Cronicamente (In)viável: as muitas faces da felicidade

Felicidade, tal qual o amor, não tem receita padrão. Dia desses me perguntaram se eu era uma pessoa feliz. Matutei na pergunta e, de cara, pensei em responder que felicidade é um conceito muito amplo e aberto para ser enquadrado nesse ou naquele modelo. Que pessoas com estilos de vida diferentes definem e vivem felicidades diferentes.

Quem perguntou se preocupa comigo, o que por si só, me deixa bastante feliz. Porque nesse caso específico, o interesse é genuíno. A pergunta veio de alguém que eu tenho certeza de que me ama e quer me ver de bem com a vida eternamente, embora isso seja utopia. Reagiria diferente se a pergunta viesse daquele tipo de pessoa que imagina a vida como um ranking e mede seu modelo de felicidade com o dos demais, acreditando-se superior. Mas nenhuma vida vale mais que outra, nenhuma escolha é melhor que outra!

Para esses tipos, não tenho paciência de explicar nada. Já para quem não tem preconceito imbuído na pergunta e só não entende muito bem como funciona ser feliz fora do padrão, para os de coração aberto, explico que: se pode ser feliz estando ou não em um relacionamento; ganhando milhares de reais ou só algumas centenas por mês; morando em arranha-céus ou no apartamento simples de dois quartos; vestindo 38 ou 50; no bar com a turma de amigos ou maratonando séries da Netflix; aos 20, aos 30 e aos 43 (minha idade)…

Felicidade vai e vem

Vale ter em mente que aquilo que nos faz bem é o que também nos trará essa tão sonhada felicidade. Mesmo que seja algo simples como ler um livro ou dormir até mais tarde no dia de folga. E entender que, o que me deixa feliz pode não ter o mesmo efeito em outra pessoa. Porque o estado de felicidade depende de vários fatores, como os valores que alguém cultiva, o que cada pessoa prioriza na vida (o trabalho, a família, o lazer…), o momento que cada um está vivendo, os perrengues que surgem no caminho para resolver, a maneira como se encara os problemas.

A grande tragédia da nossa sociedade é que as pessoas perderam a capacidade de sentir dor e por isso buscam anestesiar qualquer efeito adverso de uma contrariedade. Do hedonismo meio infantil e sem limites aos medicamentos tarja preta, qualquer coisa que entorpeça servirá para que a dor não lateje, não incomode, não atrapalhe o caminho para a felicidade suprema.

Mas é impossível conquistar a felicidade suprema! Em algum momento sentiremos tristeza, teremos algum aborrecimento, ficaremos estressados, precisaremos chorar rios inteiros. Faz parte da vida ter frustrações. Ninguém é 100% feliz ou otimista o tempo todo e quem finge que é, está cavando um poço fundo e perigoso. Alguma coisa sempre vai incomodar e é até importante que esses incômodos apareçam, porque nos fazem rever posturas, retraçar caminhos, nos ajudam a amadurecer.

Expectativas x felicidade

A gente sempre espera alguma coisa. Da vida, do destino, dos outros. Zerar completamente as expectativas e aceitar de bom grado aquilo que chega é um exercício demorado, penoso, requer um grau de desapego que nem todo mundo tem. Uma certa dose de expectativa, honestamente, eu até acho bom que a gente tenha. Porque é uma forma de estímulo para seguirmos em frente, traz uma dose benéfica de esperança.

O que não pode é elevar as expectativas a níveis impossíveis, fechando-se em exigências que não podem ser supridas. Porque daí a esperança dará lugar à amargura e acredito que amargurados não conseguem enxergar a felicidade, mesmo que ela esteja ao alcance do nariz.

Tem fases na vida que parece que o destino testa nossa paciência. Os religiosos dirão que parece que Deus testa nossa fé. Ou então, é porque nesse jogo cósmico do qual fazemos parte, as chances de algo dar certo ou dar errado são iguais. Ou ainda, porque temos uma capacidade absurda para sermos teimosos e insistirmos nas coisas que lá no fundo sabemos que não são boas para nós. E quando elas desandam, botamos a culpa nessa ‘entidade’ chamada destino, ou xingamos Murphy.

O grande jogo da vida

Tem gente que vive um dia de cada vez e improvisa de acordo com a situação. Outros precisam ter tudo esquematizado de forma tão obsessiva, que quando algo sai do trilho, é um deus nos aguda. Outros ainda, entregam a sorte nas mãos do acaso e confiam na “improbabilidade infinita”. Tem até os que sequer acreditam em sorte e acham que tudo é questão de trabalhar duro e merecer. E, por fim, há ainda os que vivem em eterna roleta russa com a vida, o que de certa forma, ao menos para mim, não é bacana.

A grande sacada é perceber que quanto maior for a nossa expectativa, maiores também as chances da frustração ocorrer. E daí que é preciso aos poucos, exercitar o cultivo da gratidão pelo que a vida nos dá. Mesmo quando aquilo que consideramos um presente, não seja grande coisa do ponto de vista alheio. O que vale é o que nós sentimos, não o que os outros querem que a gente sinta.

Acredito que se cada um tentar um exercício de empatia e, de vez em quando, se colocar nos lugares uns dos outros, a visão do que é felicidade vai se expandir bastante e revelar que ela tem muitas faces. E cada um vestirá aquela que lhe der mais conforto e paz de espírito.

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Cronicamente (In)viável: “Meu corpo me pertence. Tire suas mãos de mim”

O corpo feminino ainda é tratado como objeto coletivo

Meu corpo me pertence. Só eu posso autorizar que toquem nele. A frase parece óbvia, mas precisa ser repetida como um mantra. Para que nunca mais nos esqueçamos que quem manda nas nossas vontades somos nós. Para nunca mais termos receio de ser quem somos. Para não cairmos no conto do “é só uma brincadeira”. Porque não é brincadeira. É violência! Para nunca mais sentirmos aquele medo ou a vergonha que nos silencia.

O mantra vale para todo mundo, porque todas as pessoas, independente do gênero, da orientação sexual, do comprimento da roupa, da cor da pele ou do tamanho da conta bancária, têm direito à privacidade e ao respeito. Só que, na maioria esmagadora das situações, são os corpos femininos que são tratados como propriedade coletiva, como coisa pública, objeto sem valor. Então, é fundamental que as mulheres fortaleçam a certeza de que não são culpadas, não são responsáveis pelo descontrole, pela falta de caráter, pelo machismo alheio.

Também na maioria das vezes, a invasão do corpo feminino acontece com os homens avançando o sinal sem permissão para apalpar, violando direitos básicos. Então, vale sugerir que eles pratiquem outra frase: “não devo tocar o corpo de nenhuma mulher sem consentimento”. Talvez, se os homens repetirem à exaustão, absorvam de forma orgânica e consciente a certeza de que todas as mulheres têm direito ao respeito.

Vale também eles praticarem outras verdades, aqui listo algumas sugestões:

“Não sou o dono do corpo e nem da vontade de nenhuma mulher.”

“Nenhuma mulher é obrigada a transar comigo”.

