvável, mas perfeitamente possível no mundo da literatura, a paixão entre um homem e uma sereia.

codigosCódigos de família, 2001 – Quem não gostaria de saber o que se passa entre os membros de uma família famosa? Seus casos, as piadas, apelidos, os micos que pagaram? Pois é o que Zélia divide com os leitores em mais um volume das suas deliciosas memórias.

baianoUm baiano romântico e sensual, 2002 – O último livro publicado por Zélia Gattai foi escrito por ela e pelos filhos como uma homenagem a Jorge Amado, morto em 2001. Reúne três relatos, um de Zélia, um de João Jorge e um de Paloma.

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Livros para entender política e poder

Nãs se contente em ouvir o que te contam sobre poder. Há muito o que aprender, há muito o que pesquisar, porque há muito o que mudar em nossa sociedade. E, particularmente, não consigo conceber qualquer tipo de mudança sem que haja uma consciência coletiva. Aliás, há uma outra opção, claro. Derramar sangue. Para mim, são as duas formas de mudar a ordem: ou a gente vai se munir de informações e conhecimento e através deles buscar reconstruir esse mundo, ou vamos à luta, de mãos armadas, tirar a vida dos adversários.

Um dia, eu quis participar de um destes grupos revolucionários. Confesso que acreditava que a única forma de transformar nossa sociedade seria por meio da luta armada, do derramamento de sangue. Com o tempo, percebi que nenhuma nova ordem vai agradar a todos. E se pensarmos em reconstrução do sistema por meio da guerra, nunca sairemos dela. Afinal, sempre haverá aquele grupo descontente disposto a empenhar suas armas em prol do que considera uma sociedade justa. Por isso, desisti das armas.

Optei pelo conhecimento, por esgotar as ferramentas que estão às minhas mãos, os livros. Um dia, ouvi de alguém que os livros eram caros, inacessíveis a todos… Mas gente, vocês já pararam para checar quantas bibliotecas públicas há em sua cidade? Quais os volumes disponíveis nestes locais? Já visitou a biblioteca particular daquele amigo que gosta tanto de ler? Já foi às livrarias que te permitem sentar confortavelmente e degustar, ali mesmo, aquele mundo de linhas? Pois é. Acho que há uma questão pontual aqui, e se chama interesse.

O blá, blá, blá anterior é apenas para introduzir algumas sugestões de leitura que acho importantes para quem pretende compreender como funciona a estrutura do poder em nossa sociedade. São apenas algumas indicações e ficarei bastante contente se alguém tiver mais volumes a acrescentar. E vale ressaltar que nenhuma leitura deve ser feita como se se tratasse de uma verdade incontestável. Aqui são apenas algumas propostas de leitura, que levarão vocês a tantas outras, à formação de um posicionamento crítico sobre elas.

E, mais uma vez, reforço. Evoluímos muito socialmente, mas ainda temos problemas incontáveis a resolver. Portanto, mãos os livros. Talvez se compreendermos a formação de nossa sociedade possamos descobrir novos instrumentos de luta.

AOS LIVROS

Braviário dos PoliticosBreviário dos Políticos (Cardeal Mazarin) – A que meios deve um indivíduo recorrer para ampliar ou preservar seu poder? É o que tenta responder Jules Mazarin, chefe de governo da França no século XVII. Basta dizer que o cardeal era qualificado como um homem vil, desprezível, covarde, desonrado, mentiroso… No livro, ele traz uma série de conselhos para que alguém possa chegar ao poder. E esse alguém, ao contrário do Príncipe de Maquiavel (leia também!), pode ser você, por exemplo. Porque as observações de Mazarin são destinadas a qualquer um, que deve exercer o poder sem violência. O poder brota dos relacionamentos e, portanto, cada indivíduo pode, dentro da sua esfera de relacionamentos, exercer a sua parcela de poder. A partir da leitura do livro, você vai acabar identificando uma série de perfis de pessoas que convivem ao seu redor.

