Livro conta história do vestuário do Egito ao século XIX

Quem nunca ficou curiosa em saber porque as mulheres no século XVIII usavam armações de arame por baixo das longas saias? E o corpete? Que tortura! E a roupa da Cleópatra, como era? E no dia-a-dia, os egípcios se vestiam como aparecem nos filmes épicos? E o cumprimento das saias, diminuiu, aumentou, diminuiu de novo…De tanto ler referências às roupas e calçados na literatura e em obras acadêmicas, percebi que a história da moda é fascinante a ponto de revelar, através do vestuário, traços da cultura e da evolução humana. Não é à toa que os autores de ficção detalham peças da indumentária como uma forma de revelar algo mais sobre a personalidade das personagens. E moda não é só tema de interesse de fashionista, tem historiador, antropólogo, sociólogo se debruçando sobre os hábitos e modos de vestir. Pintores também. Há alguns anos, ganhei de aniversário uma edição belíssima dos Cadernos de Viagem de Debret, o livro é um deleite para os olhos, porque traz belos desenhos do artista e equivale a uma crônica de costumes, pois revela o cotidiano nas ruas do Rio de Janeiro no século XIX. São dezenas de gravuras com detalhes sobre as roupas usadas na época. Do torço das crioulas, aos vestidos das sinhazinhas, passando por acessórios como sapatos e luvas.

Ficou interessada? Recentemente, a Publifolha lançou a História Ilustrada do Vestuário, obra anunciada como de referência para historiadores, estilistas, figurinistas, estudantes e apreciadores de moda em geral. A publicação apresenta uma rica pesquisa baseada em dados históricos e informações descritivas da indumentária desde o Egito antigo até o final do século 19, ou seja, milênios da história da humanidade contada a partir do que as pessoas vestiam.

O título combina informações históricas inéditas, estudos e ilustrações de dois artistas gráficos clássicos: Auguste Racinet e Friedrich Hottenroth, com imagens extraídas das obras Le Costume Historique (O vestuário histórico) e Trachten, Haus-, Feld- und Kriegsgerätschaften der Völker alter und neuer Zeit (Trajes e utensílios da cidade, do campo e de guerra dos povos dos tempos antigos e modernos) de cada um dos autores.

O trabalho é apresentado de forma cronológica e dividido por temas, revelando o percurso da moda através dos séculos e detalhando os estilos do vestuário e dos acessórios. As ilustrações revelam as variações das formas, modelos, cores e cortes em cada época, e as referências cruzadas chamam a atenção para motivos recorrentes presentes até hoje. A promessa para o leitor é de uma viagem pela história da indumentária, da Antiguidade e do Império Romano aos trajes típicos da África, Oceania e Américas.

O livro, organizado por Melissa Leventon, traz textos de especialistas em moda, acompanhados por citações da época que revelam o impacto que cada estilo exerceu em seu tempo. Apresenta ainda um capítulo exclusivo sobre acessórios e um abrangente glossário.

Ficha Técnica:

Capa Vestuario.inddHistória Ilustrada do Vestuário

Autora: Melissa Leventon (organizadora)

Editora: Publifolha

352 páginas

R$ 69,90

Leia Mais

Brasil do século XVI inspira romance Vida de Mulheres

A escritora Carmen Sanchez Gil foi buscar nas origens da colonização, a fonte de inspiração para escrever Vida de Mulheres, seu terceiro livro, lançado recentemente pela editora Olcana. Para quem gosta de história, é uma leitura interessante, pois mostra o desbravamento do Brasil selvagem, recém descoberto e prestes a ser colonizado, sob o olhar feminino. Trata-se de um romance, com todos os elementos de uma história de ficção, mas não deixa de ser baseado em situações comuns no período.

Mulheres ColôniaGeralmente, a história da colonização só é contada pela ótica masculina, principalmente porque nas origens do nosso país, boa parte das mulheres que aqui chegaram vieram por obrigação: ou porque seguiam os maridos, militares portugueses, donatários ou sesmeiros com a tarefa de povoar a colônia e dela extrair riquezas para Portugal, ou eram órfãs mandadas para o país pela Coroa, para se tornarem esposas dos primeiros colonos.

escravas_rugendasAs outras mulheres que já viviam aqui quando da chegada dos portugueses, eram as indigenas. Boa parte delas foi estuprada e transformada em escrava. A partir de meados do século XVI, com o início do tráfico negreiro para o Brasil, as africanas também teriam o mesmo destino. A violência porém, embora caísse com muito mais força sobre as índias  e negras, não deixava de atingir as mulheres brancas, que enfrentavam desde os riscos da travessia do Atlântico (o que também acontecia com as africanas confinadas nos navios negreiros), até o casamento forçado e a violência doméstica. Inclusive, as sinhás – segundo Gilberto Freire detalha em Casa Grande & Senzala – costumavam se vingar dos maus-tratos sofridos dos maridos, nas escravas com as quais os senhores costumavam deitar. Além da violência sexual por parte dos donos dos engenhos, as mucamas sofriam também castigos físicos impostos pelas senhoras ressentidas. É de se imaginar onde estaria a solidariedade feminina naquele período? A resposta é que estava soterrada sob camadas de ódio racial. A solidariedade existia, mas entre os grupos étnicos, com raras excessões.