“Nenhuma mulher é obrigada a corresponder meus sentimentos por ela”.

“As mulheres são tão livres quanto eu para escolherem ser e fazer o que quiserem”.

Objetificar é tirar das mulheres as decisões sobre o próprio corpo

Maldição antiga sobre o corpo feminino

A ideia de que os corpos femininos são propriedade masculina é antiga. Vem das origens do patriarcado, quando os homens perceberam que não bastava apenas ter poder sobre a terra, era preciso controlar também a descendência. Vem da ideia equivocada de que o corpo das mulheres é o depósito da semente masculina, que ela nada mais é do que um vaso, sem vontade própria, um ventre oco, que quando semeado, gera um herdeiro, o filho do homem. Assim, mulheres passaram séculos sendo vistas como propriedade, tal qual o gado, o arado, o celereiro de grãos. Só mais um dos itens listados no feudo como pertencentes ao ‘grande senhor’.

Romper com séculos desse equívoco, incentivado inclusive por muitas religiões, é bem difícil, ninguém nega isso. Mas, convenhamos, estamos no século XXI e não no XII. Já passou da hora dos homens admitirem a culpa de perpetuarem o machismo, que nada mais é do que um exercício sórdido de poder. A conversa de que o problema está na ‘educação que eu recebi’ já não convence diante de tantos avanços atuais. Diante da possibilidade real que todas as pessoas têm hoje, graças ao acesso ilimitado a informação, de desconstruir seus preconceitos.

Apenas melhorem, rapazes, parem de inverter a equação. E, uma vez confrontados com seus erros, parem de se colocar na defensiva e culpar seus bisavôs pelos discursos e atitudes que vocês reproduzem por conveniência e por apego aos privilégios.

Ao abusarem dos nossos corpos, a intenção também é quebrar nossos espíritos

O xis da questão

É importante parar de apontar o dedo para as mulheres que reproduzem o discurso machista. Toda mulher é vítima do machismo, mesmo quando ela dissemina mensagens e comportamentos machistas. O que acontece é que toda vez que homens são confrontados com seus erros e a forma perversa e assassina de tratar o feminino, aparece alguém para bradar: ‘mas também existe mulher machista’.

Não existe! Existem é mulheres que não conseguem enxergar a própria opressão. Ou, mesmo quando a enxergam, agem como carcereiras de outras mulheres, repassam a opressão sofrida para as irmãs. E não adianta xingar essas mulheres, é preciso dar a elas os mecanismos que tornem possível que enxerguem com clareza. É um processo de aprendizado e de descoberta.

Esse processo de educação feminina, que para umas acontece mais rápido e para outras mais devagar, não diminui em nada a responsabilidade e a culpa dos homens. Vamos olhar para o lugar certo. Ao invés de tentar encontrar justificativas para culpabilizar as vítimas pelos abusos que elas sofrem; ou de culpar outras mulheres pela manutenção do machismo, vamos olhar para o machismo que mata milhares de nós diariamente no mundo.

Vamos apontar nossos dedos para a direção certa: machismo é criação de homens. É abuso de poder de homens para com mulheres. É majoritariamente violência física, moral e psicológica de homens contra mulheres. É culturalmente disseminado, em primeiro lugar, entre os homens, de pai para filho. Para que não percam o poder absoluto que alguns tem a cara de pau de atribuir à vontade divina! Mesmo quando as mães colaboram, ao educar filhos e filhas de forma diferente, ajudando a manter a crença de que meninas nunca podem e meninos podem tudo, essa mãe não é a inventora e nem o sujeito ativo principal da estrutura machista da sociedade.

Autonomia sobre o próprio corpo não é uma concessão, mas nosso direito

Canalhas não passarão

Nem todo homem comete abuso, mata ou é do tipo machista mais torpe. Mas, ainda assim, os machistas light se beneficiam da estrutura desigual da nossa sociedade. O fato de serem homens, num mundo governado e pensado de e para homens, lhes confere privilégios. Felizmente, existem cada vez mais deles dispostos a exercitar a empatia, a ajudar no combate ao machismo, que como já foi dito muitas vezes, também os oprime.

Mesmo aqueles que inicialmente tentavam colocar-se como protagonistas da luta feminina por igualdade de direitos, falando em nome das mulheres, estão aos poucos entendendo que a participação mais importante deles é na educação dos seus pares. Homens podem ajudar a educar outros caras que ainda desrespeitam e abusam das minas.

Aos canalhas, aos abusivos, aos assassinos, cada vez mais eles perceberão que seu reinado acabou e o que existe agora são os estertores de quem já entendeu que o jogo virou. As mudanças sociais que vêm ocorrendo velozmente em todo o mundo, não têm mais volta. Nenhuma mulher vai voltar ao estágio de submissão, de medo e de vergonha. E juntas, cada vez mais, umas tirarão os grilhões das outras. As reações femininas para cada abuso masculino vão ser em tamanho e força igual à injúria sofrida, porque se tem um outro conceito que muitas de nós já absorveu como uma segunda camada super-protetora de nossos corpos violados, é o de que juntas somos sim muito mais fortes!

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Cronicamente (In)viável: Ciclos de morte e renascimento. Ou, O mito da fênix

“Na mudança, na metamorfose e no caos, a vida se completa”.

Acredito em ciclos. Que a vida é circular, mas não repete-se igual. A frase em destaque, acima, é de um amigo. Um dia, ele leu um dos meus desabafos sobre o eterno desejo de mudança e comentou com essa frase. Vira e mexe, a gente precisa se reinventar e recomeçar do zero. Não é um processo fácil. Requer, além de desapegar do que já não nos serve, a capacidade de se moldar às novas circunstâncias. Resiliência é só uma palavra da moda, dirão alguns. Mas quem cumpre um destino de fênix conhece seu significado nas entrelinhas.

Recordo de uma frase do romance Os versos satânicos, de Salman Rushdie: “Para renascer, é preciso morrer primeiro”. É dita pelo personagem Gibreel Farishta, um ator famoso que vive uma metamorfose após sobreviver a um desastre aéreo. Quantos de nós não enfrenta suas pequenas mortes cotidianas? E precisam juntar as próprias cinzas, aquecê-la e desse montinho disforme renascer?

A fênix era conhecida como Bennu entre os antigos egípcios

Os ciclos de renascimento e o mito da fênix

O mito da fênix, embora atribuído à cultura greco-romana, surgiu no antigo Egito. Depois, foi adotado pelos gregos e, mais tarde, pelos cristãos. Ana Lucia Santana, mestra em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP), explica em artigo (leia aqui) que entre os egípcios, a fênix estava associada ao culto de Rá, o deus-sol.

Algumas versões do mito dizem que a ave, que vivia séculos, pressentia a chegada da própria morte e construía uma pira funerária onde se auto-incendiava, renascendo das cinzas do antigo ser. Outra versão diz que a fênix se jogava nas chamas do altar de Rá, na cidade egípcia de Iunu, chamada pelos gregos de Heliópolis (Cidade do Sol).

