Cronicamente (In)viável: as muitas faces da felicidade

Felicidade, tal qual o amor, não tem receita padrão. Dia desses me perguntaram se eu era uma pessoa feliz. Matutei na pergunta e, de cara, pensei em responder que felicidade é um conceito muito amplo e aberto para ser enquadrado nesse ou naquele modelo. Que pessoas com estilos de vida diferentes definem e vivem felicidades diferentes.

Quem perguntou se preocupa comigo, o que por si só, me deixa bastante feliz. Porque nesse caso específico, o interesse é genuíno. A pergunta veio de alguém que eu tenho certeza de que me ama e quer me ver de bem com a vida eternamente, embora isso seja utopia. Reagiria diferente se a pergunta viesse daquele tipo de pessoa que imagina a vida como um ranking e mede seu modelo de felicidade com o dos demais, acreditando-se superior. Mas nenhuma vida vale mais que outra, nenhuma escolha é melhor que outra!

Para esses tipos, não tenho paciência de explicar nada. Já para quem não tem preconceito imbuído na pergunta e só não entende muito bem como funciona ser feliz fora do padrão, para os de coração aberto, explico que: se pode ser feliz estando ou não em um relacionamento; ganhando milhares de reais ou só algumas centenas por mês; morando em arranha-céus ou no apartamento simples de dois quartos; vestindo 38 ou 50; no bar com a turma de amigos ou maratonando séries da Netflix; aos 20, aos 30 e aos 43 (minha idade)…

Felicidade vai e vem

Vale ter em mente que aquilo que nos faz bem é o que também nos trará essa tão sonhada felicidade. Mesmo que seja algo simples como ler um livro ou dormir até mais tarde no dia de folga. E entender que, o que me deixa feliz pode não ter o mesmo efeito em outra pessoa. Porque o estado de felicidade depende de vários fatores, como os valores que alguém cultiva, o que cada pessoa prioriza na vida (o trabalho, a família, o lazer…), o momento que cada um está vivendo, os perrengues que surgem no caminho para resolver, a maneira como se encara os problemas.

A grande tragédia da nossa sociedade é que as pessoas perderam a capacidade de sentir dor e por isso buscam anestesiar qualquer efeito adverso de uma contrariedade. Do hedonismo meio infantil e sem limites aos medicamentos tarja preta, qualquer coisa que entorpeça servirá para que a dor não lateje, não incomode, não atrapalhe o caminho para a felicidade suprema.

Mas é impossível conquistar a felicidade suprema! Em algum momento sentiremos tristeza, teremos algum aborrecimento, ficaremos estressados, precisaremos chorar rios inteiros. Faz parte da vida ter frustrações. Ninguém é 100% feliz ou otimista o tempo todo e quem finge que é, está cavando um poço fundo e perigoso. Alguma coisa sempre vai incomodar e é até importante que esses incômodos apareçam, porque nos fazem rever posturas, retraçar caminhos, nos ajudam a amadurecer.

Expectativas x felicidade

A gente sempre espera alguma coisa. Da vida, do destino, dos outros. Zerar completamente as expectativas e aceitar de bom grado aquilo que chega é um exercício demorado, penoso, requer um grau de desapego que nem todo mundo tem. Uma certa dose de expectativa, honestamente, eu até acho bom que a gente tenha. Porque é uma forma de estímulo para seguirmos em frente, traz uma dose benéfica de esperança.

O que não pode é elevar as expectativas a níveis impossíveis, fechando-se em exigências que não podem ser supridas. Porque daí a esperança dará lugar à amargura e acredito que amargurados não conseguem enxergar a felicidade, mesmo que ela esteja ao alcance do nariz.

Tem fases na vida que parece que o destino testa nossa paciência. Os religiosos dirão que parece que Deus testa nossa fé. Ou então, é porque nesse jogo cósmico do qual fazemos parte, as chances de algo dar certo ou dar errado são iguais. Ou ainda, porque temos uma capacidade absurda para sermos teimosos e insistirmos nas coisas que lá no fundo sabemos que não são boas para nós. E quando elas desandam, botamos a culpa nessa ‘entidade’ chamada destino, ou xingamos Murphy.

O grande jogo da vida

Tem gente que vive um dia de cada vez e improvisa de acordo com a situação. Outros precisam ter tudo esquematizado de forma tão obsessiva, que quando algo sai do trilho, é um deus nos aguda. Outros ainda, entregam a sorte nas mãos do acaso e confiam na “improbabilidade infinita”. Tem até os que sequer acreditam em sorte e acham que tudo é questão de trabalhar duro e merecer. E, por fim, há ainda os que vivem em eterna roleta russa com a vida, o que de certa forma, ao menos para mim, não é bacana.

A grande sacada é perceber que quanto maior for a nossa expectativa, maiores também as chances da frustração ocorrer. E daí que é preciso aos poucos, exercitar o cultivo da gratidão pelo que a vida nos dá. Mesmo quando aquilo que consideramos um presente, não seja grande coisa do ponto de vista alheio. O que vale é o que nós sentimos, não o que os outros querem que a gente sinta.

Acredito que se cada um tentar um exercício de empatia e, de vez em quando, se colocar nos lugares uns dos outros, a visão do que é felicidade vai se expandir bastante e revelar que ela tem muitas faces. E cada um vestirá aquela que lhe der mais conforto e paz de espírito.

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