SOBRE O LIVRO: A história de Vida de Mulheres tem início em Granada – Espanha e narra à saga de Carmel, filha caçula da família Flores, proprietária de vastas terras produtivas. A época retratada enfoca uma sociedade oprimida por um regime desumano, onde imperam a violência, o machismo e o desrespeito.

A espanhola Carmel, dotada de uma personalidade forte, como convém às heroínas literárias, se interessa por histórias de países do outro lado do oceano. O Brasil com suas belezas naturais recém descobertas, aguça a curiosidade de Carmel, que decide casar-se com um militar português prestes a assumir um regime lucrativo em terras brasileiras.

No Brasil, longe da proteção familiar e casada com alguém que mal conhecia, Carmel vive o desamor e a decepção.  Volta-se então para outras mulheres com histórias de vida parecidas com a dela. Apesar de desvalorizadas pela sociedade de então, essas mulheres guardam uma inesgotável sabedoria interior.

A ideia do romance de Carmen Sanchez Gil é reverenciar o exemplo de luta pela liberdade, a criatividade,  a fibra e o talento femininos que possibilitaram que elas sobrevivessem àqueles tempos indomáveis e tornou-as capazes de grandes transformações sociais.

Trata-se de uma obra apaixonada e que, por partir do ponto de vista feminino, valoriza a participação das colonas brasileiras na formação do nosso povo e cultura. Vale pelo resgate de uma história que sempre foi contada por homens e em cuja narrativa as mulheres ocupavam notas de rodapé.

Ficha Técnica:

Vida de Mulheres_capaVida de Mulheres
Autora: Carmen Sanchez Gil
Editora: Olcana
465 páginas
Preço sugerido: R$ 39,90

========================

Leia também:

>>Artigo: Mulheres e educação no Brasil colônia (em pdf)

Leia Mais

Vá ao museu!

Indiana Jones, vivido pelo ator Harrison Ford. Ícone que arqueólogo aventureiro e caça tesouros
Indiana Jones, vivido pelo ator Harrison Ford. Ícone que mistura o arqueólogo aventureiro e o caça tesouros das brincadeiras da infância

Tenho uma paixão declarada por casarões antigos e objetos do passado. Alma nostálgica, definiriam alguns. Não nego, sou mesmo saudosista. Mas o que me move é uma curiosidade imensa sobre a origem das coisas. Museus para mim são o que há de mais interessante. Impossibilitada de viver as aventuras de Indiana Jones, ou mesmo de escavar tumbas no Egito (quando era criança queria ser arqueóloga), resta a visita a esses pequenos templos que guardam pedaços da memória da cidade, do país, da trajetória da humanidade. E quando o museu em questão está instalado em um imponente casarão do século XVII, mas reúne obras de diversas gerações de artistas, o passeio se torna ainda mais fascinante.  O Solar do Unhão é um dos casarões coloniais mais belos de Salvador. Construído no sopé de uma montanha, debruçado sobre o mar da baía de Todos os Santos. É neste cenário de filme que funciona o MAM-BA (Museu de Arte Moderna da Bahia) e é lá também que na semana de 17 a 23 de maio, uma programação cultural de tirar o fôlego comemora a Semana Nacional dos  Museus. Se você é de Salvador e compartilha essa mesma paixão por entender o significado das coisas, vá ao MAM e a todos os outros museus da capital sempre que tiver oportunidade. Se não é baiano, frequente os museus da sua cidade. Você vai gostar muito do que vai ver.

============================

Horário extra

O MAM-Ba vai funcionar de 17 a 22 de maio até às 20h e no dia 23, até às 21h. O horário foi esticado para que dê tempo de desfrutar a rica programação elaborada para a Semana dos Museus. Além disso, o MAM vai abrir nesta segunda-feira, 18, dia em que tradicionalmente está fechado.

Palestras, visitas programadas, o circuito de arte eletrônica Zona Mundi, apresentação de Djs, a exposição Caribé – 70 anos de Bahia, a mostra fotografica Lugar de Ausência e a mostra Nuancier – em alusão ao ano da França no Brasil, são algumas das atividades programadas. Confira os detalhes, agende-se e divirta-se:

Novas atrações na mostra Caribé

Iaôs, pintura de Caribé à mostra no MAM
Iaôs, mosaico de Caribé à mostra no MAM

Esculturas, pinturas, desenhos, gravuras, ilustrações e registros de Carybé estão presentes na  exposição em cartaz até o dia 31 de maio. A mostra comemora os 70 anos da chegada de Caribé à Bahia e integra a programação de 50 anos do MAM.  Carybé teve participação ativa, ao lado de Lina Bo Bardi e Mário Cravo, no projeto de implantação do museu, cujo acervo conta com importantes peças suas, a exemplo de pinturas, desenhos, gravuras, painel e serigrafia, além do gradil e portal de entrada do Parque das Esculturas, reunindo mais de 20 obras.