Para os egípcios, a fênix era o símbolo da imortalidade, sendo ainda associada ao nascer e ao pôr do sol. Para os cristãos, na arte sacra, a ave representa a ressurreição de Cristo.

Os russos chamavam a ave mítica de Pássaro de Fogo

A fênix como avatar dos recomeços

Adotei a fênix como avatar pessoal há alguns anos. Justamente quando enfrentei um ciclo de morte e renascimento. Desde então, recorro ao arquétipo como metáfora pessoal, para lidar com as reviravoltas da vida, com as mudanças repentinas, com as alterações que exigem alta capacidade de adaptação.

Em sua versão mítica, e mais uma vez recorro a Ana Lucia, a fênix é considerada ícone de “esperança, persistência e transformação”. É benéfico para o espírito eleger um símbolo de tamanha força para suportar turbulências.

Nas situações complexas da vida, como recuperar-se de uma doença grave, superar a perda de uma pessoa muito querida ou enfrentar uma mudança de carreira na meia-idade, após, por exemplo, um desemprego involuntário, a ideia de que somos capazes de nos reerguer das quedas mais monumentais, realmente me inspira.

Autodescoberta no ritmo de cada um

Processos de autodescoberta também me estimulam. A cada vez que preciso me incendiar na fogueira da fênix, lembro primeiro de queimar todas aquelas coisas desnecessárias que vão se acumulando na alma, para depois abrir espaço para as verdadeiras transformações. E por mais que a literatura de autoajuda esteja recheada de dicas para “sair de zona de conforto” de forma pasteurizada e nem sempre realista, creio na capacidade humana de adaptar-se e de traçar novas rotas a cada golpe do destino ou empecilho no caminho.

Nenhum estudioso do mito da fênix sabe exatamente quanto tempo após virar cinzas, a ave renascia como um bebê “aberto a eterna novidade do mundo”, parafraseando verso famoso de Fernando Pessoa. Acredito que ela reabria os olhos para a vida de forma lenta e gradual, com profundidade e acúmulo da sabedoria de muitas vidas.

Toda mudança, para ter significado real, não pode ocorrer apenas para demonstrar aos outros “o quão bem sucedidos somos”, mas para nos revelar a beleza da nossa jornada em um universo em eterna transformação…

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*Cronicamente (In)viável é uma série de reflexões sobre ser e estar no mundo, inspirada nas minhas vivências e naquilo que observo ao redor. A série tem irmã gêmea, em outro blog, chamada (Im)paciente Crônica. Quem sabe um dia, transformo as duas em livro…

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Sobre viver confortável na própria pele

Todas as belezas, de todas as cores e tamanhos, merecem o mesmo respeito

Sentir-se confortável com o próprio corpo ainda é um desafio para as mulheres. Com tantos apelos na mídia, tantas receitas ‘milagrosas’, e os padrões que começam a ser construídos desde a infância; para algumas, olhar-se no espelho e gostar do que estão vendo é um exercício constante de construção e manutenção da autoestima. Falo das mulheres porque é sobre elas que ainda pesa a exigência por uma imagem impecável. É delas que ainda se exige que “existam para enfeitar o mundo”. É sobre o corpo feminino que existe toda uma pressão e controle. O que não significa que homens, ou qualquer outra pessoa dos gêneros para além do binarismo homem x mulher, também não sofram com padrões de beleza às vezes impossíveis de alcançar e insensatos.

O esforço diário para a construção e manutenção da autoestima é mais que necessário. E estar confortável na própria pele não significa acomodar-se aos ‘defeitos’. Até porque, onde está o manual que diz que tal característica é de fato um defeito? Pessoas não nascem com manuais e qualquer tentativa de enquadrá-las só serve para disseminar preconceitos e causar angústia. A beleza é uma construção social que se encaixa na cultura de cada época. Isso significa que ela é relativa e que algo considerado muito bonito hoje, pode não ter sido valorizado há vinte ou trinta anos. E vive-versa. E se os padrões de beleza mudam constantemente, porque não podemos fazer um exercício de aceitar todos os padrões? O que significa, de fato, que o bacana é não ter padrão.

Vale tudo sim!
“Será que vão gostar do meu cabelo pink?” “O que importa é que você gosta!”

Foi-se o tempo em que ser ‘diferente’ era algo negativo. Cada vez mais, o mundo – apesar das resistências acirradas de alguns – abre-se para a diversidade. E que coisa maravilhosa é essa tal de diversidade! Que libertador é olhar-se com amor e respeito pela história escrita nas rugas, nos fios brancos, nos quilos a mais ou em um nariz mais largo.

Vale cabelo liso? Vale. Cacheado? Vale. Crespo, volumoso, colorido, descolorido? Sim! Ser careca? Lógico! Ir ao salão toda semana? Se é possível pagar por isso, por que não? Não gostar de fazer as unhas, maquiar-se? O que tem de errado em não fazer as unhas ou pintar o rosto? Ser assíduo na academia e manter uma rotina de alimentação controlada? Se te faz bem, se é por você mesma que está fazendo o esforço de abrir mão do brigadeiro e não porque impuseram regras sobre o seu corpo e o seu existir, então faça seus exercícios e sua dieta e, principalmente seja feliz!

Saudável vestindo XL
“Amiga, tá me achando bochechuda na foto?”  “Que nada, você está linda!”

Vestir GG, XL ou qualquer outro manequim grande e ainda assim ser saudável? A ciência e a medicina estão revisando vários estudos e derrubando mitos sobre a relação peso e saúde. Já caiu por terra, por exemplo, a ideia de que o Índice de Massa Corporal (IMC) é o indicador supremo de que tudo vai bem no organismo. Na verdade, o IMC é só um dos muitos índices que precisam ser checados antes de apontar se uma pessoa considerada gorda é de fato doente. Ou se uma pessoa considerada magra é de fato saudável.

Junto com o IMC, exames precisam comprovar o estado do organismo do indivíduo. Há gordos com taxas de triglicérides, colesterol e glicemia normais e há magros com índices estratosféricos. Nem sempre, um corpo volumoso significa sedentarismo ou um corpo magro significa vida ativa. Nem sempre, um corpo maior é sinal de desleixo ou de voracidade à mesa. Estresse, descompassos hormonais, predisposição genética e uma infinidade de outros fatores podem levar alguém a engordar ou a emagrecer.

Além disso, nunca é demais lembrar que quem faz dieta e pega firme nos halteres de forma consciente e responsável, faz acompanhamento médico e nutricional, se submete a exames de rotina de acordo com as orientações desses profissionais e utiliza os serviços de preparadores físicos, fisioterapeutas, personal trainers, instrutores etc., para evitar lesões musculares e complicações às vezes difíceis de tratar.

E vale ainda lembrar que muitos gordos se exercitam sim, porque fazer exercícios não está diretamente relacionado a emagrecimento, mas a manter o corpo ativo, os músculos e articulações saudáveis para as atividades cotidianas.

Xô, gordofobia!

Saúde nem sempre é sinônimo de um corpo enxuto. A questão é sentir-se bem. E se você está bem internamente e se seu corpo está saudável vestindo 38/40, ótimo! Mas se está saudável e você se sente bem também vestindo 50/52/54…, não deixe ninguém dizer ou te fazer pensar o contrário. Empodere-se!

