O amor eterno de José e Pilar

*Texto da jornalista Giovanna Castro

Alguém aí sabe me dizer o que é o amor? Ontem à noite fui a mais uma sessão de cinema interessante. Desta vez ví José e Pilar, o filme-documentário de Miguel Gonçalves Mendes que apresenta um pouco do dia a dia do casal José Saramago e Pilar del Río, sua mulher por mais de 20 anos. Gosto muito dos escritos de Saramago, apesar de não ser especialista no autor, e me surpreendi ao ver o cotidiano de um ídolo da literatura.

O filme mostra o homem político que ele foi – prêmio Nobel de Literatura de 1998, falecido em junho deste ano (leia o que a menina Andreia escreveu sobre o ídolo) – no sentido de agir politicamente como cidadão, que ele mesmo diz no filme que é uma das funções do escritor, “influenciar” como cidadão, e a sua descrença em Deus.

Além de mostrá-lo como homem apaixonado o que, em se tratando de ídolos, parece sempre muito instigante. Como um homem tão brilhante pode dedicar-se às letras e com a mesma intensidade ao amor de uma mulher? É bem provável, como se percebe rapidamente no filme, que a força da sua verve vem justamente da paixão por Pilar, assim como da paixão pelas letras, pelas tramas e pela vida.

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José Saramago diz que ele e Pilar del Río continuarão juntos de alguma forma já que as suas cinzas seriam depositadas sob uma pedra no jardim da casa de Lanzarote, nas Ilhas Canárias

O filme, que começa no ano de 2006, soa quase como uma despedida, uma vez que repetidamente Saramago fala da morte e a diferença entre a vida e o que podemos chamar de pós-vida, que o autor chama de “estar e o já não estar”. Apresenta uma história de amor real, do cotidiano, que tem muito carinho, afeição e admiração mútua, mas também não deixa de ter seus arranca-rabos. Pilar e Saramago se amam de uma forma muito companheira, se tocam o tempo todo.

Ela atua mesmo como um suporte – inevitável aqui usar o termo “pilar” da vida do homem que escolheu para si e de quem sempre foi fã. É a ela que ele chama a todo momento quando precisa de qualquer coisa ou até mesmo para contar uma piada, dividir histórias ou apenas tocar sua mão. Uma história de amor que nem parece real de tão pura, pureza que salta aos olhos.

Pilar não é uma mulher qualquer. É uma jornalista de personalidade forte e atuante quanto aos assuntos do seu país, a Espanha. Muito ágil e decidida, Pilar tomou conta da vida de Saramago e passou a organizar todas as suas coisas desde as mais comezinhas até sua extensa e cansativa agenda de viagens que culminou, em 2007, com algumas semanas de internação que deixaram o autor debilitado. Aquilo jamais se repetiria, decidiu Pilar, que determinou que o ritmo intenso de voos só voltaria por cima do seu cadáver.

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Filme José e Pilar é co-produzido pela O2 Filmes, do cineasta brasileiro Fernando Meirelles, que filmou a versão de Ensaio sobre a cegueira

Em uma entrevista à imprensa portuguesa, um repórter hesitante pergunta a Pilar sobre o fato dos portugueses se sentirem um tanto ressentidos por ela ter “tirado Saramago de Portugal”. No que ela prontamente responde: “Não, isso quem fez foi o governo de Cavaco Silva! Próxima pergunta?”. Sua força também é direcionada ao marido, quando ambos discutem fervorosamente sobre Hillary Clinton, então candidata preferida dela, e Barack Obama, apoiado desde o começo por Saramago.

Na verdade, é impossível perscrutar um amor, e creio que não há resposta para a pergunta que eu mesma sugeri no começo do texto. A história daqueles dois parece ter sido uma ação mesmo do destino, uma combinação de fatores daqueles bem complexos que não dá para explicar. José e Pilar se amam na vida e nas letras. Ela, que traduzia os livros dele para o espanhol, se esforçava para dar conta do seu trabalho logo depois do marido fazê-lo em português.

E era extremamente leal, se negando a responder questionamentos de repórteres sobre detalhes do novo livro do autor, na época em que foi feito o filme, A Viagem do Elefante. O filme é todo emoção em que uma mulher decide com força descomunal proteger seu homem e ele retribui com uma devoção tocante.

É como se a cada oportunidade – e Saramago fazia questão de declarar seu amor pela mulher em eventos públicos, como no lançamento mundial de A Viagem do Elefante, que aconteceu em São Paulo (2008) – ele reafirmasse o seu sentimento, eternizado na dedicatória de Pequenas Memórias (2006) “aquela que ainda não tinha nascido e tanto tardou a chegar”. Mais interessante ainda quando o gênio das letras diz duas frases e chama a mulher para conferir a beleza do seu pensamento.

“Olha que coisa linda que acabei de dizer, Pilar: eu tenho ideias para romances e você tem ideias para a vida. O que é mais importante?”. “Eu não sei, mas acho que são ideias para a vida”, diz ela, arrancando risadas de todos os presentes. Uma pequena pista para o mistério que uniu os dois até o fim e no pedido feito pelo autor em vida quando a mulher pergunta o que fazer com a Fundação José Saramago, da qual tornou-se presidenta (como fazia questão de ser chamada): “Continua-me”.

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Filme acompanha o casal e registra momentos da vida de Saramago entre 2005 e 2008 em Portugal, Itália, Brasil e outros países

P-S – Vale observar a cena em que Saramago assiste Ensaio sobre a Cegueira (Blindness), adaptação do brasileiro Fernando Meirelles para o livro homônimo. Ao lado de Pilar e de Meirelles, o autor se emociona bastante e diz estar muito feliz pois o filme havia saído exatamente do jeito que ele imaginou a história que colocou no papel. Impossível não se emocionar também.

Veja o trailer do filme José e Pilar, em cartaz em Salvador, no Espaço Unibanco de Cinema – Glauber Rocha

Um comentário em “O amor eterno de José e Pilar

  1. Saramago é um silencioso revolucionário das palavras. Com elas ele produz o amor, a vida e a morte como se não houvesse distinção entre tais. Como não há.
    Parabéns pela matéria meninas.
    Um abraço cordial.
    Mauricio A Costa
    Autor de O MENTOR VIRTUAL.

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