A mostra Carybé ocupa os dois andares do Casarão e a Galeria 1 do MAM.  Além das mais de 200 obras em exposição, os visitantes podem ainda participar da Rota Caribé, um passeio cultural por pontos de Salvador onde existem obras do artista. As saídas ocorrem de terça a domingo, de 19 a 31 de maio, das 14h30min às 17h. São percorridos locais como Praça Castro Alves, Av. Carlos Gomes (Ed. Bradesco), Campo Grande, Iguatemi e Assembléia Legislativa.

Durante a Semana dos Museus, dentro da programação da exposição Caribé – 70 anos de Bahia, ocorrerá ainda o seminário “Encontro com Carybé”, em que amigos e colaboradores do artista reúnem-se para dar depoimentos ao público, abordando questões de interesse específico de estudantes de artes, história, artistas, museólogos, e demais interessados pela Bahia e sua cultura. Participam do seminário: Nancy Bernabó, Solange Bernabó, Ramiro Bernabó, Mario Cravo, Gilberto Sá e José Barrero, entre outros. Há ainda uma programação extensa de filmes dentro do Circuito de Cinema Carybé. Veja aqui no Cineinblog a programação.

Mostra Lugar de Ausência

Imagem da exposição Lugar de Ausência
Imagem da exposição Lugar de Ausência

Exposição individual da fotógrafa baiana Valéria Simões,  até 31 de maio, na Galeria Subsolo e na Galeria 3. Traz o conjunto de 30 fotografias e um audiovisual sobre questões recorrentes da vida contemporânea. As imagens foram colhidas ao longo dos dois últimos anos, em diversas cidades do interior da Bahia e no Centro Histórico de Salvador.

Nuancier

Organizada pelo artista plástico e designer francês Pierre David, a mostra poderá ser visitada até 31 de maio.  O projeto faz parte das comemorações do Ano da França no Brasil – 2009, organizado pelo Comissariado Geral Brasileiro, Ministério da Cultura e Ministério das Relações Exteriores. Montada na Capela do MAM, Nuancier é a terceira parte de uma trilogia que trata da mesma questão: o que determina a escolha de um modelo? Nesta exposição, o critério de escolha dos modelos baseou-se na cor da pele. No projeto, as peles de quarenta modelos foram fotografadas e reunidas em um clássico catálogo de cores. Um fabricante de tintas determinou industrialmente as fórmulas químicas de cada cor de pele. A exposição também é composta da série Ícones, que traz gravuras de crânios trepanados (trepanação é o processo de realizar furos no crânio com objetivo medicinal); e gravuras de catástrofes de amplitude global, a exemplo do 11 de setembro, da bomba de Hiroshima, do assassinato do presidente Kennedy, dentre outros. A idéia é abordar o tema da morte, reinterpretando imagens do sagrado. Dentro da montagem, o artista desenvolveu também trabalhos usando símbolos religiosos.

Mesa Redonda: A Memória e o Espaço Museal

No dia 19 de maio, a partir da 14h, o Núcleo de Arte e Educação do MAM realiza a mesa redonda: A Memória e o Espaço Museal, com o professor de arquitetura da UFBA, Nivaldo Vieira de Andrade Junior e com a professora de História da UNEB, Suzana Maria de Sousa Santos Severs. Os especialistas vão abordar, como tema central, o museu e sua relação com a memória, seja pelo aspecto arquitetural, seja pela sua própria história de ocupação. A entrada é gratuita.

Parque das Esculturas

O local se constitui como um espaço expositivo a céu aberto, o que propõe uma concepção de apreciação alternativa da obra de arte, sem isolamento, nem formalidades. O Parque conta com obras de grandes artistas plásticos brasileiros como Mario Cravo Júnior, Mestre Didi, Waltércio Caldas, Tunga, Carybé, Sante Scaldaferri, dentre outros, reunindo um total de 23 obras. Na Semana dos Museus, escolas, organizações não governamentais, faculdades e outros grupos interessados podem visitar o espaço através de agendamento prévio. A atividade será realizada na quinta-feira (21),  das 10h às 11h da manhã. O agendamento pode ser feito através do telefone (71) 3117 6141.

Zona Mundi

Nos dias 21 e 22 de maio, o MAM abriga a terceira edição do projeto de arte eletrônica Zona Mundi – Circuito Eletrônico de Som e Imagem. A programação conta com um workshop com o DJ Lúcio K (RJ) que acontece no dia 21, das 9h às 12h e das 13h às 18h. O carioca também participa, ao lado do coletivo RadioMundi (BA), de uma performance musical promovida pelo projeto no dia 22, a partir das 20h, no estacionamento inferior do MAM. As inscrições para os workshops podem ser feitas através do envio de propostas – nome completo, RG, um breve release e currículo – para o email [email protected].

Café do MAM: Dj Munch

Integrando a programação especial do MAM para a Semana dos Museus, o Café do MAM recebe o DJ Munch na sexta-feira (22). A apresentação é aberta ao público e ocorrerá das 17h às 22h. Na ocasião, ele convida os Djs Riffis e Mangaio, que comandam sets permeados de afrobeat, dub e brazilian beats.