E aqui, ressalto, não estamos falando de extremos. Ninguém está fazendo apologia a anorexia ou a obesidade extrema. Não é bacana ser internada com desnutrição severa por privar o organismo de nutrientes essenciais à sobrevivência; ou pesando 300 quilos por algum piripaque severo no sistema endócrino. Mas também não é bacana julgar anoréxicos e obesos extremos como se fossem sub-pessoas. Antes de atirar pedras, faça um exercício de empatia e entenda que nesses casos é necessário ajudar porque a vida de alguém pode estar em risco. Mas essa ajuda precisa ser especializada, com tratamento médico e psicológico. E o apoio de quem não é especialista tem de ser oferecer compreensão e suporte emocional. Julgar, reclamar ou fazer pressão psicológica só agrava o problema.

Enfatizo que anorexia nervosa, bulimia, obesidade extrema ou qualquer outro transtorno alimentar requerem intervenções totalmente diferentes de simplesmente achar que toda pessoa que veste tamanhos extras-largos é uma ‘gorda sem força de vontade’ que tem de ser conscientizada porque está ou vai ficar doente se não emagrecer. Muitas vezes, o nosso comentário “bem intencionado” esconde preconceitos, camufla uma horrorosa gordofobia.

Beleza é um estado de espírito
“Acho que vou assumir os meus fios grisalhos” “E eu vou jogar umas mechas azuis no platinado” “Vou de vermelhão, que hoje eu quero causar!”

Gostar de se cuidar, seja da forma física ou da pele, dos cabelos, unhas, etc., é algo muito particular. Algumas pessoas são mais ligadas nessas rotinas de beleza, outras menos. A questão é ter em mente que a beleza precisa vir de dentro para fora e que padrões só servem para criar categorizações excludentes, que isolam e deprimem. Além disso, de nada adiantará ter um ‘corpo do verão’ e um ‘espírito de porco’.

Felizmente, vemos cada vez mais pessoas de todas as cores, todos os tamanhos, todas as idades, gêneros e orientações sexuais estampando capas de revistas, posando para ensaios, escrevendo blogs, postando vídeos cheios de autocuidado, autoestima e boas vibrações no Youtube. Essas iniciativas ainda são gotas no oceano de padronizações que muitas publicações, sites, redes sociais ou  programas de tv vendem como sendo ‘o modelo ideal’. Mas é um avanço e de avanço em avanço, construiremos um mundo decente. Fico feliz em ver que no mosaico das gentes maravilhosas que povoam esse nosso planeta, haverá cada vez mais espaço para as muitas belezas que existem e que ainda vão surgir!

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Mais empatia e menos sorrisos vazios, por favor!

Ser empático é reconhecer as dores e necessidades do outro como se fossem nossas
Ter empatia é reconhecer as dores e necessidades do outro como se fossem nossas

Brasileiro é aquele povo aguerrido e que tem a capacidade de rir de si mesmo e das próprias tragédias, confere? O problema é que segundo pesquisa divulgada em outubro deste ano pela Universidade do Estado do Michigan (EUA), nosso país figura na 51ª posição no ranking que mede o nível de empatia em 63 países. Vi a reportagem sobre a pesquisa essa semana, na Revista AzMina, e não fiquei surpresa. De fato, e a história recente do país está aí para comprovar, uma parte considerável dos brasileiros não consegue colocar-se no lugar do outro. Basta prestar atenção no tanto de preconceito e ódio destilados nas redes sociais. Temos fama de simpáticos, mas simpatia e empatia não são palavras sinônimas, como bem lembrou minha irmã quando conversávamos sobre a pesquisa.

Fiquei pensando nos acidentes de carro e nos engarrafamentos quilométricos que se formam porque as pessoas diminuem a velocidade para olhar os mortos e feridos no asfalto. Ter empatia, nesse caso, seria tirar o carro do caminho para deixar o socorro chegar  a quem necessita, seria não chafurdar no sangue alheio feito vampiros, apenas para saciar uma curiosidade mórbida. Fiquei pensando nas pessoas que fotografam e compartilham imagens de desastres e cenas de violência e maus-tratos no Whatsapp e Facebook. Por mais revoltado que se esteja com uma situação considerada injusta, invadir de tal forma a privacidade de alguém enlutado, ferido ou desesperado não é empatia, é crueldade. Compartilhar essas cenas não é revolta, é desumanidade.

Fiquei também pensando no sensacionalismo carniceiro da cobertura de parte da imprensa. E aqui, mesmo sendo jornalista, é preciso admitir que nem sempre nossos veículos noticiosos agem de forma respeitosa e empática. Infelizmente está virando norma caçar cliques à custa da dor alheia. As mancadas de sites, jornais e telejornais na cobertura da tragédia com a Chapecoense são prova nítida de que muitos profissionais de comunicação precisam reaprender normas básicas da profissão e conceitos essenciais para a vida em sociedade, como o respeito.

Uma parte do público rejeita coberturas toscas e manifesta essa indignação. Portais de notícias fizeram matéria mostrando o apelo dos internautas para que as conhecidos não alimentassem a rede dos carniceiros expondo fotos dos mortos no acidente aéreo. Mas, infelizmente, existe uma quantidade de interessados suficientes na selvageria para explicar, embora não tenha justificativa, a caça por audiência das coberturas sensacionalistas na mídia.

Um passeio rápido pelas caixas de comentários das reportagens que denunciam estupros, violência doméstica ou agressões contra homossexuais, por exemplo, oferecem um panorama bem real das estatísticas da pesquisa norte-americana. Com raras exceções, quase ninguém no nosso país que comenta esse tipo de matéria (não estou falando dos trolls, mas da suposta ‘gente de bem’) consegue se colocar no lugar das vítimas. Sequer consegue imaginar que a situação poderia ocorrer com familiares. As pessoas abrem mão da educação e do bom senso e promovem linchamentos virtuais, destilando crueldade e preconceito.

E a explicação para essa incapacidade de vestir a pele dessas vítimas, ou para respeitar o desespero ou o luto de uma mãe negra e pobre porque seu filho foi morto por policiais, é porque no Brasil existe mesmo, como bem diz a antropóloga ouvida pelas repórteres da AzMina, uma noção equivocada de que nós e a nossa família somos mais dignos e melhores do que aqueles que estão em uma classe social ou possuem etnia, cor de pele, grau de instrução, orientação sexual ou professam credos diferentes dos nossos. A crença na superioridade de alguns ‘eleitos’ em detrimento da ‘ralé’ é a perdição do povo brasileiro.

No dicionário, empatia significa, literalmente, a “capacidade de compreender o sentimento ou a reação de outra pessoa, imaginando-se nas mesmas circunstâncias”. Esse é um exercício que requer esforço, porque necessita de um desapego do próprio ego e a aceitação da realidade de que o mundo não gira em torno do nosso umbigo. Ser empático é ser consciente de que é preciso respeitar as diferenças e criar pontes de compreensão no lugar de muros de intolerância. Empatia pressupõe abrir mão de condenar as atitudes, comportamentos e preferências que não nos dizem respeito, para amparar o outro nas suas necessidades humanas, sem estabelecer critérios além daqueles ditados pela solidariedade.

