Conto: Medo da chuva

Os trovões e raios assustavam. Quando a chuva jorrava sua ira sobre o telhado de casa, Julia corria para montar a sua cabana. O destino era a cama da mãe. Embaixo do braço, uma colcha bem grande e quentinha. Em seguida, voltava ao seu quarto para carregar todos os seus bichinhos de pelúcia para lá. Ali, passava horas do dia, até que as chuvas decidissem dar trégua.

Julia acreditava que seus bichinhos tinham alma, tinham vida. Assim como ela, ficavam assustados e com medo do barulho alto e do clarão que desciam do céu. Sob a coberta, conversa com seus amiguinhos. Não era hora de brincar, mas de bater papo de gente grande.

Ela, a mais velha da trupe, se esforçava para manter os bichinhos calmos, convencê-los de que nada aconteceria a eles, era só mais um dia de chuva forte, ia passar a qualquer momento e novamente o sol limparia o céu e voltaria a sorrir lá de cima.

Ali ela ficava o tempo que fosse necessário, até acreditar que eles estavam mais tranquilos e felizes. Ali, junto com eles, protegida por uma redoma que só uma criança seria capaz de compreender.

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Conto: Universo paralelo

O seu corpo continuava o mesmo de quinze anos atrás. Seu rosto, o tempo fizera a gentileza de não pregar marcas. Não havia rugas, sequer linhas de expressão. Não fosse pelo olhar mais maduro e pelos pneuzinhos nas costas, certamente teria a impressão de ainda estar vivendo o passado. Nos encontrávamos com uma certa frequência, em um quarto de motel. Ali dentro passávamos horas do dia em nosso universo paralelo, sem problemas ou rotina. Ao final, pagávamos a conta, o ingresso forçado à vida real. Quando a saudade apertava, uma mensagem sugestiva no celular era suficiente, e lá estávamos novamente, em nosso faz de conta particular, entre risos, dengos e roçar de pernas. Era cômodo para nós dois: sem satisfações, angústias, DRs ou cobranças. Assim eu pensava que nossa história era contada. Até sentir a primeira ponta de quero mais. Por um tempo, o medo de desconstruir aquela relação me atormentou. A intimidade é uma merda, seria possível conquistá-la com outro alguém? Perguntava-me constantemente. Embora enxergasse a resposta com nitidez, arranjava desculpas esfarrapadas para me convencer do contrário. E assim foi-se o tempo. Hoje estou aqui sozinha, deitada na mesma cama que costumávamos dividir, escrevendo esta carta que jamais deixarei chegar a tuas mãos, questionando-me se algum dia me arrependerei da decisão de ir embora de sua vida e com a certeza de que ainda não é o momento de pensar nesta resposta.

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Conto: Somos Estrelas

Luna puxava o pai pela mão. É que a noite era de lua cheia e eles gostavam de levar uma toalha, esticar na areia da praia, deitar e olhar para o céu. Ficavam naquela posição durante horas… Desde que o vovô de Luna foi convocado para fazer companhia ao Papai do Céu, a menina criou a esperança de que, um dia, quando o céu estivesse bem iluminado, pudesse ver o avô acenando lá de cima.

– Cadê aquela estrela, papai? Aquela que brilhava ali.

[apontou para o céu, um lugar qualquer do céu]

– Vai ver ela está dormindo hoje. A estrelinha deve estar cansada de ter brilhado tanto nos últimos dias. Acho que ela decidiu dormir mais cedo…

– Mas papai, as estrelas dormem?

– Dormem, filha. As estrelas somos nós. É no que nos transformamos quando vamos para o céu. Quando deixamos as pessoas que amamos aqui, nós viramos estrelas e ficamos brilhando no céu para iluminar a noite.

– Ahhhhh… Então meu vô virou estrela?

[e deu um sorriso largo de felicidade]

– Virou, filha. Seu avô virou estrela, daquela que vai sempre brilhar pra você, que nunca vai dormir, e vai ficar acesa no céu todos os dias…

– Ah, pai, assim ele vai ficar cansadinho. Vou rezar para o vô dormir, né? Senão como vai ser? O vô já está tão velhinho, precisa descansar. Não pode ficar acordado todos os dias sem dormir.

– Reza, então, filha. Reza para o seu avô descansar bastante e poder brilhar intensamente nos dias em que estivermos aqui, deitados, olhando pra ele.

Luna não mais respondeu, apenas sorriu. O olhar perdido contando as estrelas no céu, tentando imaginar qual delas seria o seu avô, pensando no que as pessoas estariam fazendo lá em cima naquele momento. O céu estava tão iluminado, cheio de pontos de luz. Seria uma festa? Talvez as estrelinhas estivessem comemorando o aniversário de alguém…

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