=======================================

Solar do Unhão, foto de Jeanne Darc, 2000, França
Solar do Unhão / Foto: Jeanne Darc, 2000, França

Solar da história – A saga do Solar do Unhão, sede do MAM-Ba, começa com o cronista português Gabriel Soares de Souza. Ele viveu na Bahia entre o final do século XVI e parte do XVII e é autor do livro Tratado Descritivo do Brasil, um dos mais importantes registros da história colonial do país. Gabriel comprou o solar do desembargador Pedro de Unhão Castelo Branco e tentou implantar um engenho de açúcar no local. Após sua morte, a propriedade foi legada aos monges beneditinos. Na capela do solar, nasceu a devoção a Santa Luzia, depois transferida para a igreja do Pilar. Diz a lenda, que a capela foi dessacralizada porque um padre teria sido assassinado no local. No entanto, a história verdadeira é bem menos romântica. No século XIX, o Solar do Unhão foi comprado por um suiço chamado François Meron, que transformou a propriedade em uma fábrica de rapé. Como Meron era protestante, usou a capela do antigo engenho como um dos depósitos de pólvora da fábrica. Os paramentos da igreja e as imagens sacras foram doados pelo suiço para a igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia. O solar também serviu de quartel para os Fuzileiros Navais durante a II Guerra Mundial.

=======================

Leia também:

>>Três anos do Museu da Língua Portuguesa – São Paulo

Leia Mais

Releitura da Abolição

Da série, Mulheres que fazem a diferença

A historiadora baiana Wlamyra Albuquerque, professora da Universidade Federal da Bahia, lançou na última terça, dia 12, o livro O Jogo da Dissimulação – Abolição e Cidadania Negra no Brasil, em que propõe uma ressignificação do 13 de Maio. Ao invés do que dizem os livros didáticos, que a abolição da escravatura foi uma concessão da princesa Isabel e até um gesto de bondade da regente, a pesquisadora propõe uma análise mais crítica do episódio histórico, demonstrando com base em documentos e registros, que a abolição ocorreu devido a pressões sociais e, principalmente, porque os próprios negros sempre lutaram pelo reconhecimento de sua condição enquanto cidadãos livres.

Isabel de Bragança em foto tirada no exílio, na França
Isabel de Bragança em foto tirada no exílio, na França, onde viveu após a proclamação da república, até sua mort, em 14 de novembro de 1921

Ao longo dos 300 anos de escravidão no Brasil, diversas fugas, rebeliões de escravos, escamaruças em quilombos e campanhas exerceram tal pressão sobre o governo imperial que a assinatura da Lei Áurea era inevitável. O Brasil também recebeu muita pressão externa para eliminar o trabalho servil. Wlamyra vai mais longe na sua pesquisa e revela que quando a lei foi assinada, mais de 80% da população negra já era liberta e essa liberdade foi conquistada mais por meios próprios do que por benevolência dos senhores. Os escravos, aqui na Bahia, por exemplo, uniam-se em irmandes responsáveis por juntar caixas de pecúlio e usar esse dinheiro para comprar a alforria uns dos outros. Negros de ganho, escravos que trabalhavam nas ruas como carregadores e vendedores, também juntavam o quinhão para a compra da liberdade.

Em 2000, fiz uma entrevista com Wlamyra, na época, ela lançava um livro sobre o 2 de Julho – Independência da Bahia – partindo também de estudos que resignificavam a festa maior dos baianos. Na pesquisa, a historiadora ressaltava o caráter popular da guerra da Independência. A Bahia foi o último reduto do comando português no Brasil e foi o estado onde a Independência do Brasil se consolidou, pois um levante popular permitiu que os últimos soldados portugueses fossem expulsos do país.

Quem é quem:

Wlamyra Albuquerque* – Graduada em História pela Universidade Católica do Salvador (1991), mestra em História pela Universidade Federal da Bahia (1997) e doutora em História Social da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas (2004). É professora da Universidade Federal da Bahia. Desenvolve pesquisa e orienta trabalhos que versam sobre abolição, racialização, culturas e identidades sócio-raciais no Brasil.

*Informações retiradas do currículo lates da pesquisadora, disponível aqui.

Princesa Isabel – A filha do imperador Pedro II foi a primeira senadora brasileira, cargo a que tinha direito como herdeira do trono, segundo a Constituição do Império, promulgada pelo avô Pedro I, em 1824. Nasceu no Rio de Janeiro, em julho de 1846 e morreu em 1921, na França. Foi regente do império três vezes. A abolição foi assinada no seu último período de regência. Pelo ato, a princesa recebeu o título de “Redentora”. Essa visão é que a historiografia moderna tenta mudar, mostrando que a princesa agiu por pressões políticas e sociais e não por caridade. Com a Proclamação da República, teve de deixar o Brasil com o resto da família real.