Filosofia e psicologia explicam:

O termo empatia vem do grego empatheia, formado pelo prefixo ‘en’ (em) + ‘pathos’ (emoção, sentimento). A palavra foi usada pela primeira vez pelo filósofo alemão Theodor Lipps (1851-1914), para explicar a relação entre o artista e o espectador que se auto projeta na obra de arte. Na psicologia, a empatia é definida como uma das inteligências emocionais e é dividida em: cognitiva, quando conseguimos compreender a perspectiva psicológica do outro; e afetiva, quando conseguimos nos emocionar com as experiências alheias como se elas tivessem ocorrido conosco. A empatia também é grande um incentivo para o altruísmo, ou seja, para o amor desinteressado ao próximo, para a generosidade e a preocupação não egoísta com as necessidades de alguém, mesmo que esta pessoa não seja da nossa família. A empatia é o que nos torna humanos.

>>Confira a íntegra da pesquisa no Journal of Cross-Cultural Psychology (texto em inglês, arquivo em pdf)

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Desapegos: já fez a faxina geral de 2016?

Sapo da Sorte / Crédito: Andreia Santana / Blog Conversa de Menina
“Esfreguei o sapo da sorte tailandês e fui fazer minha lista de desapegos”

O mês de dezembro chega com alta carga de ansiedade. É a expectativa pelo ano novo, os preparativos para as confraternizações em família ou no trabalho, as compras de Natal que transformam shoppings em formigueiros humanos, o amigo secreto! Na dúvida, para controlar o estresse inerente a essa época do ano, esfreguei as costas do sapo tailandês da sorte e iniciei a lista de desapegos de 2016. No mundo virtual, alguns amigos fazem aquela faxina, às vezes necessária, na lista de contatos das redes sociais.

Dei uma geral no quarto. Da estante de livros ao guarda-roupas, passando pela sapateira e o revisteiro, a tropa foi inspecionada de A a Z. Roupas apertadas ou folgadas demais e aquelas que já não combinam com meu estilo foram separadas em sacolas para doação, junto com pares de sapatos que estavam sobrando. A pilha de revistas do tamanho do Monte Everest sofreu uma redução considerável, junto com os livros, que passaram por uma triagem rigorosa. Os excedentes de umas e de outros separados para uma biblioteca escolar ou para as caixas de doação de projetos que visam ampliar o acesso a leitura.

No restante da casa, a ordem é desatravancar o máximo possível e abrir caminhos por onde as boas energias possam circular. A norma é passar adiante tudo aquilo que já não representa seus moradores, mas podem fazer a felicidade de alguém; ou que estava quebrado e encostado em um canto roubando espaço. O importante é movimentar a energia, porque só quando a gente desapega do que não nos serve é que a vida nos dá coisas diferentes e na nossa exata medida.

Na esfera dos relacionamentos e dos sentimentos, essa época do ano, que nos deixa mais reflexivos, é um bom período para desapegar de velhas rixas, da sensação desagradável de discussões infundadas (e 2016 foi pródigo em brigas recheadas de insensatez), de rancores, invejas, preconceitos e outras ninharias que só contaminam a alma e azedam a existência.

Na hora da faxina emocional, além de limpar os contatos das redes, é importante também limpar o coração e desapegar daquelas pessoas que nos magoaram. Amigos que se revelaram o exato oposto? Deixe-os ir. Desafetos entre os vizinhos ou colegas de trabalho? Não cozinhe raivas desnecessárias, que só servem para nos adoecer e estragam a pele. Que tal abrir mão daquela pessoa que não combina com você? Nada de ficar refém de amores de perdição, porque não há contrassenso maior do que um amor que nos intimida e faz sofrer. Se está fazendo mal, então não merece o nome de amor.

A regra é abrir mão de toda a bagagem – física ou emocional – que pesa nos ombros, machuca o espírito ou simplesmente ocupa o espaço que você precisa liberar para seguir pela vida mais leve e feliz!

O sapo tailandês da sorte:

O sapo verde, esculpido em madeira, vem com um bastão, também de madeira, que deve ser esfregado nas costas do bicho para simular o som do coaxar. Enquanto a gente esfrega, deve mentalizar desejos ou simplesmente pensar positivo. Este que está na foto, ganhei de presente há alguns anos e fica na estante da minha sala, perto da porta de entrada, para atrair boas energias para a casa. O sapo é símbolo de abundância, prosperidade e fertilidade em muitas culturas. Devido a ser um animal que passa por metamorfose, está associado também a evolução espiritual.

Onde encontrar?

Lojas físicas que comercializam itens esotéricos e na internet, em sites que importam direto da Ásia.

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A boa filha à casa torna

Voltar sobre os próprios passos e retomar sonhos antigos não me metem medo. Acredito que a gente nunca retoma um caminho sendo a mesma pessoa. E nos quase cinco anos em que me afastei do Conversa de Menina para cuidar de outros projetos, muita água rolou embaixo das pontes que atravessei. Aprendi algumas coisas novas bem legais, desaprendi outras antigas nem tão bacanas assim. Gente boa entrou e saiu da minha vida (deixando suas marcas indeléveis), gente nem tão legal tentou entrar, mas não deixei ficar nódoa. A ideia é sempre evoluir e reeditar uma versão melhor de nós mesmas e faço tal e qual a Penélope da mitologia grega, costuro e desmancho os pontos quantas vezes forem necessárias.

O dito universo feminino sempre exerceu um grande fascínio sobre mim. Tanto no que diz respeito às pequenas vaidades atribuídas às mulheres, quanto por seu lado mais reflexivo, filosófico, espiritualizado. O sagrado feminino, a alma feminina e sua sensibilidade e capacidade de desenvolver empatia e abraçar causas e salvar o mundo e cuidar das dores umas das outras.

Mulher, para mim, que cresci em uma família matriarcal, multiétnica e acolhedora, sempre foi sinônimo de união, nunca de rivalidade. Antes mesmo de saber o que o conceito de *sororidade significava, me sentia parte da grande teia invisível que conecta todas as mulheres e nos torna cúmplices e aliadas umas das outras.

Da amizade de Alane, minha parceira de criação do Conversa lá nos idos de 2008, nunca abri mão. Embora, nem sempre a gente tenha conseguido se ver ao vivo e em cores com a frequência desejada. Abençoadas as redes sociais, que nos mantém próximas mesmo quando distantes.

Quando ela perguntou se eu queria voltar a cuidar dessa nossa filhota virtual, aliás ela nunca desistiu de me trazer de volta, senti que era a hora de retomar esse caminho, mas com a bagagem extra de tudo o que andei aprendendo e desaprendendo nos últimos anos. E é esse amontoado de coisas que pretendo compartilhar com vocês, espero que gostem e que não fiquem tímidas em participar do papo, opinar e me ensinar com suas visões de mundo.