A Arte da GuerraA Arte da Guerra (Sun Tzu) – Qual é o verdadeiro objetivo da guerra? Para Sun Tzu, um general chinês que viveu há cerca de 500 anos antes de Cristo, é a paz. Para mim, toda guerra traz disfarçado o objetivo de conquistar o poder. Foi esse general quem escreveu este livro, que se transformou em um manual de estratégia militar. São treze capítulos, com inúmeras dicas sobre como vencer uma batalha. Em sua filosofia, fica clara a sua predileção pela vitória sem luta. Ele defende, inclusive, que é preciso tornar o conflito desnecessário. Mas, sendo necessária a luta, que o indivíduo ou a nação entre nela para vencer. E ele vai ensinar como. Não foi à toa que o general norte-americano H. Norman usou técnicas de guerra de Sun Tzu na Guerra do Golfo. As dicas do general, assim como tem acontecido com o livro de Maquiavel, têm sido adaptadas para as relações pessoais, profissionais e comerciais.

Do contrato SocialDo Contrato Social (Jean-Jacques Rousseau) – Rousseau é dos pensadores que mais defendeu a liberdade, considerando-a “direito inalienável e exigência essencial da própria natureza espiritual do homem”. Este livro é considerado uma das obras primas do filósofo suíço. Antecessor de Rousseau, John Locke acreditava que o homem podia ser privado da liberdade, desde que fosse por sua vontade. Deveria, então, haver seu consentimento. Rousseau vem para rebater esta teoria, defendendo que a liberdade é um bem irrenunciável, porque inerente à condição humana. Neste contexto, ele propõe a criação de um contrato social, que seria a base da realização da vontade comum. Imagine os indivíduos, de comum acordo, decidirem formar um tipo de sociedade específica, com a vontade social dirigida ao bem comum, à qual prometem prestar obediência? É o que propõe o contrato social.

A PoliticaA Política (Aristóteles) – Todo mundo já ouviu falar de Aristóteles, mas tenho certeza de que poucas pessoas de fato leram alguma coisa escrita por ele. Aliás, este filósofo grego escreveu sobre quase tudo: física, psicologia, biologia, metafísica, ética, direito, poética… e política. Neste livro, o pensador analisa o Estado existente como se fosse o único possível. Assim, sai na defesa da escravidão. Para ele, a sociedade escravocrata era mais que necessária, era fundamental. “Ora, se um homem pertence a outro, é uma coisa possuída, mesmo sendo homem. E uma coisa possuída é um instrumento de uso”, dizia ele. O discípulo mais ilustre de Platão, e que em muito contrariava suas idéias (é só ler A República, de Platão, para compreender o que estou dizendo)  diferenciou a política (doutrina moral social) da ética (doutrina moral individual). Para ele, a política era a ciência da felicidade humana.

Microfisica do PoderMicrofísifca do Poder (Michel Foucault) – Para este pensador contemporâneo, o poder é uma relação de forças, presente em todas as esferas sociais. Ele é exercido, praticado e não um bem que pode ser fruto de apropriação. É dele a frase “toda forma de saber produz poder”. No livro, ele cita uma frase de Nietzsche, muito apropriada para o seu estudo: “o bom não é o contrapeso das forças entre o mais forte e o mais fraco, mas sim a cena desse enfrentamento”. O livro ajuda a compreender as novas formas de poder, que deixam de basear-se na força e na legitimação religiosa. Hoje, sua materialização é identificada nas diversas formas de disciplina, não havendo, portanto, uma única forma de manifestação. Ele fala do poder que emana nos bastidores da sociedade, do poder que impõe uma barreira ao saber das massas, do poder dissimulado que está por trás das prisões, do poder como meio de dominação. Pra complementar, leiam também “Vigiar e Punir”, do mesmo autor.

A Armadilha da GlobalizaçãoA Armadilha da Globalização (Hans-Pete Martin e Harald Schumann) – Quem ganha e quem perde com a globalização? Em uma avaliação realizada por líderes mundiais durante reunião promovida pela Fundação Gorbachev em 1995, concluiu-se que, no século XXI, será necessária apenas 20% da força de trabalho para fazer girar a economia. Você imagina como viverá os 80% restantes da população? O livro discute os rumos da globalização, o problema da internacionalização descontrolada dos mercados, dentre outros temas. O Brasil está nas páginas do volume, trazido à tona pela dupla de jornalistas como um exemplo do quadro desigual composto de ricos confinados em guetos e de massas pobres lutando pela sobrevivência. Será que é no que nos transformaremos? O livro traz também alternativas, em busca da salvação da política (que hoje vive à mercê da economia) e da restauração da democracia.

estadomodernoUm Ensaio Sobre o Estado Moderno (Christopher W. Morris) – O autor é professor de filosofia de uma universidade norte-americana. É uma publicação bem recente, de 2005, que faz um estudo sobre os formatos dos Estados modernos. O Estado é a melhor organização social? Ele deveria existir? O livro traz uma discussão sobre as justificativas determinantes para estes Estados, é um exame filosófico sobre o tema. Traz também alternativas de organizações políticas e suas formas de legitimação. O texto mostra o fracasso dos Estados em correspondência à imagem que fazem de si. É uma leitura que nos ajuda a compreender esse modelo de organização social e política em que vivemos, que nasceu lá na Europa (França e Inglaterra) e contaminou o mundo.