=======================

Leia também:

>>13 de maio inspira reivindicação e festas – reportagem do A TARDE On Line

Leia Mais

Gripe suína põe mundo em alerta como nos tempos da “influenza espanhola”

Vírus influenza, causador da gripe
Vírus influenza, causador da gripe

Guardadas as devidas proporções, o surto de gripe suína, iniciado no México em março,  e que já alcançou diversos países, tem sido comparado com a epidemia de gripe espanhola do início do século XX. Apesar de, em 1918, não termos a quantidade de tecnologia e nem o avanço médico científico dos dias de hoje, as formas de disseminação do vírus se assemelham. Naquela época, a I Guerra Mundial ajudou a espalhar a Influenza pelo mundo. Hoje, após a globalização, o mundo encolheu e os voos que ligam todos os continentes podem trazer bem mais que roupas e acessórios na bagagem de seus passageiros. Queira Deus que a gripe suína nem de longe seja parecida com a epidemia de gripe espanhola, porque aquela sim foi uma calamidade de proporções inimagináveis até para os padrões atuais.

Aqui em Salvador e no resto do país, do planeta, a luz vermelha está acesa. Fronteiras são vigiadas e o controle sanitário torna-se rigoroso. Nas ruas do México, vemos na TV que as pessoas andam com máscara cirúrgica na cara. Mas ainda continuamos perdendo batalhas e mais batalhas para seres microscópicos como os vírus, justamente porque, tal qual em 1918, ainda vivemos diferenças gritantes no acesso à saúde, ao saneamento básico, a condições dignas de moradia e alimentação. O mundo globalizado ainda é dividido entre privilegiados e despossuídos. Não é à toa que o surto epidêmico começou no mais pobre dos países norte-americanos. Igual a epidemia de ebola, nos anos 90, que saiu da África para o resto do globo. Ou ainda, como a cólera morbus, que vez por outra eclode em algum lugar insalubre do mundo.

Diretor-geral da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agenor Álvares. Governo Federal decidiu criar o Gabinete Permanente de Emergência, para tratar dos assuntos referentes ao surto mundial de gripe suína / Crédito da Foto: Valter Campanato - Agência Brasil
Diretor-geral da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), Agenor Álvares. Governo Federal decidiu criar o Gabinete Permanente de Emergência, para tratar dos assuntos referentes ao surto mundial de gripe suína / Crédito da Foto: Valter Campanato - Agência Brasil

Prevenção é a palavra de ordem, tanto nesse caso da gripe suína, quanto em qualquer epidemia, como a de dengue, que já nos dá muito trabalho. Lavar as mãos, evitar contato com doentes, higienizar frutas, verduras, não jogar lixo nas ruas, afinal, somos nós que vivemos nessas mesmas ruas. Tudo isso faz parte da consciência cidadã e ajuda muito a diminuir o poder avassalador de um vírus. Mas, ainda assim,  é preciso uma consciência maior dos governos, dos cidadãos na hora de escolher esses governos, dos mais ricos da sociedade. É preciso mais justiça na hora de dividir o bolo de riqueza do mundo, mais justiça na hora de permitir que os hospitais públicos e os postos de saúde de fato cumpram seu papel perante os mais carentes. É preciso mais compromisso da medicina, tanto nas faculdades, que formam os médicos, quanto na hora de exercer a profissão, de avaliar um paciente e dizer algo mais para ele do que simplesmente “você está com virose”.

Perder vidas por causa da gripe na Idade Média, quando não se sabia nem o que era que causava uma gripe, até se entende, mas perder vidas por causa da gripe em tempos de pesquisas milionárias, em laboratórios milionários, é sinônimo de que precisamos mais do que simplesmente lavar as mãos. Faz-se necessário repensar o que estamos afinal fazendo com este planeta que chamamos de lar, o que estamos fazendo uns com os outros.

===============================

Informações úteis sobre a gripe suína:

Abaixo, alguns links retirados do Portal A TARDE On Line; além da história da gripe espanhola, pandemia ocorrida em 1918 e considerada um dos mais graves surtos de gripe da história.

>>Conheça os sintomas da doença em uma infografia explicativa

>>Salvador tem primeiro caso suspeito de gripe suína

>>Secretário de Saúde da Bahia tranquiliza população

>>Vigilância nos aeroportos

>>Médicos dão orientações sobre o surto de gripe suína

>>Tripulação deve observar passageiros em voos internacionais

>>Site Banco da Saúde reúne guia para esclarecer sobre a gripe.  Confira

=================================

HISTÓRIA DA GRIPE*

O advogado Rodrigues Alves foi o 5º presidente do Brasil, governou entre 1902 e 1906. Disputou e venceu nova eleição presidencial em 1919, venceu, mas não governou, porque morreu na epidemia de gripe espanhola
O advogado Rodrigues Alves foi o 5º presidente do Brasil, governou entre 1902 e 1906. Disputou e venceu nova eleição presidencial em 1919, venceu, mas não governou, porque morreu na epidemia de gripe espanhola

A epidemia de gripe espanhola, em 1918, é considerada a pior da história da humanidade. Atingiu quase todo o globo, deixou 20 milhões de mortos e 600 milhões de pessoas infectadas em todo o mundo. O único país que escapou foi a Austrália, que só registraria alguns casos isolados em 1919. Independente do isolamento da Austrália, nos confins da Oceania, o governo de lá tomou medidas drásticas para impedir a entrada do virus no país. Embora tenha recebido o nome de Influenza, ou gripe espanhola, até hoje não se sabe ao certo onde a epidemia começou. A certeza é de que ela se espalhou tão depressa e fez tantas vítimas graças a I Guerra Mundial. Literalmente, o vírus viajou nas solas dos coturnos das tropas e nos navios de combate.