Um filme para dividir:

the-first-graderAssisti um filme essa semana chamado The First Grader (no Brasil é conhecido por Uma lição de vida e na Netflix consta no catálogo como O aluno. Produção de 2010, dirigida pelo britânico Justin Chadwick). Conta a história real de um idoso queniano chamado Maruge, que consta no Guiness Book como a pessoa mais velha do mundo a alfabetizar-se.

Maruge foi militante pela independência do Quênia, nos anos 1960, e nunca teve oportunidade de estudar na infância ou juventude. Bem velhinho, ouviu no rádio que o governo de seu país iria proporcionar educação gratuita para todos e assim, acabou em uma sala de aula com crianças de 6 anos, onde conheceu a professora Jane Obinchu, uma mulher engajada na causa da educação como missão de vida.

Uma das frases do filme que adotei para a vida: “Aprenderei até ter terra nas orelhas”. Fica a contribuição de Maruge como primeira lição que quero compartilhar com vocês. Somos todos aprendizes eternos.

Quem nunca viu o filme, mas gosta de histórias delicadas e cheias de esperança, #ficadica.

Até a próxima conversa!

*Sororidade: a palavra vem do latim sóror, que significa irmã. Traduz a ideia de união e aliança entre as mulheres, baseada na empatia e companheirismo e na premissa de que juntas somos mais fortes.

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Era pra ser só uma consulta com o otorrino

11Sim, era pra ser só uma consulta com o otorrino. Estava eu lá no Centro Médico, tinha acabado de sair da sessão de terapia, e decidi ligar para a marcação de consulta para saber se havia alguma especialidade médica com vaga disponível para aquela tarde. Eu já estava lá mesmo, e já estava na hora de marcar as tais revisões. A atendente, sorridente do outro lado da linha, disparou:

– Senhora, temos uma vaga agora mesmo para o otorrino! Quer que eu marque?

Não estava nos planos ouvir que havia vaga para o otorrino. Imaginei o oftalmologista, a ginecologista… Mas aí lembrei que já fazem alguns anos (sim, anos!!!) que sinto um pouco de falta de ar quando faço muita atividade intensa, precisando respirar pela boca. Lembrei também de uma dorzinha de cabeça chatinha que me persegue também há anos (e eu mesma diagnostiquei como enxaqueca!) e lembrei da sensação de estar sempre engolindo alguma coisa, como se houvesse um bolinho de carne na garganta.

– Ah, ótimo. Estava mesmo precisando de um otorrino! Pode marcar!

Dirigi-me à recepção, entreguei os documentos e comecei a mexer distraidamente no celular, enquanto aguardava ser chamada.

– Alane, sala 6!

Ouvi um berro. Berro mesmo! E fiquei perdida sem saber de onde vinha, porque a recepcionista continuava calada, entretida na frente do computador. Encontrei a sala 6 e descobri que quem me gritava era o médico (que será aqui chamado de Dr. X). Um senhor de seus 60 e poucos anos, magrinho, calvo e de bigode. Segui até a sala 6, ele já havia entrado lá. Ao abrir a porta, ele pediu que eu sentasse. Imediatamente ele levantou, saiu em disparada, resmungando alguma coisa que não consegui compreender e me deixou lá meio perdida. Voltou e me encostou na parede:

– Vamos lá, mocinha! Qual a sua queixa?

Expliquei o que já contei acima, meio insegura sobre os sintomas. Sem saber exatamente se ele ajudaria, se havia algo11 de errado comigo mesmo ou se ele daria uma gargalhada sutil e me mandaria procurar outro especialista. Mas não, ele começou um interrogatório. Tipo interrogatório meeeeesmo! Me senti na frente de um um juiz, um delegado ou algo do gênero.

– E você sente uma dor na cabeça, que sempre acha que é enxaqueca?

(Nossa, ele tem bolinha de cristal, pensei). Fiz uma afirmação contundente com a cabeça.

– E você sente falta de ar? Costuma acordar de madrugada com essa sensação de que o ar está faltando? E sente como se tivesse com o ouvido entupido? E costuma espirrar? Mas o espirro é uma vez só (e fez o som do “atchim”) ou você espirra duas, três vezes seguidas (e fez o som do “atchim, atchim, atchim”)? Essa resposta do espirro é muito importante para mim. Pense direitinho! E você sente como se algum alimento em sua garganta estivesse voltando? Fica rouca com frequência? Tosse muito? Pense bem que tudo isso é muito importante!

Foram tantas, tantas, tantas perguntas, que fiquei bem atrapalhada, tentando me recordar do que eu sentia, afinal. Eram sintomas de anos e para mim já pereciam bastante normais. Tentei ser o mais precisa possível, percebi que eu tinha vários dos sintomas que ele perguntava e nem tinha me tocado disso antes. E fui respondendo aos poucos, até que ele chega bem perto de mim, coloca as mãos no meu rosto e pressiona os dois dedos polegares na região da testa, logo acima dos olhos.

Dou um berro, senti uma dor insuportável. E ele, ignorando completamente meu gemido de dor, repete o mesmo movimento com os dedos entre os meus olhos, no início do nariz; e depois nas bochechas. Mais dois gritos de dor, cheguei a tentar afastar as mãos dele. Meio surreal. Daí ele tira os dedos, olha pra meu rosto e dispara:

– Você tem o rosto totalmente assimétrico, você sabia disso?

(Oi???????)

– Um lado de seu rosto é completamente diferente do outro. O normal é que fossem mais simétricos. Mas no seu caso um lado é bem diferente do outro!

(Hein??????)

11Fiquei meio sem saber o que responder. Enquanto ainda penso na afirmação dele, ele me manda abrir a boca, falar “aaaaaaaaaaaa”, coloca o palito na língua, olha, olha, olha.. vira, pega uma embalagem de alguma coisa e dispara o spray em minha garganta. Atordoada, começo a sentir tudo anestesiando… Pergunto a ele se é para engolir (eu já estava começando a engolir o tal produto). Ele solta um novo berro:

– Nãããããão!!! É para cuspir!

Joga uma vasilha de metal em meu colo, dois lenços em papel em minhas mãos. Volta-se para a mesa ao lado da cadeira em que estou deitada e, repentinamente, dispara a falar da situação do País, dos pacientes, dos médicos mais moços.

– É uma falta de respeito!! Você acredita que de sete pacientes hoje, só vieram quatro? E ninguém liga para avisar! Ninguém tem o mínimo de consideração pelo médico! Toda sexta-feira é isso!

Concordo com a cabeça, com a garganta anestesiada, uma sensação angustiante… Solto um “O problema são definitivamente as pessoas, os valores por aqui andam meio invertidos” sem saber direito se cabia à pergunta, de tão tensa que eu estava. Ele vira pra mim de novo, diz que precisa ver minhas laringes, me manda abrir a boca e enfia um tubo lá dentro, com a maior naturalidade… Arregalo os olhos, a vontade é tirar a mão dele dali e sair correndo, mas resisto, com vergonha… Ele continua:

– Por isso que esse país está assim, caótico! São as pessoas mesmo. Você sabe que o País vai desmoronar, não é? Você já sabe o que vai fazer? Já traçou seu plano B? Tem algum amigo ou parente fora do País para te dar abrigo? Eu vou embora deste País! Daqui a três meses vou morar na França. Vou pedir asilo político! Aqui não podemos ser de direita, somos perseguidos pelo PT. Não podemos ter um pensamento liberal!