 

Claro que existem centenas de outros livros importantes sobre o assunto. Mas aqui, pelo menos, já serve como pontapé inicial à nova visão de mundo que você quer desenvolver. E boa leitura!

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Leia tabém:
>> Livros que todo adulto precisa ler
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Cinderela boazinha?!

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*Texto da jornalista Andreia Santana

E por falar em histórias infantis que adultos devem ler e histórias escritas originalmente para adultos, mas que viraram clássicos para crianças, lembrei da Cinderela. Divido com vocês o pouco que pesquisei e o que aprendi com a minha irmã.

Esqueçam a fada madrinha. Também não tem carruagem de abóbora e ratinhos que se transformam em cavalos brancos de crina esvoaçante. Animais cantando e tudo mais, só no desenho da Disney. A Cinderela dos Irmãos Grimm, – a história, de origem popular, também tem uma versão de Charles Perrault -, não era mocinha chorona, esperando o milagre cair do céu. Que nada, a heroina original fez o próprio destino, usando um galho de árvore. Confiram neste trecho da obra:

Um dia, quando já está sofrendo com sua madrasta e suas irmãs, ela pede para o pai trazer um galho de árvore. Ela planta este galho de árvore no túmulo de sua mãe e o galho se transforma numa árvore. Cinderela vai todos os dias rezar no túmulo da mãe e aparece um pássaro branco que atende seus pedidos. Quando aparece a oportunidade do baile, Cinderela diz para as irmãs que quer ir… e as irmãs, de maldade, despejaram uma bacia de lentilhas no meio das cinzas do borralho (algo assim como uma lareira) e disseram que ela tinha que juntar todos os grãos. Ela pede ajuda para as pombinhas e aves do céu, que ajudam a Cinderela. Quando a madrasta e as irmãs saem para ir ao baile, a Cinderela vai até o túmulo da mãe, sacode a árvore e lá o pássaro branco joga um vestido lindo e um par de sapatinhos. Ela vai ao baile três vezes, faz o maior sucesso, mas sempre foge para o príncipe não descobrir onde ela mora. Mas na terceira noite, o príncipe joga piche (um tipo de cola) na escada e ela perde um sapatinho, que fica grudado no piche. Quando o príncipe foi procurar a moça cujo pé coubesse no sapatinho, a primeira irmã da Cinderela corta o dedão para caber no sapatinho… mas logo começa a cair sangue do sapato e ela é desmascarada. A segunda corta um pedaço do calcanhar, mas o sapato também começa a sangrar… e o príncipe devolve a moça. Finalmente, se descobre que é a Cinderela a dona do sapatinho.

O final da versão de Cinderela dos Irmãos Grimm também é violento:

No casamento da Cinderela, as pombas que a ajudaram, furam os olhos das irmãs que ficam cegas!

Geralmente, não se conhece esta versão, porque por muito tempo se julgou que continha elementos muito violentos e agressivos para serem contados às crianças.

OUTRAS CURIOSIDADES SOBRE A CINDERELA:

• Charles Perrault era uma figura literária menor na França do século 18. Em 1767 ele publicou Contes de la Mère l´Oie (Contos da Mamãe Ganso), que re-apresentava diversos contos populares como “A Bela Adormecida”, “Chapeuzinho Vermelho” e “Cinderela”. Na história colhida por ele, o rei sentenciou a madrasta e suas filhas a dançarem até a morte usando botas de ferro ferventes (uma forma de tortura popular na Idade Média).

• Existem cerca de 3000 versões do mito de Cinderela. Quase toda cultura ao redor do mundo tem uma: ela é conhecida como “Ye Shen” na China, “Tattercoats” na Inglaterra, “Mareouckla” para os eslavos e Gata Borralheira, no Brasil.

*Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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