Surtos de gripe são relatados desde a antiguidade, como o ocorrido em 400 a.C, em Creta. Na Idade Média, alguns historiadores acreditam que a temida peste ocorrida na época da Guerra dos Cem Anos foi uma epidemia de influenza. Nos séculos XVII, XVIII e XIX, a Europa sofreu diversos surtos graves de gripe. Entre 1889 e 1890, Ásia e América também teriam sido afetadas, mas a historiografia moderna é unânime em classificar a pandemia de 1918 como a pior até os dias de hoje.

A influenza chegou por mar ao Brasil e desembarcou nas cidades portuárias mais importantes do país, em setembro de 1918: Santos, Rio de Janeiro, aqui em Salvador e Recife. Desses locais, rapidamente ganhou o resto do território. Em finais de outubro daquele ano, o virus fez estragos comparáveis aos da epidemia de cólera morbus, no recôncavo baiano, em 1859, e já havia se espalhado por todos os estados, alcançando até a Amazônia, onde dizimou tribos indígenas inteiras. O próprio prefeito de São Paulo, Washington Luis foi vítima da doença. A capital industrial do Brasil – já naquela ocasião São Paulo respondia por 40% da produção industrial nacional -, sofreu baixas terriveis na sua população. Oficialmente, foram 66 dias de epidemia e 350 mil pessoas infectadas, o que correspondia a 65% da população da cidade no período.

Destacamento de soldados brasileiros enviado à I Guerra. Acredita-se que os soldados disseminaram o vírus da gripe espanhola, pois foram contaminados nos campos de batalha
Destacamento de soldados brasileiros enviado à I Guerra. Acredita-se que os soldados disseminaram o vírus da gripe espanhola, pois foram contaminados nos campos de batalha

“A epidemia que tão impiedosamente se declarou no Rio, paralysando a vida da cidade, cobrindo-a de luto e de tristeza, e, até, ameaçando-a de fome, parece ter passado como um vendaval malfasejo, carregando vidas e alegrias no seu bojo monstruoso e deixando na sua esteira de sombra a lembrança tragica de um cortejo de dores e de maguas. “

(Trecho de reportagem publicada em 2 de novembro de 1918, na revista Fon Fon – RJ)

Os serviços de vigilância epidemiológica daquele período mostraram-se insuficientes para conter o avanço do vírus tanto em São Paulo, quanto nas demais cidades brasileiras. Os médicos, que não sabiam como tratar a doença, teciam todo tipo de teoria e tentavam combinações das mais esdrúxulas para tratar os pacientes. Em São Paulo chegou-se a catalogar a combinação de 178 substâncias diferentes em um único medicamento! Remédios para malária eram usados indiscriminadamente. Surgiam curandeiros prometendo maravilhas, mas que na maioria das vezes, só ajudavam a debilitar os pacientes ainda mais. Aglomerações públicas eram proibidas. Atletas do Corinthians que sairam para treinar, em outubro de 1918, foram punidos. Jogos e campeonatos eram suspensos. Cabarés e teatros fechados. Também não funcionavam escolas ou repartições públicas. Até a Câmara Municipal paulista fechou, porque os vereadores fugiram de medo da influenza. O índice de homicídios aumentou, porque o medo do contágio, o isolamento obrigatório e o excesso de medicamentos ingeridos, além da própria febre alta e da debilidade dos pacientes, favoreciam as alucinações. Muitos também atribuiam o surto ao castigo divino devido aos pecados da humanidade.

O surto de gripe espanhola em 1918 fez mais mortos do que os fronts da I Guerra
O surto de gripe espanhola em 1918 fez mais mortos do que os fronts da I Guerra

Nas memórias do jornalista e escritor Pedro Nava, a epidemia no Rio de Janeiro ganhou contornos de filme de terror do expressionismo alemão. Bondes e carroças eram usados para transportar centenas de caixões. Era proibido aos familiares acompanharem os mortos até o cemitério. As famílias, isoladas dentro de casa, não sabiam onde os parentes eram enterrados. Igrejas e escolas foram convertidas em hospitais. A população assustada e debilitada, promovia saques aos armazéns em busca de alimentos e remédios. Ainda assim, diante da ineficácia das políticas públicas, foi a união da sociedade civil que manteve o mínimo de ordem em meio ao caos que reinava nas principais metrópoles do país.

Com o fim da I Guerra, a epidemia de gripe foi regridindo no mundo todo. Em finais de novembro, aqui no Brasil, os casos já eram mais isolados e as cidades retomaram suas rotinas. Depois da pandemia, as pesquisas, que já ocorriam desde o século XIX – em 1891 Richard Pfeiffer isolou o bacilo haemophilus influenzae -, foram intensificadas e em 1933, cientistas britânicos anunciaram a descoberta do vírus da gripe. A partir daí, outros virus foram descobertos, todos do grupo myxo-vírus, e vacinas começaram a ser testadas. Na história recente, ocorreram epidemias de influenza em 1946, 57 e 68; além dos surtos de gripe asiática e da gripe do frango, já nos anos 2000. No entanto, nenhuma dessas chegou perto da calamidade registrada em 1918.