Ele tira o aparelho, pensa alto “preciso olhar sua traqueia. Tenho certeza do que esperar de sua traqueia”. Vira de costas de novo, e continua seu desabafo:

– Você sabia que se pedir asilo político, tudo fica mais fácil para você? Eles te recebem, te oferecem um lugar para morar. Te dão um valor para você se manter. Entregam um cartão de identidade e você poderá ficar lá até a situação aqui no Brasil melhorar.

Volta-se pra mim de novo, joga um líquido em minhas narinas, sinto tudo anestesiar de novo, e lá vem ele com o tal aparelho enfiando no meu nariz! Fico acuada, é verdade, arregalo os olhos de novo. E ele dispara:

– Qual é o seu plano B, mocinha? O caos vai se instalar em seis meses, um ano no máximo.

Só consigo dizer a ele: “Neste momento, com esse troço dentro do meu nariz, eu não consigo nem raciocinar sobre meu plano A, quem dirá o B”.

Ele vira de costas de novo, fala mais uma vez consigo mesmo em voz alta: “Vai precisar cauterizar”. Eu continuo ali, 11estatelada na cadeira, sem me mover. E ele insiste, ainda de costas: “Preciso saber seu plano B”. Inspirada numa conversa recente que tive com uma amiga, disparo, tentando encontrar qualquer plano B que fosse convincente naquele momento: “Meu plano B é ir embora pra Portugal, fazer mestrado por lá”. Ele questiona: “Já tirou seu passaporte? Você não terá muito tempo. Precisa resolver isso pra ontem”. Eu respondo: “Vou resolver isso esta semana ainda, minha avó nasceu lá, deve facilitar”. Ele diz: “Ótimo, ótimo. O seu plano B é bom. Veja logo a faculdade”.

Novamente ele se vira pra mim, vejo que tem alguma coisa com um fogo ligado em cima da mesa, ele volta a jogar spray em meu nariz e enfia um tubo de um lado e do outro. Sinto um incômodo horroroso. Me dá vontade de sair correndo de novo! Resmungo de dor e bem baixinho: “Acho que a anestesia não funcionou muito bem”. Ele não responde, acho que nem ouviu. Tira os troços das minhas narinas, que começam a escorrer. Ele me dá vários lenços de papel e me manda assoar o nariz. Obedeço.

Ele continua, enquanto eu gasto todos os lenços: “Eu sabia. Você tem um quadro evoluído de sinusite. Tem rinite alérgica e um pequeno desvio no septo nasal. Pare imediatamente de tomar café e refrigerante, comer pimenta, chocolate e frutas cítricas. Eu vou te curar dessa sinusite e vamos tratar sua rinite alérgica. Será um tratamento longo, a princípio de 90 dias”.

Preocupada com a história do desvio, pergunto a ele: “e o desvio do septo nasal, Dr., é grave?”. Ele me diz que cuidaremos do septo nasal depois e me dá uma bronca velada por não ter procurado um médico antes. Informo a ele: “Mas eu já fui pra otorrino diversas vezes na vida. Eu nunca tive um diagnóstico assim. Até já tive crise de sinusite há muitos anos e… “. Ele não perde tempo, me interrompe e volta a disparar a metralhadora verbal:

– Sabe qual é o problema? Esses médicos de hoje! Eles lidam com o paciente como se o paciente fosse um inimigo querendo destruir sua vida profissional, com um processo! Muitos são orientados por advogados, sabia? Aí os médicos passam exames e mais exames e querem simplesmente se livrar dos pacientes. Eles não dão diagnósticos. E aí acontece o que aconteceu com você. Ficam penando com sintomas simples de serem resolvidos. Um verdadeiro absurdo. Esse país não tem mais jeito mesmo. Tudo culpa das pessoas…

Ele continua resmungando, enquanto me entrega uma receita médica. Me orienta a tomar três medicamentos: um por cinco dias, o segundo por 60 dias, e o terceiro por 90 dias. Ele me diz que o tratamento será longo, que terei de passar uns dois ou três anos acompanhada por ele. Mas que depois do tratamento serei uma nova mocinha. Me diz para evitar ingerir lactose. Fico arrasada com essa informação e já resisto em segui-la. Chocolate, tudo bem, Mas lactose??? Ah, não.

Ele me dá um outro papel e me diz que devo entregá-lo à recepcionista. Despede-se de mim rapidamente, me diz para voltar com 60 dias. Levanto, saio da sala e leio o papel. Lá tem dois itens descritos. O primeiro diz: laringoscopia e traqueoscopia. O segundo: corneto inferior cauterização linear. Chego em casa e pergunto ao Dr. Google o que significava cada um daqueles procedimentos. No final da consulta mais sem noção que tive na vida, saio ao menos com a sensação de que alguém finalmente tinha conseguido achar um diagnóstico pros sintomas que eu sentia há anos e que eu nem sabia que significava alguma coisa.

Quando saí da clínica, pensei a frase que deu nome a esse texto: “Era para ser só uma consulta com o otorrino”. Imaginei que entraria no consultório, sairia com exames a fazer, voltaria em alguns dias…  Não estava psicologicamente preparada para aquela sessão de horror. Não sei vai dar certo, mas saí animada para começar o tratamento e já pensando o que me espera daqui a 60 dias no nosso reencontro. Tentarei marcar novamente a terapeuta antes dele. Mas certamente o tema do meu encontro com ela será outro.

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Making off: saiba como se monta um editorial de moda

Tem um tempo que estou para publicar esse material muito bacana que a jornalista Jane Fernandes preparou para vocês, com todo o carinho, mostrando os bastidores de um editorial de moda. Corre daqui, corre dali, às vésperas de encarar a maratona de plantões carnavalescos, tiro da gaveta, para deleite das fashionistas e pesquisadoras deste vasto mundo da beleza feminina. Os bastidores de uma produção de moda sempre rendem uma curiosidade enorme. Nesse caso, o texto e as fotos tratam da realização de um ensaio da revista europeia ModaCycle, que movimentou as ruas do Centro Histórico de Salvador, em meados de fevereiro. A produção de maquiagem contou com a experiência de Valeria Meier, make up artist baiana radicada na Suiça, que também em fevereiro, deu curso de automaquiagem e foi convidada especial do encontrinho do blog (relembrem aqui).

Em tom de crônica, de quem observa a cena, Jane une jornalismo e subjetividade. As fotos, também de sua autoria, só ajudam a compor o cenário montado na nossa imaginação a partir da sua narrativa. Deu vontade de estar lá, mas como não estávamos, saibam o que está por trás do glamour que vemos nas revistas e divirtam-se! Eu me diverti…

Por trás da cena fashion

*Jane Fernandes

Quando vemos fotos maravilhosas que nos fazem desejar a roupa da modelo, o sapato que ela usa ou a maquiagem perfeita que exibe, mal podemos imaginar a trabalheira por trás de um editorial de moda. No último dia 14 estive nos bastidores de um editorial produzido em Salvador para a revista europeia ModaCycle e aproveito o espaço para dividir essa experiência com vocês.