*Fonte: A Gripe Espanhola em São Paulo; artigo do professor Cláudio Bertolli Filho (Faculdade de Ciências Humanas da Fundação Valeparaibana de Ensino); in Revista Ciência Hoje, Volume 10, número 58, outubro de 1989. Coleção pessoal da autora deste post.

Leia Mais

Aniversário de Salvador: reflexões e notícias na Internet

Foto aérea de Salvador. Crédito: site oficial da Bahiatursa
Foto aérea de Salvador / Crédito: Bahiatursa

Salvador completa hoje 460 anos de fundação. A primeira cidade construída no Brasil, planejada meticulosamente para ser a sede do poder português nas Américas, capital da colônia até 1763, é uma das mais belas do país, mas também tem problemas graves, como a maioria das metrópoles contemporâneas. Alguns desses problemas são históricos e remontam à origem da cidade.

Uma vez, escrevendo sobre os transtornos que as chuvas de outono provocam na capital, me deparei com um documento histórico: a carta que o mestre-de-obras (espécie de arquiteto) Luis Dias escreveu relatando a D. João III que o local escolhido por Thomé de Souza para construir a cidade-fortaleza, o alto de uma montanha, poderia ser o mais seguro do ponto de vista militar, mas em questões arquitetônicas deixava muito a desejar.  A primeira encosta desabou em Salvador ainda no século XVI, durante as obras de construção da capital.

A cidade foi erguida sobre uma falha geológica, o que Thomé de Souza jamais poderia saber, pois naquela época não existiam ainda pesquisas em geologia. O que motivou a escolha do sítio original foi a necessidade de fazer dessa capital lusitana além-mar, um ótimo ponto de vigilância e um cofre-forte que guardaria todas as riquezas da colônia, vindas das outras capitanias, e posteriormente enviadas à Portugal. No entanto, apesar dessa falha, foi a falta de planejamento urbano que manteve a capital baiana até hoje vulnerável ao mau-tempo.

Forte de São Marcelo / Crédito: Bahiatursa
Forte de São Marcelo / Crédito: Bahiatursa

Ainda na atualidade, 460 anos depois, além da insegurança de suas encostas,  que desabam e soterram pessoas e imóveis, convivemos também com a pobreza, herança histórica da escravidão negra e índia, entre outros fatores, mas que persiste por falta de vontade política e falta de um plano de desenvolvimento mais inclusivo, que permita diminuir as diferenças sociais gritantes. Nossa economia é fraca, subsiste do turismo e da sazonalidade do Carnaval. Por isso, faltam oportunidades para quem está fora dessa indústria do entretenimento ou para os períodos de parada no calendário festivo. 

A natureza foi generosa com a cidade e uma rápida olhada na nossa história mostra que há muito do que nós baianos nos orgulharmos, mas há também muito o que aprender e modificar. A violência cresce em Salvador, uma cidade que já foi palco de tantas lutas em prol da liberdade, solo sobre o qual a Independência do Brasil foi sacramentada, visto que, em 2 de julho de 1823, após o célebre Grito do Ipiranga, de 7 de setembro de 1822, foi aqui em Salvador que a última frota portuguesa finalmente foi expulsa do país.

Elevador Lacerda / Crédito: Bahiatursa
Elevador Lacerda / Crédito: Bahiatursa

Com tantos erros e acertos, é de se perguntar o quê exatamente temos para comemorar neste domingo? Mas se olharmos bem para a nossa origem, veremos que a resistência da população desta cidade, que convive com adversidades há mais de quatro séculos, é motivo de sobra para uma bela festa. No entanto, que mais este aniversário sirva de incentivo para que Salvador se torne mais justa para seus habitantes e menos desigual.

Feliz aniversário Salvador!

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Leia outros posts sobre o aniversário da cidade:

>>Aniversário de Salvador: 460 anos
>>Aniversário de Salvador: Thomé de Souza

>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>

Leia o que foi publicado na internet sobre o aniversário de Salvador:

>>Cidade pede um novo urbanismo (artigo de Milton Santos)
>>Internautas declaram seu amor pela cidade
>>WEB TV A TARDE faz slideshow com fotos de internautas
>>Galeria de imagens no A TARDE On Line

Leia Mais

De onde vem a família moderna

Família. O que vem à sua cabeça ao pronunciar esta palavra? Talvez a primeira coisa em que você pense seja seus pais, irmãos, avós, tios e primos. O assunto família é um dos que mais me instiga. Talvez por isso eu tenha fuçado alguns livros que falam sobre sua evolução histórica. “Que assunto mais chato”, há quem pense assim. Pra mim, esse conhecimento do contexto de formação da unidade familiar contemporânea ajuda muito a compreendermos tantos dramas sociais que se desenvolvem hoje nas relações conjugais. Ajuda a entendermos nossos papéis, de mulheres, nisso tudo.

Fazendo uma passagem relâmpago pelo estudo da evolução das relações conjugais, a gente vai perceber que houve momentos históricos bem pontuais. Passamos das relações grupais para as individuais. Tudo começou com uma fase de promiscuidade sexual, anos lá atrás. Apesar do significado pejorativo que o termo já adquiriu na sociedade moderna, aqui estou tratando a promiscuidade apenas como as relações carnais desenvolvidas em uma determinada época em que não havia restrições impostas pelos costumes sociais. A sociedade não exigia a fidelidade masculina, então, naquela época, trair fazia parte do sistema.

FamiliaConsaguínea, punaluana, sindiásmica – Quando nasceu a família consanguínea, em que os grupos conjugais classificavam-se por gerações, ainda havia as relações grupais. E assim permaneceu com a chegada da família punaluana, quando foram proibidas as relações sexuais entre irmãos dentro dos grupos. O primeiro passo para as relações individuais veio com a família sindiásmica, em que um homem vivia com uma mulher, sem, contudo, perder o direito à infidelidade casual. E, então, vimos nascer a tal da monogamia, que, a princípio, garantia o direito à infidelidade masculina. O Código de Napoleão trazia expressamente esse direito, desde que a concubina não fosse levada ao domicílio conjugal.

O que eu acho mais curioso de tudo isso é a razão da formação das relações monogâmicas. A principal finalidade, naquela época, era tornar indiscutível a paternidade dos filhos. Não, meus caros, os homens não se tornaram fiéis por amor à mulher, por valores maiores. Nada disso. A aparente fidelidade masculina nasceu para garantir que a riqueza fosse mantida dentro da família. Porque com a morte dos pais, os filhos tornavam-se herdeiros diretos de seus bens (se bem me recordo das aulas de direito de família, antigamente o parentesco era considerado juridicamente até o 10º grau, justamente para garantir que a herança ficasse dentro daquele círculo familiar).

Nesse contexto, nós mulheres precisávamos aceitar tudo isso e, mais ainda, precisávamos ser fiéis. Imagina carregarmos em nosso ventre um filho de outro homem? Imagina descentralizarmos as riquezas de nossa família? É fácil perceber que a monogamia nasceu para escravizar um sexo ao outro e acabou fazendo surgir na sociedade expressões como “o amante da mulher casada” e, até, “o marido corneado”. Em toda a trajetória, a mulher sempre foi reprimida e submetida aos desmandos masculinos. Passamos a história caladas, obrigadas a nos manter em silêncio, obrigadas a aceitar tudo isso.  Fico um pouco angustiada lendo sobre estas questões, porque vejo que sempre acabamos nos reafirmando a serviço do capital, como falei certa vez em um post anterior.

Familia modernaHora de comemorar – Mas por outro lado, conseguimos conquistas valiosas ao longo da história. A ponto de hoje assumirmos uma produção independente, por exemplo, e, ainda assim, podermos chamar de família este núcleo familiar composto por duas pessoas, sem a presença de um homem para garantir o sustento. Esse novo conceito de família, devo dizer, me traz um certo alívio. Podemos decidir, escolher, podemos ter filhos sem mesmo precisar que um homem aceite a idéia. E isso, de alguma forma, traz uma sensação de liberdade.

Minha intenção aqui não é fazer julgamentos. Não vou tratar de qual a melhor forma de se criar um filho, ou qual o melhor tipo de família…  O propósito deste post é apenas de fazer com que nós, mulheres, possamos sentir orgulho de termos superado fases tão cruéis, de termos sobrevivido a tantas agressões sociais e, hoje, podermos estar aqui, discutindo estas questões. Podermos estar aqui decidindo que tipo de família queremos constituir. É um avanço, meninas. Um avanço considerável. Claro que há muito ainda a alcançarmos, mas preciso dizer que, analisando de onde começamos até onde chegamos, só posso concluir, orgulhosa, que somos vencedoras.

DICAS PARA SE APROFUNDAR NO ASSUNTO
Na internet:
Se interessou pelo tema? Clique aqui e leia mais 
A origem da familia, da propriedade privada e do estadoNa livraria 
A origem da família, da propriedade privada e do Estado (Friedrich Engels).
Compare os preços e compre online. 

Trecho do livro, para refletir:  “Assim, pois, o que podemos conjecturar hoje acerca da regularização das relações sexuais após a iminente supressão da produção capitalista é, no fundamental, de ordem negativa, e fica limitado principalmente ao que deve desaparecer. Mas o que sobreviverá? Isso se verá quando uma nova geração tenha crescido: uma geração de homens que nunca se tenham encontrado em situação de comprar, à custa de dinheiro, nem com a ajuda de qualquer outra força social, a conquista de uma mulher; e uma geração de mulheres que nunca se tenham visto em situação de se entregar a um homem em virtude de outras considerações que não as de um amor real, nem de se recusar a seus amados com receio das conseqüências econômicas que isso lhes pudesse trazer. E, quando essas gerações aparecerem, não darão um vintém por tudo que nós hoje pensamos que elas deveriam fazer. Estabelecerão sua próprias normas de conduta e, em consonância com elas, criarão uma opinião pública para julgar  a conduta de cada um. E ponto final.”

Leia Mais