Tudo começou com um imprevisto, a van alugada para servir de camarim, armário, transporte e o que mais fosse preciso teve um problema mecânico. Assim que a locadora enviou uma van substituta, a maquiadora Valéria Meier partiu para buscar a modelo Bruna Cabral e seguirem para a sede da D’Malicuia. O relógio marcava 10h quando Valéria e a prima Andressa começaram a arrumar o cabelo de Bruna. O calor era escaldante e a modelo a cada instante ganhava mais volume no cabelo, formando um moicano pra lá de estilizado.

O clima era de colaboração, o fotógrafo Fábio Abu-chacra definia com a modelo que a linha era natural, enquanto seus assistentes ajudavam a segurar o material de maquiagem, as meninas da D’Malicuia (Diane Lima e Mari França) ajudavam a definir os detalhes da make up e Andressa bancava a manicure. Eu, me limitava a observar, fotografar e, às vezes, perguntar. Como fiz quando Valéria colou um fita crepe na testa da modelo após preparar a pele da menina com base, corretivo e todos os produtinhos mágicos que usa para esse fim. Me assustei por não saber detalhes da proposta, mas a fita era para delimitar bem a área dos olhos a ser pintada, assim como se faz com as paredes, hehehe.

A tarde já tinha começado quando saímos em direção ao Santo Antônio Além do Carmo. Primeira parada: Antoniu’s Bar. Hora de descarregar todo o equipamento, medir a luz e fazer todos os ajustes para as primeiras fotos. A modelo vai entrando no clima de não fazer pose e logo está “esbarrando” no balcão deste bar com ares de armazém das antigas. Lembrei de Seu Elias, do Sítio do Pica-pau Amarelo, claro que foi viagem minha, mas fazer o quê se eu lembrei?

Sequência concluída e hora de trocar de roupa, sapato e acessórios, enquanto Fábio e equipe preparam tudo para o cenário de rua, que inclui uma parede que mescla grafite e pichação. As trocas de roupa são feitas na van, tarefa facilitada por um figurino composto de vestidos, saias e blusas. Ao longo do ensaio a modelo usou seis looks diferentes e era para carregar todas essas peças que a van fazia as vezes de armário.

Nessa locação,  a ideia é colocar a modelo em movimento, então ela caminha em direção aos rebatedores, enquanto o fotógrafo a enquadra em diferentes ângulos. Bruna vem direto, vem e gira, vem e pula, vem, vem e vem inúmeras vezes, e o cabelo começa a exigir os primeiros retoques: um grampinho (ou vários) no lugar certo e muito laquê para segurar o topete. Para compensar, na próxima parada, uma pousada cheia de charme, a modelo fica o tempo todo sentada numa rede. Aí, o trabalho maior foi de Fábio e seus assistentes às voltas com todos os ajustes necessários para conseguir um perfeito jogo de luz e sombra.

Ao escurecer, fizemos um pequeno lanche em frente à igreja do Boqueirão. O dia começou com sanduíches, coxinhas e refrigerantes ainda na D’Malicuia, passou por pastéis bem recheados e neste momento estava no sanduíche de padaria. Nada de parada para almoço ou qualquer refeição mais substancial. Para matar a sede, além de refrigerante tinhamos bastante água na caixa térmica, mas com a temperatura nada amena de Salvador, no final do dia a água estava longe de ser gelada.

Mas ninguém sofria, claro que depois das fotos na escadaria e na ladeira do Passo (últimas locações) estávamos todos exaustos, mas o saldo era super positivo, pois o dia também teve muita diversão e todos estavam super instigados.  Não acompanhei a seleção das fotos, então só verei o resultado quando a ModaCycle publicar o material, mas a mistura daqueles looks, com o cenário do Santo Antônio e a competência da equipe só pode resultar num editorial sensacional.

*Jane Fernandes é jornalista e proprietária da Quarta Via

**O texto foi cedido pela autora para o blog Conversa de Menina e publicado mediante citação da autoria e respeito à integridade do conteúdo. Todos os direitos são reservados à Jane Fernandes/Quarta Via.

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Crônica de Menina: Amor não correspondido

*Texto de ficção criado por Andreia Santana

Débora amava Everaldo desde criança. E desde criança ele sempre a tratava como uma irmãzinha mais nova. Estava sempre por perto, ajudava a segurar todas as barras, secava suas lágrimas, a fazia rir, a levava para lá e para cá quando ela estava sem carro, até pagava as dívidas do seu cartão de crédito! Mas não queria ir além daquilo. “Somos amigos, quero ser seu amigo para sempre”. Mas ela queria mais, ela queria abraços que os transformassem em um só, queria beijos de tirar o fôlego, queria cenas de ciúmes, queria cartas de amor, serenata, sexo, carinho, quatro filhos, uma casa amarela, dois cachorros e um gato. Já tinha dito para ele, com todas as letras: ” eu te amo”, tinha se descabelado, tatuado o nome dele na pele, com henna, dançado nua, pixado as paredes do quarto, mudado de cidade cinco vezes para segui-lo nas trocas de emprego, tinha se humilhado, implorado, chorado, gritado, tinha feito tudo o que as mulheres apaixonadas fazem e ido mais além. Ele continuava indiferente, oferecendo as migalhas de uma amizade que a torturava, mas sem a qual não sabia viver. Um dia, Débora desencantou. Ocorreu quando aquele cara novo tinha entrado na sala de aula, sorrindo para ela. Ele perguntou se ali era a turma de Literatura Comparada I. Depois, puxou a cadeira sem cerimônia, sentou ao seu lado, pegou seu caderno de capa lilás e escreveu: “Oi, me chamo Orlando e você tem os olhos verdes mais bonitos que já vi na vida!” O mundo voltou a mover-se, a henna desbotou, uma pintura no quarto apagou o nome de Everaldo, outra pintura riscou por cima o de Orlando, tatuado com agulha, em letras verdes e brilhantes, na pele de Débora. A casa dos dois era amarela, mas o jardim tinha todas as cores. Tiveram dois filhos e duas filhas. Havia dois cachorros, o gato Snack e a coelha Pretinha…Everaldo? Corre atrás dela até hoje. Se descabela, implora, pinta seu nome nas paredes, se humilha, promete o céu, a lua, chora e lamenta o tempo perdido.

*Originalmente publicado em fevereiro de 2010, na série Mulher Sem Retoque, do meu blog pessoal, o Mar de Histórias.

**Andreia Santana, 37 anos, jornalista, natural de Salvador e aspirante a escritora. Fundou o blog Conversa de Menina em dezembro de 2008, junto com Alane Virgínia, e deixou o projeto em 20/09/2011, para dedicar-se aos projetos pessoais em literatura.

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